Cardiologia Comportamental: Uma Nova Fronteira de Atuação da Cardiologia
As doenças cardiovasculares representam a principal causa de morbimortalidade ao redor do mundo, em especial no Brasil, apesar dos avanços no diagnóstico e no tratamento. Especula-se que parte desses eventos adversos esteja associada à falta de aderência às recomendações médicas (farmacológicas e não farmacológicas) por parte dos pacientes,. Nesse sentido, existe a recomendação de que a avaliação da aderência e eventualmente a identificação das causas de falha na aderência sejam parte da anamnese cardiovascular. No estudo publicado por Oliveira-Filho e cols. nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia, intitulado “Otimização da adesão terapêutica pós-alta hospitalar de pacientes com DCV: ensaio clínico randomizado – Estudo piloto”, o tema aderência é abordado mediante um estudo clínico randomizado conduzido pelos autores. Nesse estudo, 61 pacientes com diagnóstico de doença cardiovascular no momento da alta hospitalar foram randomizados para receber uma intervenção centrada em educação e informação, incluindo simplificação de posologia, utilizando como base uma escala de aderência de quatro itens versus tratamento padrão. Os autores compararam desfechos de aderência em um mês e doze meses após o início do acompanhamento, além de desfechos clínicos (readmissão hospitalar e óbito) no período de acompanhamento. A taxa de aderência foi avaliada de acordo com a escala de adesão terapêutica de oito itens de Morisky,. Em um mês de acompanhamento, a taxa de aderência foi significativamente maior no grupo intervenção (83,3% versus 48,4%). Ao longo do acompanhamento a taxa de aderência decaiu entre os grupos, não sendo possível encontrar diferença estatisticamente significativa, permanecendo, entretanto, aproximadamente 61% no grupo intervenção. Quanto às readmissões e óbitos, não houve diferença significativa entre os grupos, embora o estudo não tenha sido desenhado para esse objetivo primordialmente. Ressaltamos, contudo, que, considerando os aderentes, independentemente do grupo de alocação, a taxa de desfechos clínicos foi menor quando comparada aos pacientes não aderentes. Em estudo recente, Castellano e cols.avaliaram a polipílula versus tratamento padrão, em pacientes pós-infarto agudo do miocárdio, observando melhora na taxa de aderência, mas não em desfechos cardiovasculares. Comum em ambos estudos, a simplificação de posologia parece ser efetiva e deve ser uma tendência.
Metodologicamente bem planejado e executado, o estudo de Oliveira-Filho e cols. traz ensinamentos para a prática clínica e para a maneira pela qual médicos e profissionais de saúde poderiam interagir com seus pacientes. Educação do paciente e simplificação da posologia devem ser parte da estratégia de melhorar aderência dos pacientes. Além disso, o pano de fundo desse estudo, em última análise, remete a comportamento. Nos últimos anos, a denominação “Cardiologia comportamental” tem sido utilizada para definir uma nova fronteira de atuação da Cardiologia e atualmente engloba a relação entre a saúde mental e cardiovascular, a influência de fatores psicossociais sobre a incidência das doenças cardiovasculares, e finalmente aspectos comportamentais dos pacientes, que determinam maior ou menor adesão às recomendações médicas,. Diversas teorias comportamentais se completam e procuram explorar os diferentes domínios que regem o comportamento de um paciente ante um fator de risco ou mesmo uma doença. Da mesma forma, há inúmeros exemplos na literatura demonstrando que intervenções em saúde, no âmbito individual ou populacional, têm maior chance de êxito quando baseadas na combinação de teorias comportamentais, com destaque para o modelo de crença em saúde, os estágios de mudança, a teoria cognitiva social, autoeficácia e reforço positivo. Em todas essas teorias, a questão de informação e educação do paciente é central.
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