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        <journal-title>Arquivos Brasileiros de Cardiologia</journal-title>
        <abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Arq. Bras. Cardiol.</abbrev-journal-title>
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      <publisher>
        <publisher-name>Sociedade Brasileira de Cardiologia - SBC</publisher-name>
        <publisher-loc>S&#227;o Paulo, SP, Brazil</publisher-loc>
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          <subject>Ponto de Vista</subject>
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        <article-title>E(TI)cossistema da cardiologia diretriz, mecenas do estado da arte</article-title>
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            <surname>Grinberg</surname>
            <given-names>Max</given-names>
          </name>
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        <institution content-type="orgname">USP</institution>
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        <month>11</month>
        <year>2007</year>
      </pub-date>
      <volume>89</volume>
      <issue>5</issue>
      <fpage>e136</fpage>
      <lpage>e162</lpage>
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        <day>07</day>
        <month>12</month>
        <year>2007</year>
      </pub-date>
    </article-meta>
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  <body>
    <p>
      <bold>PONTO DE VISTA</bold>
    </p>
    <p>
      <bold>E<sup>(TI)</sup>cossistema da cardiologia diretriz, mecenas do estado da arte</bold>
    </p>
    <p>
      <bold>Max Grinberg</bold>
    </p>
    <p>Instituto do Cora&#231;&#227;o do Hospital das Cl&#237;nicas &#150; FMUSP &#150; S&#227;o Paulo, SP &#150; Brasil</p>
    <p>
      <xref ref-type="corresp" rid="back">Correspond&#234;ncia</xref>
    </p>
    <p><bold>Palavras-chave:</bold> Bio&#233;tica; diretrizes, coment&#225;rio (tipo de publica&#231;&#227;o), parecer de especialista.</p>
    <p>
      <italic>
        <bold>"... guidelines, anything less than viewed as objective and reflecting broad consensus, may be inadequate to overcome the rugged individualism inherent to physicians..." Anthony N. De Maria (Editor-in-chief Journal of the American College of Cardiology)</bold>
      </italic>
    </p>
    <p>
      <bold>
        <italic>"...porque sabes como &#233; dif&#237;cil afirmar o que n&#227;o se pode comprovar pela argumenta&#231;&#227;o ou o que n&#227;o tem lembran&#231;a de onde viu mencionado ou provado ..."</italic>
      </bold>
    </p>
    <p>
      <bold>
        <italic>Moshe ben Maimon- Maimonides (1135-1204)</italic>
      </bold>
    </p>
    <p>
      <bold>
        <italic>"... a experi&#234;ncia &#233; o excelente mestre que testa antes de ministrar a li&#231;&#227;o..."</italic>
      </bold>
    </p>
    <p>
      <bold>
        <italic>Vernon Sanders Law (1930-...)</italic>
      </bold>
    </p>
    <p>
      <bold>I - Nota preliminar</bold>
    </p>
    <p>Declaro que n&#227;o tenho conflito de interesses, mas que tenho interesse nos conflitos das <italic>diretrizes</italic> ligados &#224; sele&#231;&#227;o dos dados cient&#237;ficos, &#224; interpreta&#231;&#227;o como evid&#234;ncia, &#224; classifica&#231;&#227;o das recomenda&#231;&#245;es e a sua implementa&#231;&#227;o. &#201; uma forma de acompanhar, pelo lado de dentro, o processo de equil&#237;brio entre os dois p&#243;los do m&#233;dico, a Medicina e o paciente, no ecossistema da Cardiologia; ou seja, seguir de perto a din&#226;mica entre o que estaria tecnicamente em conformidade com o que se pretende a melhor Medicina, &#224; disposi&#231;&#227;o da rela&#231;&#227;o m&#233;dico-paciente - que subtende um exerc&#237;cio cont&#237;nuo- e a aplica&#231;&#227;o das suas unidades que melhor completariam as necessidades individuais- que subentende um exerc&#237;cio de momento- para que resulte a "melhor decis&#227;o" para a situa&#231;&#227;o.</p>
    <p>Facilita analisar as responsabilidades que decorrem do privil&#233;gio de estar capacitado a tomar decis&#245;es, enquanto locomotiva, e clarifica sobre direitos e deveres da postura de subordina&#231;&#227;o, enquanto vag&#227;o, mesmos trilhos, mesmas esta&#231;&#245;es, mesmo destino.</p>
    <p>Provoca reflex&#245;es sobre a quest&#227;o &#233;tica da disson&#226;ncia entre uma ci&#234;ncia de medidas objetivas-mas que lembra uma linha de produ&#231;&#227;o e suscita uma cultura de controle e padroniza&#231;&#227;o-, e a arte da compet&#234;ncia e julgamento- que n&#227;o separa quem conhece do seu conhecimento, mas que lembra intui&#231;&#245;es e "sacadas"<sup>1</sup>.</p>
    <p>Fornece suporte para apreciar a irrup&#231;&#227;o das perguntas que partem da beira do leito -mas n&#227;o exclusivamente-, inspiradas pelo contato direto com as realidades m&#243;rbidas, e que, tornando-se hip&#243;teses para pesquisas, geram dados cient&#237;ficos, respostas-fontes pass&#237;veis de retornarem &#224; beira do leito que as provocou, como evid&#234;ncias valorizadas.</p>
    <p>Ajuda a embrenhar-se na alta complexidade da biologia humana para conhecer sutilezas inerentes &#224;s mat&#233;rias-primas fornecidas pelas doen&#231;as e ao trabalhado com elas, em v&#225;rios n&#237;veis do conhecimento, que comp&#245;em, no &#226;mbito das cardiopatias, o que poder&#237;amos denominar de produto interno bruto do ecossistema da Cardiologia.</p>
    <p>Suscita entender o quanto a beira do leito comportaria diretriz funcionando como "autoridade" para recomenda&#231;&#227;o e obedi&#234;ncia; e, apesar de incutir confian&#231;a, ela n&#227;o cercear a liberdade profissional do m&#233;dico; e, ademais, apreciar o quanto a mesma beira do leito sofre, n&#227;o somente, com ambival&#234;ncias perniciosas-retroalimentadas por certas infra&#231;&#245;es &#233;ticas-, como tamb&#233;m, com a abdica&#231;&#227;o do processo decis&#243;rio- pela m&#225;-atitude do desconhecimento e incapacita&#231;&#227;o, e que pode se materializar em neglig&#234;ncia.</p>
    <p>Procura a real dimens&#227;o do quanto a beira do leito &#233; ambiente para indecis&#245;es -fa&#231;o? o que fa&#231;o? quando fa&#231;o? como fa&#231;o? E, assim, repercutir o uso de diretriz como estrat&#233;gia para aperfei&#231;oar a invers&#227;o -que o m&#233;dico j&#225; costuma praticar na beira do leito- do conceito que a humanidade "... <italic>est&#225; dividida em decision makers and abdicators... a maioria tende a se comportar como abdicators...muitos requerem a press&#227;o estimulante do deadline para tomar decis&#227;o... com risco de impulsividade... "</italic>(Theodore Isaac Rubin, 1923-...). Na terap&#234;utica, as respostas parecem ser mais positivas, mas na preven&#231;&#227;o, a implementa&#231;&#227;o de diretrizes tem sido negativamente influenciada pela carapu&#231;a da supra assertiva na cabe&#231;a do paciente.</p>
    <p>Diretriz harmoniza-se ao uso de apoio &#224; tomada de decis&#227;o, mas n&#227;o admite o abuso, por quem desejoso de resolver conflitos de consci&#234;ncia, faz consulta de modo sistem&#225;tico, a cada tema com que se defronta e ignora.</p>
    <p>Diretriz n&#227;o &#233; onisciente e n&#227;o deve transparecer ordens por si pr&#243;pria, como se a ela pud&#233;ssemos transferir para uma <italic>mea culpa</italic> coletiva a responsabilidade &#233;tico-profissional da recomenda&#231;&#227;o, que &#233; pessoal no &#226;mbito do v&#237;nculo m&#233;dico-paciente.</p>
    <p>Diretriz &#233; trabalho s&#233;rio e dentro dos limites da heran&#231;a da Medicina; raz&#227;o bastante para que, representando a sele&#231;&#227;o da parte boa, n&#227;o deva ser vista como ancoradouro para quem pretende modelos de perfeccionismo, quaisquer que eles possam ser na rela&#231;&#227;o custo-risco-benef&#237;cio.</p>
    <p>Diretriz &#233; uma presta&#231;&#227;o de servi&#231;o de redescoberta, n&#227;o de reescrita da literatura; ela &#233; oficialmente uma revis&#227;o, n&#227;o &#233; mensagem original; contudo, os acabamentos que providencia a fazem origem para mensagem sobre expectativa de desempenho e seguran&#231;a, exigente, como estado da arte, do saber e lideran&#231;a do m&#233;dico, da eficiente decodifica&#231;&#227;o pela sabedoria do corpo do paciente e do enfoque social de sa&#250;de.</p>
