Introdução
As doenças cardiovasculares (DCV) e suas patologias associadas encontram-se entre as maiores causas de morbidade e mortalidade, acarretando cerca de 17,3 milhões de mortes por ano. Como um todo, essa classe patológica apresenta etiologia multifatorial. Seus possíveis prognósticos levam a problemas de saúde pública, estando sua incidência relacionada a fatores de risco comportamentais, metabólicos e genéticos. Apesar dos tratamentos preconizados para as DCV e seus possíveis prognósticos diminuírem o ritmo de progressão da doença, cresce a necessidade de se desenvolver abordagens terapêuticas capazes de reverter a patologia e suas complicações.
Os avanços no campo da biologia molecular e celular vêm possibilitando a elucidação de vias moleculares e causas genéticas envolvidas no estabelecimento e progressão das DCV, traçando um novo ponto de vista sobre a prevenção, tratamento e possíveis desfechos dessa classe patológica. Recentes descobertas, tanto experimentais quanto obtidas por ferramentas de bioinformática, a respeito das bases moleculares das disfunções cardiovasculares, vêm apontando alvos terapêuticos consideráveis. Entretanto, a maioria destes alvos não pode ser farmacologicamente manipulada, o que os torna candidatos potenciais para a terapia gênica, como é o caso dos fatores envolvidos, por exemplo, com angiogênese, apoptose e disfunção endotelial. Dentro desse contexto, a manipulação de genes pode auxiliar na supressão de fatores genéticos relacionados à incidência das DCV, bem como na minimização das complicações clínicas causadas por eventos isquêmicos e oclusivos. Assim, o desenvolvimento e o aprimoramento de ferramentas de edição de genomas possibilitam o surgimento de terapias focadas nos fatores de risco genéticos ao dano cardiovascular e nos problemas morfofisiológicos fundamentais causados pelas DCV. Nesse contexto, o sistema formado por repetições palindrômicas curtas, interespaçadas e regularmente agrupadas (do inglês, Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats, CRISPR), e sua proteína associada-9 (do inglês, CRISPR associated protein-9, Cas9), destaca-se devido ao seu fácil uso, alta especificidade, fácil manipulação in vitro e in vivo, além da possibilidade da edição de múltiplos alvos simultaneamente. Considerando-se a complexidade genômica que intervém nas DCV, indicaremos aqui algumas possibilidades de aplicação da ferramenta CRISPR/Cas9 no âmbito da Cardiologia.
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