Resumo
Fundamento
A doença cardíaca, que afeta cerca de 4% das gestações, é a principal causa não obstétrica de morte materna. Estima-se que 40% dessas mortes poderiam ser evitadas com a melhor compreensão sobre os riscos da gravidez.
Objetivos
Desenvolver o Registro Brasileiro de Cardiopatias na Gravidez (REBECGA) para estudar a prevalência, as complicações e a mortalidade materna associadas às cardiopatias durante a gestação e após o parto.
Métodos
Estudo multicêntrico e retrospectivo da evolução da gestação até 12 meses após seu término, em mulheres com doenças cardíacas, com análise das variáveis preditivas dos desfechos maternos. Adotou-se nível de significância bilateral de 5% para a análise estatística.
Resultados
Incluiu-se 638 gestantes com os seguintes diagnósticos: doença valvar (37,8%), cardiopatias congênitas (35,7%), arritmias sem lesão cardíaca estrutural (14,7%), cardiomiopatias (11,3%) e outras cardiopatias (6,4%). As principais complicações foram: insuficiência cardíaca (16,7%), arritmias (10,7%) e síncope (8,0%), com 18 óbitos (2,8%) maternos (2,8%) sendo 10 no puerpério. Parto cesárea foi indicado em 62,9%, com 25,7% de prematuros e 3,2% de perdas fetais. A análise multivariada identificou classe de risco IV da Organização Mundial da Saúde modificada (OR 3,51; IC 95% 1,75-7,04; p<0,001); CF III/IV da New York Heart Association (NYHA) (OR 2,27; IC 95% 1,12-4,60; p=0,023) e hipertensão pulmonar (OR 2,45; IC95% 1,05-5,70; p=0,037) como variáveis preditivas de complicações e óbitos maternos.
Conclusões
O REBECGA revelou a prevalência da doença valvar, a insuficiência cardíaca como principal complicação, o puerpério como um período crítico para os óbitos maternos e identificou variáveis preditivas de risco para a gravidez em mulheres com doenças cardíacas.