    <p>Diretriz organiza o "caos" da literatura e oferece l&#237;ngua &#250;nica numa torre de Babel; faz a todos, m&#233;dicos sem fronteiras. Pela ordena&#231;&#227;o da experi&#234;ncia passada coletivizada, ela contribui para o fortalecimento do h&#225;bito de antever conseq&#252;&#234;ncias da pr&#225;tica; preenche a necessidade de antecipa&#231;&#245;es num labirinto, exerce a fun&#231;&#227;o de or&#225;culo para d&#250;vidas e cumpre o papel de senha para inverter acontecimentos m&#243;rbidos; mas o mundo real da beira do leito n&#227;o &#233; exatamente unil&#237;ng&#252;e e, por isso, a experi&#234;ncia de fato vivenciada, que &#233; sempre "poliglota", &#233; um filtro interposto nos canais de conex&#227;o entre a perspectiva informada no texto e a que se percebe na beira do leito, inclusive valores morais que os cardiologistas n&#227;o podem deixar de notar: "<italic>... o cora&#231;&#227;o tem raz&#245;es que a pr&#243;pria raz&#227;o desconhece..."</italic> Blaise Pascal (1623-1662); em conseq&#252;&#234;ncia, fica favorecido o bem discernir sobre objetivos e o bem mentalizar "end-views", em tr&#234;s etapas: OBSERVA&#199;&#195;O da situa&#231;&#227;o cl&#237;nica atual do caso; CONHECIMENTO retrospectivo de similaridades ao observado no ambiente do ecossistema da Cardiologia; JULGAMENTO do significado prospectivo da jun&#231;&#227;o da OBSERVA&#199;&#195;O com o CONHECIMENTO, para o caso.</p>
    <p>Diretriz n&#227;o &#233; algo como um kantiano (Immanuel Kant 1724-1804) Imperativo Categ&#243;rico, pois se ela poderia ser admitida como um dever moral (imperativo), ela n&#227;o atinge a todos, sem exce&#231;&#227;o (categ&#243;rico), muito embora deva ficar sempre presente o princ&#237;pio universal "<italic>fa&#231;a para os outros o que gostaria que todos fizessem para todos</italic>". Ainda na linha kantiana, uma explica&#231;&#227;o para o n&#227;o categ&#243;rico &#233; que se a diretriz representa a <italic>raz&#227;o te&#243;rica</italic> para uma recomenda&#231;&#227;o, a vontade expressa no livre-arb&#237;trio do paciente pode determinar uma <italic>raz&#227;o pr&#225;tica</italic> para o desacolhimento da mesma.</p>
    <p>Sem nenhuma inten&#231;&#227;o de filosofar, apenas de passagem, diretriz pode ser analisada pela capacidade de resposta &#224; tr&#237;ade de perguntas b&#225;sicas do criticismo kantiano, se formuladas &#224; beira do leito: a) <italic>que posso saber</italic>? Diretriz poderia intentar responder que o m&#233;dico pode saber sobre probabilidades de utilidade e de efic&#225;cia diagn&#243;stica, terap&#234;utica e preventiva; b) <italic>que devo fazer</italic>? Mentalizando o que deveria ser uma conduta universal, partir da "melhor evid&#234;ncia" cient&#237;fica, que &#233; difusa, e chegar &#224; "evid&#234;ncia melhor" cl&#237;nica, individualizada segundo preceitos de liberdade, esclarecimento e reorganiza&#231;&#227;o, no v&#237;nculo m&#233;dico-paciente; c) <italic>que posso esperar</italic>? Maximiza&#231;&#227;o de sucessos pelo conhecimento das boas pr&#225;ticas e interpreta&#231;&#227;o de fracassos pelo car&#225;ter biol&#243;gico do ser humano.</p>
    <p>Diretriz &#233; uma ferramenta plural quando se percebe que ela pode satisfazer teoriza&#231;&#245;es filos&#243;ficas como o <italic>realismo</italic> de um fato que serve como ponto de refer&#234;ncia a uma recomenda&#231;&#227;o-exemplo: n&#237;vel de press&#227;o de 180x120 mmHg, obtida ao esfigmoman&#244;metro; o <italic>idealismo</italic> da necessidade de se tomar provid&#234;ncias para redu&#231;&#227;o dos n&#237;veis tensionais; o <italic>racionalismo</italic> da imprescind&#237;vel qualifica&#231;&#227;o humana e t&#233;cnica para o desempenho da miss&#227;o e o <italic>empirismo</italic> das recomenda&#231;&#245;es baseadas em pesquisas.</p>
    <p>Se houver permiss&#227;o para se construir uma analogia com o conceito de m&#237;dia, diretriz seria meio de comunica&#231;&#227;o de grande alcance, alta probabilidade de bom retorno (cl&#237;nico) de investimento (cient&#237;fico). Diretriz representa um poder emergente que precisa ser apreciado na inter-rela&#231;&#227;o com a cl&#225;ssica concep&#231;&#227;o de <italic>a cl&#237;nica &#233; soberana</italic> e, mais recentemente, com a no&#231;&#227;o de <italic>a cl&#237;nica &#233; soberana e a imagem poderosa</italic><sup>2</sup>.</p>
    <p>A an&#225;lise que se segue, procurei sustentar na concep&#231;&#227;o que os dados/ evid&#234;ncias, pela permanente constru&#231;&#227;o/desconstru&#231;&#227;o, t&#234;m tanto a robustez do "eficiente plant&#227;o cient&#237;fico" quanto a fragilidade de "probabilidade, n&#227;o exatamente certifica&#231;&#227;o cl&#237;nica", para atender &#224;s boas pr&#225;ticas da beira do leito. Recordemos que &#233; da ess&#234;ncia da Medicina, as muitas ang&#250;stias pelas quais o m&#233;dico passa, para transformar a recomenda&#231;&#227;o <italic>deveria aplicar</italic> em constata&#231;&#227;o <italic>aplicado com dever</italic>.</p>
    <p>Procurei manter um vigilante "olho externo" para que o texto fosse o mais poss&#237;vel baseado nas evid&#234;ncias de publica&#231;&#245;es reflexivas sobre diretriz; e contivesse um fruto do ensinamento de Osler "... <italic>quanto mais olhares para a vida fora do estreito c&#237;rculo do vosso trabalho, mais equipados estareis para a luta na profiss&#227;o...".</italic> Qualquer sentido de rarefa&#231;&#227;o da cultura geral na atmosfera do ecossistema de Cardiologia prejudica a racionalidade tecnocient&#237;fica no contexto da especialidade.</p>
    <p>Justifico certos trechos com estilo de linguagem de prosopop&#233;ia pela vis&#227;o de di&#225;logo que precisamos ter com o conte&#250;do da diretriz e que &#233; "um di&#225;logo com colegas" com poder de influir no di&#225;logo do eu consigo mesmo, e pela habitualidade de personifica&#231;&#245;es (antromorfismos) da beira do leito como: <italic>o cora&#231;&#227;o acelerou, a press&#227;o caiu, a hipertrofia puxou o vetor para tr&#225;s, a aorta cavalga o septo interventricular e o ecocardiograma n&#227;o falou sobre o escore da valva mitral</italic>.</p>
    <p>Explico algumas repeti&#231;&#245;es ao longo do artigo pela chance de "leitura rotativa" que ocorre com textos que correspondem a pontos de vista. Pois estes encadeiam pensamentos, d&#227;o origem a id&#233;ias num permanente carrossel, que ao contr&#225;rio de um artigo original, n&#227;o precisa -ou n&#227;o deve- ter a virtuosidade da rigorosa concis&#227;o. E o carrossel, nesta mat&#233;ria, chama-se DIRETRIZ &#201; PRA SER RESPEITADA NA MEDIDA CERTA; e <italic>qual &#233; a medida</italic> parece t&#227;o impossibilitada de consenso, quanto a chance de cada cavalinho representar uma suposi&#231;&#227;o de resposta e todos sa&#237;rem em disparada para que se obtenha um vencedor.</p>
    <p>Presumo que o texto possa conter certos vieses de aprecia&#231;&#227;o, autoconflitos de interesses entre um eu inconscientemente parcial e um eu desejoso de ser imparcial; mas eles n&#227;o ser&#227;o preconceitos. Creio que, pelo menos em parte, eventuais vieses seriam motivados pelos h&#225;bitos em cl&#237;nica de valvopatia; pois, as bases conceituais das condutas, nesta pioneira sub-especialidade da Cardiologia, entrela&#231;ada com a Cirurgia Cardiovascular, est&#227;o postas &#224; prova h&#225; d&#233;cadas; tantos anos na beira do leito, en&#233;simas randomiza&#231;&#245;es pela natureza humana em seu amplo sentido, deram-lhes alto "poder do estudo", forte signific&#226;ncia e estreitamento do intervalo de confian&#231;a.</p>
    <p>O tempo, este cruel depurante, porque ilibado guardi&#227;o da verdade, &#233; o melhor m&#233;todo de evid&#234;ncia. E, neste aspecto, vale homenagear o <italic>Framingham Heart Study</italic>, quase sexagen&#225;rio e com netos-3900 "nascidos" em 2002-, um hors-concours sedimentador de evid&#234;ncias.</p>
    <p>Cronos &#233; pai de Quiron, que criou Asclepius, her&#243;i e deus da Medicina "... <italic>de noite Asclepius aparecia em sonho aos doentes e lhes dava conselhos... na manh&#227; seguinte, os sacerdotes coligiam as receitas e as explicavam.</italic>.." Coincid&#234;ncias significativas!</p>
    <p>
      <bold>II - Plat&#227;o de plant&#227;o</bold>
    </p>
