O Eletrocardiograma como Janela para a Patologia Atrial: Percepções de uma Grande Coorte Brasileira sobre Cardiomiopatia Atrial e Acidente Vascular Cerebral
O acidente vascular cerebral (AVC) continua sendo uma das principais causas de morte e incapacidade em todo o mundo, com eventos isquêmicos responsáveis por aproximadamente 87% dos casos. Apesar da investigação etiológica exaustiva, até 25% dos AVCs isquêmicos permanecem sem explicação — o chamado AVC criptogênico — uma designação que acarreta implicações significativas para a prevenção secundária, dada uma taxa média de recorrência de 3–6% ao ano., A fibrilação atrial (FA) tem sido, por muito tempo, o principal fator de risco cardioembólico nesse contexto; no entanto, evidências crescentes sugerem que anormalidades atriais estruturais e funcionais — coletivamente englobadas pelo conceito de cardiomiopatia atrial (CA) — podem impulsionar eventos tromboembólicos por meio de uma via independente, mesmo na ausência de arritmia manifesta. A declaração de consenso atualizada de 2024 da EHRA, HRS, APHRS e LAHRS consolida um sistema de estadiamento para CA integrando biomarcadores, geometria atrial e parâmetros eletrofisiológicos, estabelecendo firmemente a CA como uma entidade patológica distinta da — embora intimamente associada à — FA. Nesse contexto, o eletrocardiograma (ECG) de 12 derivações — simples, barato e universalmente disponível — oferece uma abordagem prática para a detecção de CA por meio de dois marcadores estabelecidos: duração prolongada da onda P (>120 ms) e força terminal da onda P elevada na derivação V1 (PTFV1 >4.000 μV·ms). Estudos anteriores do Cardiovascular Health Study (CHS), do Multi-Ethnic Study of Atherosclerosis (MESA) e da coorte Atherosclerosis Risk in Communities (ARIC) demonstraram que esses marcadores predizem independentemente o AVC isquêmico;– no entanto, sua relevância em populações latino-americanas, com um perfil cardiovascular e sociodemográfico distinto, permaneceu uma importante lacuna de evidências.
Nesta edição dos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, o estudo de Lêu et al. aborda essa lacuna com notável rigor. Utilizando o conjunto de dados CODE-BH — um subconjunto da coorte Clinical Outcomes in Digital Electrocardiography (CODE), um dos maiores bancos de dados de ECG digital anotado do mundo — os autores reuniram uma coorte retrospectiva de 245.588 pacientes com idade ≥40 anos em ritmo sinusal, que realizaram ECGs em Belo Horizonte entre 2006 e 2018. Os dados eletrocardiográficos foram vinculados probabilisticamente aos bancos de dados do Sistema Único de Saúde (SUS) — o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) e o Sistema de Informações Hospitalares (SIH) — permitindo a identificação de óbitos e internações por AVC, mortalidade cardiovascular, FA incidente e síndrome coronariana aguda durante um acompanhamento médio de 3,5 anos. Após ajuste incremental para idade, sexo, fatores de risco cardiovascular e hipertrofia ventricular esquerda, tanto a duração prolongada da onda P (HR 1,24; IC 95% 1,12–1,36) quanto a PTFV1 elevada (HR 1,20; IC 95% 1,05–1,38) foram associadas independentemente ao desfecho composto de morte ou hospitalização por AVC. A duração prolongada da onda P também foi associada à mortalidade cardiovascular e à incidência de FA, enquanto a PTFV1 elevada foi associada à mortalidade por todas as causas e à mortalidade cardiovascular.
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