Marcelo Rogelin et al. Adriana Ferraz Martins Graça Aranha Fernanda Rodrigues Fonseca Rosemeri Maurici da Silva Guilherme Loureiro Fialho
Resumo
Fundamento
Sobreviventes da covid-19 longa podem apresentar comprometimento funcional persistente e sequelas cardiopulmonares tardias. O ventrículo direito (VD) é particularmente suscetível a lesões, e a deformação longitudinal da parede livre do ventrículo direito (DLPLVD), medida pela ecocardiografia bidimensional com speckle tracking (2D-STE), pode detectar disfunção sistólica subclínica do VD.
Objetivo
Avaliar as alterações longitudinais da função sistólica do VD, por meio da DLPLVD, da excursão sistólica do plano do anel tricúspide (TAPSE), da variação fracional da área (FAC) e da velocidade sistólica do anel tricúspide (S′), e investigar suas associações com a capacidade funcional (teste de sentar e levantar de 30 segundos [TSL-30]), o estado funcional (Escala de Estado Funcional Pós-COVID-19 [PCFS]), a dispneia (escala modificada do Medical Research Council [mMRC]) e o coeficiente de transferência do monóxido de carbono (KCO) em sobreviventes da covid-19 pós-aguda.
Métodos
Esta análise observacional incluiu participantes de uma prospectiva de covid-19 pós-aguda avaliados em duas visitas de acompanhamento (AV1 e AV2), aproximadamente 4 e 13 meses após a infecção aguda. Foram incluídos adultos com infecção por SARS-CoV-2 confirmada e ecocardiografia transtorácica (ETT) passível de análise por 2D-STE. A significância estatística foi definida como p < 0,05 bicaudal.
Resultados
Foram incluídos 49 pacientes; 55,1% eram mulheres, a idade média foi de 50,7 ± 10,3 anos, 63,3% apresentavam obesidade, 77,6% necessitaram de internação em unidade de terapia intensiva (UTI) e 67,3% foram submetidos à ventilação mecânica invasiva (VMI). O desempenho no TSL-30 melhorou (10,1 ± 3,3 vs. 11,6 ± 3,1 repetições; p = 0,004), e o KCO aumentou (4,1 ± 0,7 vs. 4,3 ± 0,8 ml/min/mmHg/l; p = 0,002), enquanto os escores da mMRC (p = 0,43) e a mediana dos escores da PCFS (p = 0,11) permaneceram inalterados. A TAPSE apresentou redução discreta, mas permaneceu dentro da faixa de referência da normalidade (2,2 ± 0,3 vs. 2,1 ± 0,2 cm; p = 0,03), enquanto a DLPLVD, a FAC e a S′ não apresentaram alterações significativas ao longo do tempo. As correlações transversais entre os índices de função sistólica do VD e os desfechos clínicos foram fracas e não significativas tanto na AV1 quanto na AV2 (|r| 0,05). Na análise longitudinal, as alterações da DLPLVD apresentaram correlação positiva com as alterações do KCO (r = 0,33; p = 0,05), enquanto as alterações da FAC apresentaram correlação inversa com as alterações dos escores da PCFS (r = −0,35; p = 0,02).
Conclusão
Nesta coorte de sobreviventes da covid-19 pós-aguda, a capacidade funcional e a capacidade de difusão pulmonar melhoraram ao longo do tempo, enquanto a DLPLVD permaneceu persistentemente reduzida, sem alterações longitudinais significativas. Esses achados exploratórios sugerem que os índices de função sistólica do VD não devem ser interpretados isoladamente como marcadores de limitação funcional durante o período tardio da covid-19 pós-aguda e reforçam o uso de uma abordagem integrada e multiparamétrica para a avaliação desses pacientes.