    <p>Transcrevo um trecho de Banquete, escrito por Plat&#227;o (428-347 AC), que trata da "dial&#233;tica ascendente", subir sem cessar, etapa por etapa ap&#243;s uma inicia&#231;&#227;o. O objetivo &#233; atapetar alguns passos sobre o tema diretrizes. "... <italic>passar do amor por um belo corpo, ao amor "por todos os belos corpos", depois da beleza dos corpos, &#224; "beleza das almas", da&#237; &#224; "beleza existente nas a&#231;&#245;es e nas leis", depois &#224; das ci&#234;ncias, at&#233; que, enfim, seu esp&#237;rito fortalecido e ampliado perceba uma ci&#234;ncia &#250;nica...".</italic></p>
    <p>
      <bold>III - Par&#225;bola de Kafka</bold>
    </p>
    <p>Reproduzo uma par&#225;bola de Franz Kafka (1883-1924)<sup>3</sup>, com o intuito de provocar alguns pensamentos sobre a concilia&#231;&#227;o de diretriz &#224; beira do leito; sugiro que o termo advers&#225;rio seja decodificado como interface entre o passado-a for&#231;a de trabalho que conhecemos e que pode estar sintetizada numa diretriz - e o futuro -o pr&#243;ximo caso; enquanto que <italic>ele</italic> seja o m&#233;dico no seu af&#227; de lidar com a benefic&#234;ncia/n&#227;o-malefic&#234;ncia.</p>
    <p><italic>"...ele tem dois advers&#225;rios: o primeiro</italic> (o conhecimento da Medicina) <italic>acossa-o por tr&#225;s, da origem. O segundo bloqueia-o o caminho &#224; frente</italic> (o paciente necessitado da expertise)<italic>. Ele luta com ambos. Na verdade, o primeiro ajuda-o na luta contra o segundo</italic> (uma diretriz fornecendo a recomenda&#231;&#227;o)<italic>, pois quer empurr&#225;-lo para frente, e, do mesmo modo, o segundo o auxilia na luta contra o primeiro, uma vez que o empurra para tr&#225;s</italic> (a especificidade de um caso)<italic>. Mas isso &#233; assim apenas teoricamente, pois n&#227;o h&#225; ali apenas os dois advers&#225;rios, mas tamb&#233;m ele mesmo</italic> (o m&#233;dico entre o passado e o futuro)<italic>, e quem sabe, realmente as suas inten&#231;&#245;es?</italic> (dar um sentido ao atendimento). <italic>Seu sonho, por&#233;m, &#233; saltar fora da linha de combate</italic> (preservar a sua autonomia diante da autonomia do paciente) <italic>e ser i&#231;ado por conta de sua experi&#234;ncia de luta, &#224; posi&#231;&#227;o de juiz</italic> (benefic&#234;ncia/n&#227;o-malefic&#234;ncia do que o passado ensinou para o futuro da situa&#231;&#227;o cl&#237;nica) <italic>sobre os advers&#225;rios que lutam entre sim..."</italic></p>
    <p>
      <bold>IV - Produto Interno Bruto</bold>
    </p>
    <p>A for&#231;a gravitacional da atmosfera do ecossistema da Cardiologia atrai a evolu&#231;&#227;o da especialidade e a estabiliza nas suas tr&#234;s camadas, a assistencial, a pedag&#243;gica e a de pesquisa.</p>
    <p>Pelo significado da gravidade, tanto for&#231;a de atra&#231;&#227;o quanto seriedade, cardiologistas, assim, p&#233;s no ch&#227;o ciosos, dos quais os brasileiros s&#227;o herdeiros de 60 anos de patrim&#244;nio da especialidade no Brasil, t&#234;m tido compromissos com biosseguran&#231;a tecnocient&#237;fica, preserva&#231;&#227;o do meio ambiente da rela&#231;&#227;o interpessoal, decis&#245;es com menor risco de ofender a natureza humana por imprud&#234;ncia ou neglig&#234;ncia, enfim, com a prote&#231;&#227;o do ecossistema da Cardiologia.</p>
    <p>Pela responsabilidade moral, da melhor maneira que cada cardiologista possa, envolvem-se com investimentos, consumos, custos, importa&#231;&#245;es e exporta&#231;&#245;es e, em conseq&#252;&#234;ncia, promovem o ac&#250;mulo de bens cient&#237;ficos e servi&#231;os cardiol&#243;gicos.</p>
    <p>Comp&#245;e-se, em conseq&#252;&#234;ncia, um verdadeiro produto interno bruto da Cardiologia, uma riqueza cl&#237;nica, que, em nome de uma eq&#252;idade tecnocient&#237;fica, tem distribui&#231;&#227;o <italic>per capita</italic> de v&#225;rias formas.</p>
    <p>Vale a pena repercutir uma delas, a entidade que desempenha o papel de vetor da id&#233;ia que a otimiza&#231;&#227;o da pr&#225;tica cl&#237;nica &#233; indissoci&#225;vel da capacidade de bem selecionar a literatura: a diretriz. O not&#243;rio destaque na comunica&#231;&#227;o m&#233;dica moderna, pela personifica&#231;&#227;o da excel&#234;ncia cient&#237;fica, tem tudo a ver com a obviedade do tru&#237;smo "conhecimento &#233; poder".</p>
    <p>
      <bold>V - Calor humano, umidade &#233;tica e brisa bio&#233;tica</bold>
    </p>
    <p>No ecossistema da Cardiologia, as diretrizes d&#227;o &#224; beira do leito um clima seco, sem grande oscila&#231;&#227;o t&#233;rmica, com tend&#234;ncia a frio, menos nebuloso e com poucos ventos. Todavia, a monotonia parece que n&#227;o preenche as diversas necessidades da natureza humana. Por isso, o equil&#237;brio do ecossistema da Cardiologia exige a participa&#231;&#227;o de, pelo menos, tr&#234;s fatores de ameniza&#231;&#227;o &#224; beira do leito: o calor humano, a umidade &#233;tica e a brisa bio&#233;tica. Elas ajudam a tomar decis&#245;es segundo a pr&#243;pria consci&#234;ncia, quando esta est&#225; em desacordo com evid&#234;ncias- e sua pretensa validade universal- e vai-se &#224; procura de um acordo por meio de um di&#225;logo entre Medicina, m&#233;dico e paciente, que pode ser simbolizada numa triangula&#231;&#227;o &#224; beira do leito<sup>4</sup>.</p>
    <p>Esta tr&#237;ade d&#225; a temperan&#231;a do respeito aos limites, da modera&#231;&#227;o entre o intensivo e o extensivo, do dom&#237;nio e reconhecimento de inadequa&#231;&#245;es ante circunst&#226;ncias &#224; margem do que foi idealizado alhures sob r&#237;gidos controles de m&#233;todo <italic>"as pesquisas habitualmente utilizam popula&#231;&#245;es altamente selecionadas..."</italic> <sup>5</sup>. Esta ressalva &#233; refor&#231;ada, por um texto un&#237;ssono, na introdu&#231;&#227;o de diretrizes atualizadas: "... <italic>portanto, desvios destas diretrizes podem ser apropriados em certas circunst&#226;ncias..."</italic> <sup>6</sup> ou "... <italic>h&#225; circunst&#226;ncias em que o desvio destas diretrizes &#233; apropriado..."</italic> <sup>7</sup>. O mesmo se observa no Projeto Diretrizes da AMB/CFM: "... <italic>a rela&#231;&#227;o entre qualidade de estudo e grau de recomenda&#231;&#227;o &#233; insuficiente se utilizada de maneira isolada, cabendo ao m&#233;dico julgar a forma, o momento e a pertin&#234;ncia da utiliza&#231;&#227;o conforme a diretriz..."</italic> <sup>8</sup>.</p>
    <p>Crit&#233;rios de inclus&#227;o, crit&#233;rios de exclus&#227;o, limita&#231;&#245;es do estudo, editoriais, cartas ao editor transfiguram-se na beira do leito ao sabor de necessidades individuais de benefic&#234;ncia/n&#227;o-malefic&#234;ncia, no ecossistema da Cardiologia. O direito &#224; autonomia do paciente-real influencia qual o peso do benef&#237;cio e qual o peso do malef&#237;cio a serem postos nos pratos da balan&#231;a da humaniza&#231;&#227;o do v&#237;nculo m&#233;dico-paciente; perspectivas de malef&#237;cio costumam ser plumas ante as pesadas medidas de benefic&#234;ncia ditas her&#243;icas, no iminente risco &#224; vida, e ser chumbo quando do leve niilismo de certas altas a pedido. Diretrizes podem ficar em segundo plano.</p>
    <p>O paciente-virtual das publica&#231;&#245;es representa um personagem a cujo conflito, ap&#243;s ter sido trabalhado, se agregou, ao final, a previsibilidade de um fato (A funcionaria bem, B, n&#227;o t&#227;o bem). O paciente-real representa um conflito que det&#233;m um fator explicativo, a ser associado &#224; previsibilidade do paciente-virtual. As nuances do conflito a nossa frente trazem argumentos adicionais para explicar os porqu&#234;s de uma tomada de decis&#227;o. Ademais, os "endpoints" que estimulam uma pesquisa, n&#227;o necessariamente, s&#227;o id&#234;nticos aos do paciente-real, quer na necessidade, quer na prioridade.</p>
    <p>O bumerangue da evid&#234;ncia lan&#231;ado com a expectativa dada pela pesquisa, quando do seu retorno, &#224; beira do leito, pode ver-se surpreendido por uma combina&#231;&#227;o de for&#231;as (dada pela assist&#234;ncia) que modifica a trajet&#243;ria que estava prevista acontecer em fun&#231;&#227;o da concep&#231;&#227;o. A natureza ensina: um dado cient&#237;fico, denominemos hidrog&#234;nio, um fato cl&#237;nico, denominemos oxig&#234;nio; o primeiro elemento provoca inc&#234;ndio, o segundo o propaga; quando combinam-se em &#225;gua, invertem os efeitos.</p>
    <p>Mas &#233; certo que a presen&#231;a de diretrizes oxigena o clima organizacional da beira do leito; elas d&#227;o f&#244;lego e suporte contra cotidianos fatores de an&#243;xia cl&#237;nica: os muitos sufocos para se chegar a um diagn&#243;stico, as toxicidades de terap&#234;uticas ambivalentes e aquelas imers&#245;es terr&#237;veis em terrenos pantanosos do progn&#243;stico.</p>
    <p>Tamb&#233;m &#233; certo, por outro lado, que "respirar" diretrizes expele di&#243;xido de carbono, o que traz uma preocupa&#231;&#227;o com excessos; exageros associam-se a riscos de hipercapnia e embotamento do senso cl&#237;nico. Ademais, de modo at&#233; paradoxal, a demasia pode redundar em um efeito de estufa; em conseq&#252;&#234;ncia, potencializam-se eventuais desequil&#237;brios de irradia&#231;&#227;o da humaniza&#231;&#227;o na atmosfera da beira do leito, especialmente, em tempos onde se notam furos na camada de oz&#244;nio da &#233;tica.</p>
    <p>
      <bold>VI - Verdade, uma busca sem fim</bold>
    </p>
    <p>A pesquisa encontra "verdades", o ensino as divulga e a assist&#234;ncia as aplica. As aspas justificam-se pelo sentido de revela&#231;&#245;es que soam verdades por serem &#250;teis e eficazes, entretanto, pass&#237;veis de ilimitadas formas de discuss&#227;o, em sua maioria, at&#233; porque, na Medicina, ao contr&#225;rio de outros ambientes, a "auto-evid&#234;ncia" da verdade n&#227;o &#233; a regra. Sem as aspas, o significado oposto poderia ser mentira ou erro, o que, certamente, n&#227;o condiz com o esp&#237;rito de boa-f&#233; em busca da verdade em Medicina; ou a persuas&#227;o que n&#227;o usar diretriz &#233; um erro porque &#233; verdade o que se conhece por meio dela.</p>
    <p>S&#227;o nessas tr&#234;s atividades de doutor-etimologicamente, quem ensina, direta ou indiretamente, o colega ou o leigo- que circula a verdade imut&#225;vel, "aposentada de competi&#231;&#245;es" e as "verdades de plant&#227;o", o at&#233; onde conseguimos enxergar, e que, sendo perspectivas, representam aproxima&#231;&#245;es da verdade pela for&#231;a moment&#226;nea da conex&#227;o com a utilidade, no ecossistema da Cardiologia. &#201; o que difere um atrito peric&#225;rdico -eterno no significado cl&#237;nico- da dose de corticoster&#243;ide que ele provoca&#150; um provis&#243;rio condicionado a uma nova conclus&#227;o de utilidade. As verdades de plant&#227;o associam-se, habitualmente, a um car&#225;ter de conting&#234;ncia, h&#225; uma incerteza embutida e a dualidade do ocorrer ou n&#227;o ocorrer &#233; comburente que mant&#233;m sempre acesa a chama da procura pela "melhor evid&#234;ncia".</p>
    <p>A hist&#243;ria da Cardiologia registra alguns tipos curiosos de verdade imut&#225;vel: a "adotada", como o efeito Doppler (Christian Johann Doppler,1803-1853); a que encontrou o m&#233;dico durante uma guerra, como os ru&#237;dos de Korotkoff (Nicolai Sergeyvich Korotkoff, 1874-1920); a "leiga" do sinal de Musset (Louis Charles Alfred de Musset, 1810-1857); a "liter&#225;ria" (Charles Dickens-1812-1870) da s&#237;ndrome de Pickwick (proposi&#231;&#227;o de Charles Sidney Burwell-1893-1967); a "aprendida com o leigo" como a de Withering (William Withering, 1741-1799); a "predestinada" como a doen&#231;a de Chagas (Carlos Ribeiro Justiniano das Chagas, 1879-1934) e a monomorfa de Ebstein (Wilhelm Ebstein 1836-1912)<sup>9</sup>. Uma hist&#243;rica "verdade de plant&#227;o" &#233; o aforismo de Peter, ali&#225;s, podemos consider&#225;-lo um emblem&#225;tico antepassado de diretriz; Michel Peter (1824-1893) "inaugurou" uma recomenda&#231;&#227;o classe III, quando desaconselhava a gesta&#231;&#227;o em portadores de cardiopatia porque <italic>"... p&#245;e em perigo a vida da m&#227;e... associa-se a parto prematuro ou abortamento...agrava a cardiopatia..."</italic> <sup>9</sup>. H&#225;, tamb&#233;m, a verdade idealizada e ainda n&#227;o realizada, meio s&#233;culo ap&#243;s, conhecida como crit&#233;rios de Harken para um ideal de pr&#243;tese valvar<sup>10</sup>.</p>
    <p>O entusiasmo do momento costuma falar forte e fazer afirma&#231;&#245;es que caducam em pouco tempo: <italic>"... not&#225;vel caracter&#237;stica da terap&#234;utica moderna..."</italic> foi escrito por William Bart Osler (1849-1919), sempre ele<italic>...</italic>, no in&#237;cio do s&#233;culo XX, algo na linha do <italic>hot-cold empathy gap</italic><sup>11</sup>. &#201; alerta para um sintoma da S&#205;NDROME DO &#218;LTIMO ARTIGO PUBLICADO: um ardoroso <italic>"temos a verdade..."</italic>, em lugar de um comedido <italic>" ter&#237;amos uma verdade..."</italic>. As diretrizes, de alguma forma, contrap&#245;em-se a este contexto de indiscut&#237;vel superioridade da &#250;ltima informa&#231;&#227;o, muito embora elas lidem com as mais recentes desde que preencham crit&#233;rios, como "<italic>...um imperativo moral..</italic>."<sup>12</sup>; um novo dado na literatura tem contexto distinto de um novo dado cl&#237;nico e, &#224;s vezes, raciocinamos em bloco, como que condicionado pelos h&#225;bitos de comunica&#231;&#227;o do dia-a-dia; uma coisa &#233; a mobilidade de um provis&#243;rio-certeza do momento cl&#237;nico (glicemia v&#225;rias vezes repetida para acompanhar o tratamento de uma descompensa&#231;&#227;o diab&#233;tica), condi&#231;&#227;o <italic>sine qua non</italic> para uma conduta imediata; outra coisa &#233; a mutabilidade de um provis&#243;rio-certeza do momento-cient&#237;fico, por exemplo: "... <italic>estatina reduz significativamente a progress&#227;o hemodin&#226;mica de estenose a&#243;rtica moderada e grave, um efeito que pode independer da redu&#231;&#227;o do colesterol..."-</italic> Raphael Rosenhek- Circulation 7 setembro de 2004<sup>13</sup>; passados nove meses, "<italic>...em vista dos estudos de Cowell e col, a prescri&#231;&#227;o de estatina n&#227;o se justifica para a estenose a&#243;rtica, a n&#227;o ser que por outras indica&#231;&#245;es..."</italic>- Raphael Rosenhek &#150; NEJM 9 de junho de 2005<sup>14</sup>.</p>
    <p>As diretrizes s&#227;o colet&#226;neas das "verdades" que mais se aproximariam de excel&#234;ncias cient&#237;ficas, ind&#237;cios de raz&#227;o de uso e probabilidade de sucesso-classe I de recomenda&#231;&#227;o- ou de raz&#227;o para n&#227;o uso e probabilidade de insucesso - classe III de recomenda&#231;&#227;o.</p>
    <p>As diretrizes testemunham que o progresso da Medicina se faz estabelecendo "verdades" com validade indeterminada, a infinita &#233; minoria; cada novidade poder&#225; "render o plant&#227;o", por admitida superioridade ou, at&#233;, poder&#225; re-etiquetar a substitu&#237;da como inverdade. Desta forma, h&#225; um ciclo de veracidade nas diretrizes. Parodiando Lewellys Barker, o chefe de cl&#237;nica da <italic>Johns Hopkins Hospital</italic> que sucedeu Osler - mais uma vez ele -, em sua observa&#231;&#227;o sobre o desenvolvimento tecnol&#243;gico do in&#237;cio do s&#233;culo XX (esfigmoman&#244;metro, eletrocardiograma, radiografia)<sup>9</sup>: o cardiologista que dormisse por um certo tempo acordaria assustado- e sentindo-se meio desorientado- pelas mudan&#231;as do ambiente.</p>
    <p>A no&#231;&#227;o de sucess&#227;o de verdades no tempo, em Medicina, est&#225; intimamente ligada a um estado permanente de d&#250;vida, at&#225;vico no m&#233;dico - hip&#243;tese diagn&#243;stica, risco cir&#250;rgico, progn&#243;stico reservado; graus de ceticismo s&#227;o &#250;teis propulsores de substitui&#231;&#245;es vantajosas; &#233; o estilo l&#225;pis e borracha da pesquisa, riscar e apagar, apagar e riscar, em busca da "melhor express&#227;o". A inten&#231;&#227;o de perfei&#231;&#227;o, sabendo-se da inatingibilidade, est&#225; embutida na concep&#231;&#227;o de "melhor evid&#234;ncia" da diretriz. &#201; promissor o compromisso com o tempo <italic>"... as diretrizes ser&#227;o revistas anualmente..."</italic> <sup>6</sup>.</p>
    <p>Inclus&#245;es e exclus&#245;es em aceleradas recomposi&#231;&#245;es do estado da arte refor&#231;am que diretriz &#233; assessoria para quem est&#225; razoavelmente atualizado no conhecimento sobre o tema e habilitado para a aplica&#231;&#227;o. O problema est&#225; no quanto completamos- ou n&#227;o completamos - lacunas da diretriz com aquilo que sabemos - ou n&#227;o sabemos; e, a seguir, o quanto prevalece da informa&#231;&#227;o pesquisada e da complementa&#231;&#227;o mentalizada. Dois exemplos ilustrativos, baseados no <italic>ACC/AHA 2006 Guidelines for the Management of Patients with Valvular Heart Disease</italic> <sup>6</sup>. O primeiro: <italic>"... a troca da valva a&#243;rtica para portadores de estenose a&#243;rtica grave, sem sintomas, mas com resposta anormal ao exerc&#237;cio..."</italic>, foi rebaixada de &#201; RAZO&#193;VEL A APLICA&#199;&#195;O (classe IIa) para PODERIA SER CONSIDERADA (classe IIb), de 1998<sup>15</sup> para 2006<sup>6</sup>; houve um impacto, embora, neste caso, pequeno, pois cada cardiologista pode, pelo conhecimento e habilita&#231;&#227;o, ter a sua pr&#243;pria convic&#231;&#227;o quanto &#224; utilidade e &#224; efic&#225;cia de avalia&#231;&#245;es funcionais. O segundo: <italic>"...a valvotomia a&#243;rtica por cateter-bal&#227;o, como ponte para cirurgia em adulto com hemodin&#226;mica inst&#225;vel e alto risco para troca valvar</italic>...", foi rebaixada de modo id&#234;ntico ao exemplo pr&#233;vio; cada cardiologista, contudo, j&#225; deve ter mudado seu conceito sobre a benefic&#234;ncia/n&#227;o-malefic&#234;ncia do m&#233;todo, h&#225; algum tempo, pelo acompanhamento da literatura e experi&#234;ncia. Em outras palavras, quem n&#227;o vivencia casos complexos de estenose a&#243;rtica correu o risco de, at&#233; agosto de 2006, ao seguir uma diretriz v&#225;lida por 8 anos, assessorar-se de recomenda&#231;&#227;o impr&#243;pria de &#201; RAZO&#193;VEL A APLICA&#199;&#195;O. Vale a pondera&#231;&#227;o: <italic>"... no contexto da r&#225;pida evolu&#231;&#227;o da tecnologia, as diretrizes precisam ser din&#226;micas e revistas/atualizadas com maior freq&#252;&#234;ncia..."</italic> <sup>16</sup>.</p>
    <p>
      <bold>VII - Leitor de diretriz, autor na beira do leito</bold>
    </p>
    <p>Diretriz &#233; pr&#225;tica, substantivo e adjetivo. Tr&#234;s utilidades se destacam.</p>
    <p>Utilidade 1- Guia para <italic>o que devo aplicar</italic>. Perante uma situa&#231;&#227;o cl&#237;nica, a diretriz funciona como uma b&#250;ssola para nortear a informa&#231;&#227;o a ser obtida da anamnese, o sinal capital do exame f&#237;sico, a din&#226;mica de exames complementares, a conduta terap&#234;utica para cuidar da manifesta&#231;&#227;o e ao mesmo tempo beneficiar a sobrevida e a programa&#231;&#227;o de preven&#231;&#227;o. Do ponto de vista moral e &#233;tico, ela deve ser preferencialmente utilizada por quem tem expertise - passado, tradi&#231;&#227;o - no tema "..<italic>.n&#227;o est&#227;o preparados para seguir as diretrizes, os m&#233;dicos que n&#227;o est&#227;o familiarizados com a evid&#234;ncia que sustenta a recomenda&#231;&#227;o</italic>..."<sup>17</sup> . Diretriz precisa ser internalizada, no sentido de nos ajudar a acrescentar um elo perdido da nossa cadeia de conhecimentos sobre o tema; diretriz n&#227;o deve, em princ&#237;pio, nos superproteger do desconhecimento sobre o tema.</p>
    <p>Analogia 1A- <italic>Receita de bolo.</italic> A diretriz relaciona ingredientes e recomenda&#231;&#245;es de manipula&#231;&#227;o<sup>18-20</sup>. Mas h&#225; necessidade de algo a mais para por a m&#227;o na massa. E quem aplica uma diretriz como bolo de caixinha, ent&#227;o, "... <italic>tende a desprezar a participa&#231;&#227;o do paciente na decis&#227;o...</italic> <sup>19</sup><italic>;</italic> e desconsidera que <italic>"... recomenda&#231;&#245;es uniformes podem ignorar necessidades especiais de um paciente..."</italic><sup>20</sup>. Dir-se-ia que o grau de reconhecimento de uma diretriz como "monop&#243;lio da conduta" reduz-se &#224; medida que aumenta o peso de outro tipo de bolo, a pilha de receitas assinadas e carimbadas com as m&#227;os do comprometimento e envolvimento na beira do leito.</p>
    <p>Analogia 1B- <italic>Trocar uma l&#226;mpada</italic>. A diretriz oficializa certas obviedades, que s&#227;o intuitivas. "... <italic>consultas p&#243;s-operat&#243;rias... para pacientes com pr&#243;tese valvar, anamnese, exame f&#237;sico e testes apropriados devem ser realizados na primeira avalia&#231;&#227;o ambulatorial p&#243;s-operat&#243;ria..."</italic> <sup>6</sup>. O n&#237;vel de evid&#234;ncia &#233; C (opini&#227;o de consenso de especialistas). Obviamente, n&#227;o se justificaria um estudo randomizado que soaria como avaliar a utilidade e efic&#225;cia da seq&#252;&#234;ncia: pegar uma escada, posicionar a escada debaixo da l&#226;mpada, buscar uma l&#226;mpada nova, subir na escada, retirar a l&#226;mpada queimada e colocar a l&#226;mpada nova. N&#227;o se sugere duplo cego..., nem h&#225; o receio que surja a opini&#227;o de segurar a escada e girar o mundo... &#201; fato que "... <italic>um cl&#237;nico altamente informado e treinado pode praticar o conte&#250;do equivalente de uma diretriz sem nunca ter, de fato, recorrido ou aderido a elas..."</italic> <sup>20</sup>.</p>
    <p>Analogia 1C- <italic>Arte do ventr&#237;loquo.</italic> A diretriz fala com a voz da literatura; m&#233;dicos podem falar com a voz da diretriz. Ou seria, a diretriz abre a boca do m&#233;dico e este fala o que (lhe) cabe? Em situa&#231;&#227;o de mau resultado cl&#237;nico, culpar a recomenda&#231;&#227;o da diretriz &#233; como culpar o boneco.</p>
    <p>Analogia 1D- <italic>Efeito Peter Pan</italic>. A diretriz, caso t&#227;o somente uma etiqueta a ser colada, com envolvimento e comprometimento superficiais, inibe tanto a plena responsabilidade, quanto o crescimento da capacita&#231;&#227;o cl&#237;nica "... <italic>m&#233;dicos preocupam-se porque suas atua&#231;&#245;es com os pacientes, pioram cada vez mais por conta de um processo padronizado e automatizado..."</italic> <sup>21</sup>. Bertrand Russell (1872-1970) legou: " <italic>a aceita&#231;&#227;o passiva da sabedoria do professor &#233; racional porque o mestre sabe mais... todavia, o h&#225;bito da aceita&#231;&#227;o passiva &#233; desastrosa num futuro, pois faz com que se procure e aceite um l&#237;der qualquer, apenas por estar nesta posi&#231;&#227;o..."</italic> .</p>
    <p>Analogia 1E- <italic>Comportamento Flauta M&#225;gica.</italic> A diretriz pode ser o som que "elimina os ratos" ou o som que "faz desaparecer as crian&#231;as", dependendo de vari&#225;veis intrapessoais e interpessoais. A m&#250;sica da beira do leito pode n&#227;o ser a mesma da beira da mesa do administrador de sa&#250;de.</p>
    <p>Analogia 1F- <italic>Efeito Camale&#227;o.</italic> A diretriz precisa se integrar a circunst&#226;ncias cl&#237;nicas e a aspectos ambientais determinados pelo sistema de sa&#250;de "...<italic>h&#225; um v&#225;cuo entre aspectos cient&#237;ficos da Medicina e a pr&#225;tica cl&#237;nica</italic>..." <sup>17</sup>. A analogia vai al&#233;m deste folcl&#243;rico mimetismo pela troca da pele, ela inclui a flexibilidade de modo mais amplo, com aspectos de liberdade, quando se recorda que o camale&#227;o tem movimenta&#231;&#227;o independente dos olhos. Osler, novamente:<italic>"... educar os olhos para observar os fatos demora, mas come&#231;a com o paciente, continua com o paciente e termina com o paciente..."</italic></p>
    <p>Utilidade 2 - Guia para <italic>uma vis&#227;o de conjunto sint&#233;tica</italic> sobre o tema<italic>.</italic> A diretriz facilita apreciar a parte emersa do iceberg.</p>
    <p>Utilidade 3 - Guia para <italic>o aprofundamento na literatura.</italic> A diretriz orienta a sele&#231;&#227;o dos artigos que revelam a parte submersa do iceberg.</p>
    <p>
      <bold>VIII - Nomenclatura</bold>
    </p>
    <p>&#149; Dado cient&#237;fico - Resultado de pesquisa cient&#237;fica. Constitui componente maior do produto interno bruto no ecossistema da Cardiologia. Mais do que "um original", o dado cient&#237;fico precisa ser "um bem universal", pois, mais do que a novidade cient&#237;fica, o que vale &#233; a reprodutibilidade e a seguran&#231;a.</p>
    <p>&#149; Fato cl&#237;nico - Ocorr&#234;ncia cuja exist&#234;ncia pode ser constatada de modo indiscut&#237;vel; muitos poderiam dispensar pesquisa. O que se segue foi publicado no <italic>British Medical Journal</italic><sup>22</sup>, com o seguinte resumo: objetivo: determinar se p&#225;ra-quedas s&#227;o eficazes para prevenir grandes traumatismos relacionados &#224; atra&#231;&#227;o gravitacional; Estrutura&#231;&#227;o: revis&#227;o sistem&#225;tica de estudos randomizados controlados; Fonte de dados: <italic>Medline</italic>, <italic>Web of Science</italic>, <italic>Embase</italic>, <italic>Cochrane Library</italic>, sites da internet e listas de cita&#231;&#245;es; Sele&#231;&#227;o de estudo: estudos sobre o uso de p&#225;ra-quedas durante queda livre; Pontos de interesse: morte ou grande traumatismo, definido como les&#227;o com escore de gravidade &gt;15; resultados: N&#227;o identificamos nenhum estudo randomizado e controlado sobre interven&#231;&#227;o com p&#225;ra-quedas; Conclus&#227;o: assim como muitas interven&#231;&#245;es que objetivam prevenir doen&#231;as, a efic&#225;cia de p&#225;ra-quedas n&#227;o foi submetida a uma rigorosa avalia&#231;&#227;o por estudos randomizados controlados. Adeptos da Medicina baseada em evid&#234;ncias t&#234;m criticado a ado&#231;&#227;o de interven&#231;&#245;es que s&#227;o avaliadas, t&#227;o somente, por dados observacionais. Pensamos que haveria benef&#237;cio se os protagonistas mais radicais da Medicina baseada em evid&#234;ncias organizassem e participassem de um estudo com p&#225;ra-quedas, duplo cego, randomizado, cruzado e controlado por placebo.</p>
    <p>Cabe o alerta: <italic>"... a cren&#231;a popular que somente estudos randomizados controlados produzem resultados confi&#225;veis e que todos os estudos observacionais s&#227;o ilus&#245;es, presta um desservi&#231;o &#224; assist&#234;ncia ao paciente e &#224; educa&#231;&#227;o dos profissionais da sa&#250;de..."</italic> <sup>23</sup>.</p>
    <p>&#149; Evid&#234;ncia - Interpreta&#231;&#227;o e qualifica&#231;&#227;o do dado cient&#237;fico, &#233; um atributo. Ao ju&#237;zo da constata&#231;&#227;o cient&#237;fica (dado) agrega-se um ju&#237;zo de valor; os autores concluem e publicam passando pelo filtro da editoria; a partir dos dados, o poder da sociedade de especialidade, fundamentado por meio de um comit&#234;, analisa o status de aproxima&#231;&#227;o da verdade, por uma mescla de PROFETISMO (no sentido de um bem, um valor por vir a ser bom para o paciente) e DOGMATISMO (no sentido de a verdade a ser oferecida ao paciente), cuja reuni&#227;o no &#226;mbito da ci&#234;ncia perde os significados corriqueiros - e n&#227;o bem vistos na &#225;rea m&#233;dica - de cada parcela. O fil&#243;sofo humanista Andr&#233; Comte-Sponville (1952-....) define PROFETISMO+DOGMATISMO como UTOPIA, n&#227;o no conceito como algo irrealiz&#225;vel, porque fundamentada numa concep&#231;&#227;o que julgamos fantasiosa, mas na de uma outra escola filos&#243;fica que enxerga como algo com potencialidade de se realizar, porque &#233; plaus&#237;vel dar cr&#233;dito &#224; concep&#231;&#227;o.</p>
    <p>N&#227;o existe "melhor" evid&#234;ncia objetiva, h&#225; uma escolha (embute um grau de subjetivismo) que se pretende a melhor, sob certas premissas, para "se reintegrar" &#224; beira do leito, a cada novo caso; como, a qualquer momento, podemos n&#227;o concordar com a qualifica&#231;&#227;o certificada pelo comit&#234;, n&#227;o se trata de evid&#234;ncia-verdade absoluta. Uma defini&#231;&#227;o perspicaz &#233;: <italic>"... evid&#234;ncia &#233; um status conferido a partir de um fato; ela reflete, pelo menos em parte, que este julgamento subjetivo e social do fato eleva a probabilidade de uma dada conclus&#227;o ser verdadeira... assim, evid&#234;ncia n&#227;o &#233; simplesmente um dado de pesquisa ou um fato, mas o resultante de algumas interpreta&#231;&#245;es que servem a necessidades sociais e filos&#243;ficas..."</italic> <sup>24</sup>.</p>
    <p>&#149; Diretriz - Recomenda&#231;&#227;o estruturada que ascende de dados cient&#237;ficos, "re-produzidos" como evid&#234;ncias e transcende as limita&#231;&#245;es individuais na figura de um comit&#234;, que aspira elaborar uma excel&#234;ncia, o melhor que se pode almejar com as melhores evid&#234;ncias. Constitui uma divulga&#231;&#227;o, colega para colega, estipulada e delegada a uma sociedade de especialidades - o mais comum-, uma identidade cl&#237;nica, articula&#231;&#227;o de valores "assegurada" de forma aprior&#237;stica, esp&#233;cie de franquia de uma autoridade - digna de respeito por uma raz&#227;o cient&#237;fica, mas sem o sentido de coer&#231;&#227;o- coletiva com licen&#231;a de uso liberada; tendo nas m&#227;os como que uma autoriza&#231;&#227;o para crer que &#233; verdade, os membros da sociedade de especialidade, entretanto, por suas devidas responsabilidades, conservam o seu livre-arb&#237;trio quanto ao dado cient&#237;fico, at&#233; porque a "obedi&#234;ncia cient&#237;fica" n&#227;o &#233; estatut&#225;ria. Mas h&#225; vigil&#226;ncia: <italic>"... uma vez a diretriz adotada pelo Servi&#231;o, espera-se que cada m&#233;dico pratique a ader&#234;ncia..."</italic> <sup>25</sup> e maneiras de pensar, como "... <italic>sem as devidas raz&#245;es, o desvio da ader&#234;ncia deveria determinar a&#231;&#227;o corretiva</italic>..." <italic>ou "... latitude para o exerc&#237;cio de um julgamento profissional..."</italic> ou <italic>"... substituindo uma vaga linguagem de "padr&#227;o de cuidados" por uma terminologia contratual expl&#237;cita, tal como "expectativas de desempenho" e incorporando diretrizes selecionadas e ajustadas diretamente &#224; rotina dos m&#233;dicos, pode resultar num equil&#237;brio entre a preocupa&#231;&#227;o p&#250;blica com a qualidade do atendimento e o interesse do m&#233;dico num justo processo de revis&#227;o sobre avalia&#231;&#227;o do desempenho de um m&#233;dico por outros m&#233;dicos, para assegurar a qualidade de atendimento na institui&#231;&#227;o (peer review)..."</italic> <sup>25</sup>.</p>
    <p>A for&#231;a e o valor das diretrizes para um consensual cl&#237;nico est&#227;o na melhor aproxima&#231;&#227;o poss&#237;vel ao &#250;til e eficaz, na cr&#237;tica e hierarquia de op&#231;&#245;es, na atualiza&#231;&#227;o cient&#237;fica e clareza cl&#237;nica, frente ao contradit&#243;rio da literatura; a estratifica&#231;&#227;o das recomenda&#231;&#245;es em cr&#237;ticas e n&#227;o cr&#237;ticas parece ser &#250;til no &#226;mbito da rela&#231;&#227;o custo-risco-benef&#237;cio<sup>26</sup>.</p>
    <p>Aspecto relevante &#233; a influ&#234;ncia cultural, mais habitualmente da l&#237;ngua na decodifica&#231;&#227;o da mensagem. Como bem captar e aplicar <italic>is reasonable, may be considered, might be considered?</italic> e "traduzir" na beira do leito para <italic>vou fazer &amp; n&#227;o vou fazer, &#233; prov&#225;vel que eu fa&#231;a &amp; &#233; prov&#225;vel que eu n&#227;o fa&#231;a.</italic></p>
    <p>A diretriz n&#227;o faz o m&#233;dico existir, o m&#233;dico &#233; quem d&#225; exist&#234;ncia &#224; diretriz. E esta passa a participar da vida profissional de uma maneira que vira a galinha dos ovos de ouro, mas sem revelar quem nasceu primeiro. Diretriz n&#227;o &#233; exatamente uma exalta&#231;&#227;o &#224; ci&#234;ncia, ela vincula-se ao estado da arte em Medicina e pelo algo a mais que assim decorre, requer uma leitura cl&#237;nica; ou seja, diretriz n&#227;o &#233; guia para quem n&#227;o tem vis&#227;o cl&#237;nica ou int&#233;rprete para quem &#233; surdo-mudo com o paciente. Diretriz n&#227;o &#233;, exatamente, uma sa&#237;da para se construir uma imagem profissional estereotipada. Os tri&#226;ngulos, pela interdepend&#234;ncia dos v&#233;rtices, ajudam a perceber as m&#250;ltiplas faces do que se poderia admitir como uma atitude humana perante a doen&#231;a<sup>4</sup>: h&#225; a resultante do "di&#225;logo" entre a recomenda&#231;&#227;o da Medicina (diretriz) e as prefer&#234;ncias e percep&#231;&#245;es do paciente, h&#225; a resultante do "di&#225;logo" entre a recomenda&#231;&#227;o da Medicina (diretriz) e as responsabilidades &#233;ticas, morais e legais do m&#233;dico e h&#225; a resultante do "di&#225;logo" entre as prefer&#234;ncias e percep&#231;&#245;es do paciente e as responsabilidades &#233;ticas, morais e legais do m&#233;dico. Cada "di&#225;logo" tem suas "evid&#234;ncias" sobre benefic&#234;ncia/n&#227;o-malefic&#234;ncia/autonomia e assim "... <italic>lidar com pacientes deveria ser visto mais como a coopera&#231;&#227;o de um time de especialistas (m&#233;dico, enfermeiro, pessoal de laborat&#243;rio, paciente, fam&#237;lia, etc...) do que o m&#233;dico atirar uma bala m&#225;gica de compet&#234;ncia autorit&#225;ria... proteger a liberdade e igualdade desta coopera&#231;&#227;o tornar-se-ia o objetivo cl&#237;nico principal em n&#237;veis tanto individual quanto institucional..."</italic> <sup>27</sup>.</p>
    <p>&#149; Conflitos de interesse - Condi&#231;&#245;es onde o julgamento sobre um interesse prim&#225;rio tem a potencialidade de ser influenciado de modo indevido por um interesse secund&#225;rio, ligado a aspecto econ&#244;mico, ou mesmo, pessoal, social e cient&#237;fico<sup>28</sup>.</p>
    <p>&#149; Publica&#231;&#227;o selecionada - Artigo de revista cient&#237;fica que passou pelo controle de qualidade do comit&#234; de elabora&#231;&#227;o de uma diretriz e foi inclu&#237;da nas refer&#234;ncias. Representa um tombamento pelo valor cient&#237;fico, na nossa especialidade, para ficar sob a guarda do ecossistema da Cardiologia. "Fazer parte da turma" t&#227;o seleta bendiz e, ter sido depurado e selecionado &#233; ponto alto do <italic>curriculum</italic> de uma publica&#231;&#227;o &#150;sensa&#231;&#227;o de um Oscar de melhor roteiro ou de um Nobel da literatura m&#233;dica; a homenagem amplia a defini&#231;&#227;o de "... <italic>primariamente, um meio de comunica&#231;&#227;o cient&#237;fica, informa&#231;&#227;o para colegas, prova de compet&#234;ncia acad&#234;mica, crit&#233;rio para promo&#231;&#227;o acad&#234;mica, argumento para financiamentos e fundamento de prest&#237;gio de Universidades..."</italic> <sup>12</sup>. Sem esquecer o taxativo acad&#234;mico <italic>publique ou morra.</italic></p>
    <p>Cada artigo &#233; uma fonte prim&#225;ria enquanto nas m&#227;os do(s) seu(s) autor(es), o que inclui a publica&#231;&#227;o dos dados e a interpreta&#231;&#227;o feita por quem os obteve; a leitura pela comunidade &#233; uma re-interpreta&#231;&#227;o, interpreta&#231;&#227;o sobre a interpreta&#231;&#227;o, de fato acontecida no original ou sobre o n&#227;o interpretado dos dados, que, ap&#243;s classificar e dar o m&#233;rito, pode se tornar uma fonte secund&#225;ria numa revis&#227;o, numa atualiza&#231;&#227;o, num ponto de vista, numa discuss&#227;o de artigo afim, ou numa diretriz. Como costuma acontecer num bom livro, &#233; o primeiro par&#225;grafo - a fonte prim&#225;ria - e o &#250;ltimo par&#225;grafo - a reprodutibilidade - que antecipam a qualidade do texto das diretrizes.</p>
    <p>&#149; Aspectos da linguagem coloquial - Caberia falar: <italic>n&#227;o h&#225; dado cient&#237;fico dispon&#237;vel</italic>, mas n&#227;o caberia falar: <italic>n&#227;o h&#225; evid&#234;ncia dispon&#237;vel.</italic> A disponibilidade refere-se &#224; pesquisa que gera dados e n&#227;o &#224; interpreta&#231;&#227;o dos mesmos, porque qualquer dado, se dispon&#237;vel, pode ser qualificado como evid&#234;ncia- boa ou m&#225;, positiva ou negativa. Do mesmo modo, n&#227;o caberia falar <italic>n&#227;o h&#225; diretriz dispon&#237;vel</italic>, a n&#227;o ser literalmente, ou seja n&#227;o houve a elabora&#231;&#227;o por um comit&#234;; n&#227;o caberia expressar-se significando que n&#227;o existe dado cient&#237;fico que poderia fundamentar e orientar. Um dado cient&#237;fico n&#227;o nasce diretriz, primeiro, ele tem que se tornar fonte; segundo, ser analisado como evid&#234;ncia; terceiro, adquirir uma nova forma, a de aceita&#231;&#227;o ou de recusa ao status de recomenda&#231;&#227;o.</p>
    <p>
      <bold>IX - Diretriz e compromisso moral</bold>
    </p>
    <p>Diretriz n&#227;o &#233; um d&#233;cimo-primeiro mandamento; podemos v&#234;-la como um ideal compactado de dados cient&#237;ficos e do valor (evid&#234;ncia) dos mesmos ou como uma guia sobre o que poderia nos faltar para realizar uma conduta. Se entendermos como um ideal, admitir&#237;amos dever e sujei&#231;&#227;o, mas se for como guia, dispensar-nos-&#237;amos da submiss&#227;o.</p>
    <p>O que poderia nos faltar pode ser a objetividade de um efeito farmacol&#243;gico ou pode ser a subjetividade de percep&#231;&#245;es e prefer&#234;ncias do paciente. Deduz-se que se diretriz pode n&#227;o completar uma ordena&#231;&#227;o &#224; beira do leito, quando, por exemplo, um paciente privilegia o passional em detrimento de uma fundamenta&#231;&#227;o intelectual, ela, certamente, conscientiza sobre o que &#233; mais para pensar e aponta possibilidades de estrat&#233;gias; at&#233; porque, sem a concep&#231;&#227;o de uma assist&#234;ncia &#224; beira do leito, para que haveria diretriz?</p>
    <p>Mas o que pode completar a ordena&#231;&#227;o, prop&#245;e-se a ser o porta-voz de um cons&#243;rcio cient&#237;fico que oferece um produto de educa&#231;&#227;o continuada com mat&#233;ria-prima planet&#225;ria (somos m&#233;dicos sem fronteiras), produzido, embalado e etiquetado em determinadas comunidades; o direito a uma cota por todos n&#243;s remonta a vinte e cinco s&#233;culos, adquirido e eternizado no racional do Juramento de Hip&#243;crates: "... <italic>ensinar-lhes esta arte, se eles tiverem necessidade de aprend&#234;-la... fazer participar dos preceitos, das li&#231;&#245;es e de todo o resto do ensino...".</italic> Deduz-se que diretriz tem ra&#237;zes numa arquet&#237;pica fraternidade da Medicina.</p>
    <p>Diretriz subentende consci&#234;ncia sobre legitimidade dos dados, racioc&#237;nios sobre a reprodutibilidade dos mesmos e honestidade de prop&#243;sito sobre o que seria aconselh&#225;vel e o que seria desaconselh&#225;vel. Deduz-se que diretriz &#233; um "sistema aberto", com eixo em renovada reflex&#227;o sobre probabilidades contradit&#243;rias e aristot&#233;lica ordena&#231;&#227;o de tend&#234;ncias agonistas e antagonistas coexistentes no campus da literatura m&#233;dica.</p>
    <p>Diretriz concentra forte compromisso moral; na elabora&#231;&#227;o, em fun&#231;&#227;o do processo de sele&#231;&#227;o dos dados; na aplica&#231;&#227;o, na medida que, a inten&#231;&#227;o de uso do que &#233; um bem difuso da Medicina ("a melhor evid&#234;ncia" na literatura) n&#227;o deve destoar do que seria, de fato, bom para o paciente, que &#233; espec&#237;fico ("a evid&#234;ncia melhor" na beira do leito), de acordo com o intu&#237;do no bin&#244;mio benefic&#234;ncia/n&#227;o-malefic&#234;ncia.</p>
    <p>Um conceito que, desde os prim&#243;rdios da forma&#231;&#227;o, vai batendo de porta em porta de cada acad&#234;mico de Medicina, &#233; que a disponibilidade t&#233;cnica n&#227;o &#233; sin&#244;nima de indica&#231;&#227;o cl&#237;nica- depois da formatura, tamb&#233;m &#233; &#250;til ir batendo de m&#233;dico em m&#233;dico-; ter ao alcance uma pr&#243;tese valvar ainda na embalagem, presun&#231;&#227;o de "melhor hemodin&#226;mica", n&#227;o &#233;, isoladamente, argumento para substituir uma valva nativa anormal, sabidamente em "pior hemodin&#226;mica"; e n&#227;o ter algo dispon&#237;vel n&#227;o &#233; ant&#244;nimo- a aus&#234;ncia de expertise para realizar valvoplastia mitral por cateter-bal&#227;o n&#227;o a retira do leque de op&#231;&#245;es a serem comentadas, pelo m&#233;dico que pratica a autonomia, com o portador de estenose mitral. Acresce que a relev&#226;ncia dos aspectos morais de uma decis&#227;o &#233; proporcional ao grau de risco de cada op&#231;&#227;o para alcan&#231;ar o benef&#237;cio e/ou evitar o malef&#237;cio. Deduz-se que o empenho pela comunh&#227;o de interesses na rela&#231;&#227;o m&#233;dico-paciente &#233; est&#237;mulo inconteste para que uma coletiva "melhor evid&#234;ncia" na literatura ajuste-se a uma individualizada "evid&#234;ncia melhor" na beira do leito.</p>
    <p>Diretriz &#233; um contrato de reciprocidade entre colegas; por meio de um acordo t&#225;cito de vontades, o m&#233;dico fornece uma situa&#231;&#227;o cl&#237;nica e o comit&#234; de elabora&#231;&#227;o oferece uma recomenda&#231;&#227;o certificada como confi&#225;vel. Enquadra-se em "<italic>...formula&#231;&#227;o de uma clara quest&#227;o cl&#237;nica a partir do paciente... busca na literatura por artigos relevantes... avalia&#231;&#227;o cr&#237;tica da evid&#234;ncia ... sele&#231;&#227;o da melhor evid&#234;ncia para a decis&#227;o cl&#237;nica... vincula&#231;&#227;o da evid&#234;ncia com experi&#234;ncia cl&#237;nica, conhecimento e pr&#225;tica... implementa&#231;&#227;o dos achados &#250;teis na pr&#225;tica cl&#237;nica...</italic> " <sup>29</sup>. Seja uma conven&#231;&#227;o <italic>"...ecocardiografia &#233; recomendada anualmente para portadores de estenose mitral assintom&#225;ticos e com &#225;rea valvar mitral &gt;1,5 cm&#178;..."</italic> <sup>6</sup>, seja um imperativo ""... <italic>valvotomia mitral por cateter-bal&#227;o n&#227;o est&#225; indicada para portadores de estenose mitral discreta..."</italic> <sup>6</sup>, h&#225; um capital compromisso quanto ao hipocr&#225;tico "...a <italic>ningu&#233;m darei um conselho que induza &#224; perda...".</italic> Deduz-se que diretriz incorpora um simbolismo de presta&#231;&#227;o de servi&#231;o com zelo e prud&#234;ncia.</p>
    <p>Acontece que por ser uma troca, imp&#245;e-se um endosso: averiguar se no lugar do comit&#234; de elabora&#231;&#227;o, usufruindo liberdade, far&#237;amos - qualquer cardiologista que conhe&#231;a cardiopata, esteja ele na vida acad&#234;mica ou n&#227;o - o mesmo processo que deu o produto final que estamos aceitando. A resposta &#233; complexa. Deduz-se que ela necessita ser decomposta.</p>
    <p>Na fase de garimpagem dos dados cient&#237;ficos, poder&#237;amos explorar os mesmos veios da mina literatura e fazer id&#234;nticas sele&#231;&#245;es e classifica&#231;&#245;es de pepitas- restri&#231;&#245;es n&#227;o costumam ser de natureza intelectual, elas atendem por dias de "apenas" 24 horas. Deduz-se que esta primeira metade da resposta tem grande chance de ser, conceitualmente: <italic>sim, far&#237;amos um processo an&#225;logo</italic>.</p>
    <p>A resposta na fase de habilita&#231;&#227;o de dados cient&#237;ficos como evid&#234;ncias, onde h&#225; escolha dos que mais se aproximariam da verdade (a interven&#231;&#227;o &#250;til e eficaz), tem muita chance de ser amb&#237;gua; as tarefas de ranquear as evid&#234;ncias e hegemonizar a "melhor evid&#234;ncia" est&#227;o sujeitas a um julgamento subjetivo e, portanto, est&#227;o longe de serem neutras. Deduz-se que dar um sim, nesta segunda parte, associa-se a um alto grau de transfer&#234;ncia de confian&#231;a para o comit&#234; padrinho (pater, padr&#227;o).</p>
    <p>Havendo o duplo sim, d&#225;-se a completude da anu&#234;ncia e nela projetamos a perspectiva do melhor resultado. Entrevemos que um eventual resultado distinto ao esperado independeria de m&#225;-pr&#225;tica. Um dos &#226;ngulos da concep&#231;&#227;o da diretriz &#233; justamente ser blindagem, na medida do poss&#237;vel, tanto da imprud&#234;ncia, porque, a seguindo, n&#227;o estar&#237;amos fazendo algo que a maioria tamb&#233;m n&#227;o faz, quanto da neglig&#234;ncia, porque n&#227;o deixar&#237;amos de estar fazendo algo que a maioria faz; logo, a diretriz representaria guardi&#227; da "<italic>...atua&#231;&#227;o em benef&#237;cio do paciente..."</italic> (art. 6&#186; do C&#243;digo de &#201;tica M&#233;dica). Mas, h&#225; o outro lado da beira do leito: a ader&#234;ncia a uma diretriz pode se tornar uma imprud&#234;ncia, quando a sua benefic&#234;ncia n&#227;o &#233; passada pelo filtro da n&#227;o-malefic&#234;ncia; um exemplo em cl&#237;nica de v&#225;lvula: suponhamos que tenha havido a ader&#234;ncia &#224; recomenda&#231;&#227;o <italic>"... uma biopr&#243;tese mitral est&#225; indicada para o paciente que n&#227;o seguir&#225; recomenda&#231;&#227;o de anticoagulante, est&#225; incapacitado ou tem contra-indica&#231;&#227;o ao uso..."</italic> (classe I de recomenda&#231;&#227;o em sele&#231;&#227;o de pr&#243;tese mitral) <sup>6</sup>; imediatamente ap&#243;s o implante da biopr&#243;tese selecionada porque o paciente n&#227;o tem perfil para anticoagula&#231;&#227;o, precisa haver cuidado para n&#227;o aderir a "... <italic>durante os primeiros tr&#234;s meses da troca mitral por biopr&#243;tese &#233; razo&#225;vel o uso de varfarina..."</italic> (classe IIa de recomenda&#231;&#227;o em conduta antitromb&#243;tica perante pr&#243;tese valvar)<sup>6</sup>. Deduz-se que a padroniza&#231;&#227;o por diretriz, como ideologia, precisa ter as interdepend&#234;ncias legitimadas como real interesse da comunidade.</p>
    <p>Para bem acomodar o resultado intu&#237;do, diretriz n&#227;o deve ser encarada como uma "bula" da beira do leito, ou uma "cola" para o exame do paciente; para quem n&#227;o leu um m&#237;nimo de artigos das refer&#234;ncias, a diretriz n&#227;o &#233; muito mais do que uma caricatura da literatura; ali&#225;s, quando a diretriz n&#227;o &#233; lida como revelando segredos, ela contribui para o sucesso profissional na representa&#231;&#227;o de uma segunda leitura, de acordo com a concep&#231;&#227;o que "...<italic>por mais estranho que pare&#231;a, ningu&#233;m pode ler um livro, s&#243; reler...</italic>" (Wladimir Nabokov, 1899-1977), que nos ensina que a primeira leitura deixa um sedimento, marca do esfor&#231;o de compreender, e que, quando estivermos diante da necessidade, recuperamos a lembran&#231;a armazenada, um <italic>search-copy-paste</italic> na mente, que provoca a segunda leitura, mais imediatista -o rever a literatura para bem nos certificarmos.</p>
    <p>&#201; essencial, o m&#233;dico que pegar&#225; carona na diretriz para desembarcar na beira do leito, n&#227;o faz&#234;-lo sem se certificar do itiner&#225;rio no guich&#234; da experi&#234;ncia; "agora duplamente informado" e esclarecido por sua pr&#243;pria sensibilidade cl&#237;nica, ele pode satisfazer mais uma sabedoria de Osler - mais uma e ele vira co-autor...: <italic>"... a falta de treino pessoal sistem&#225;tico leva &#224; m&#225;-aplica&#231;&#227;o..."</italic>. Para tudo o mais, existe a diretriz <italic>cart&#227;o de cr&#233;dito</italic>, inclusive admitindo um esfor&#231;o de desenvolver "<italic>... sistemas de diretriz interpret&#225;veis por computador voltados para os n&#227;o especialistas..."</italic> <sup>30</sup>. Faz lembrar publica&#231;&#245;es pioneiras da ci&#234;ncia, s&#233;culos atr&#225;s, que eram anagramas que preservavam o cr&#233;dito da autoria, mas s&#243; intelig&#237;veis por quem compartilhasse a senha.</p>
    <p>N&#227;o soa &#233;tico, pretendermo-nos poli-especializados, simplesmente, por dispor de acesso a uma cole&#231;&#227;o de diretrizes. Deduz-se que diretriz n&#227;o &#233; para ser usada como EPI (Equipamento de Prote&#231;&#227;o Individual) por quem n&#227;o tem intimidade com o assunto, ao contr&#225;rio do que muitos acham. Uma diretriz pode at&#233; nos dar a sensa&#231;&#227;o de estarmos livres e sob prote&#231;&#227;o; mas usar "luvas e &#243;culos", sem um adequado ritual de passagem, compromete o tato fino e a acuidade visual, e, em decorr&#234;ncia, corre-se o risco de ser uma liberdade protegida dentro de um labirinto. E nele enredado, enfrentar acarea&#231;&#245;es com uma sucess&#227;o de realidades que n&#227;o conhecemos, e, por isso, entrar em contradi&#231;&#245;es. &#201; algo como "n&#227;o sustentar amanh&#227; a inverdade que se disse hoje", pois quem n&#227;o tem como fazer narrativas com suas pr&#243;prias experi&#234;ncias, tanto mais "teoria pela pr&#225;tica" quanto mais elas forem caleidosc&#243;picas, provavelmente, n&#227;o se sente &#224; vontade para interpretar, com a autenticidade do conhecimento de causa, o personagem que "proclama diretriz", &#224; beira do leito. Em situa&#231;&#245;es distantes das inter-rela&#231;&#245;es cl&#237;nicas do nosso dia-a-dia, aplicar uma diretriz qual receita de bolo, salvo em "extrema solid&#227;o de colegas" onde se torna uma t&#225;bua de salva&#231;&#227;o, beira, eticamente, a uma s&#237;ndrome de Munchausen. Hip&#243;crates diria a Osler: - Esqueceram que juraram "..<italic>.aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento..."</italic> e Osler retrucaria: "..<italic>.a falta de treino sistem&#225;tico pode nos colocar aos olhos do p&#250;blico no mesmo n&#237;vel que os charlat&#245;es..."</italic>.</p>
    <p>Se h&#225; a interpreta&#231;&#227;o de um dado como <italic>o mais</italic>, haver&#225;, por complementaridade, aquele <italic>o menos</italic>, n&#227;o necessariamente inaplic&#225;vel; se h&#225; a <italic>melhor</italic> evid&#234;ncia, haver&#225;, por pressuposto, a <italic>pior,</italic> esta n&#227;o necessariamente ruim<italic>;</italic> as compara&#231;&#245;es s&#227;o feitas em rela&#231;&#227;o a refer&#234;ncias n&#227;o absolutas, elas n&#227;o s&#227;o como quando se usa placebo; por isso, evid&#234;ncia n&#227;o deve admitir nenhuma aprecia&#231;&#227;o fora da representa&#231;&#227;o de significar a probabilidade - e n&#227;o a veracidade -, que recomenda (classe I) ou desaconselha (classe III). Ou seja, o dicion&#225;rio da bioestat&#237;stica respeita a ordem alfab&#233;tica: probabilidade (evid&#234;ncia mais pr&#243;xima do sucesso) sempre antecede veracidade (sucesso evidenciado).</p>
    <p>Os ingleses Lockey, Crewdson e Davies <italic>do London Helicopter Emergency Medical Service</italic><sup>31</sup> analisaram uma situa&#231;&#227;o de alta complexidade biopsicossocial, a parada card&#237;aca; eles observaram que 13(19%) dos 68 sobreviventes de parada card&#237;aca p&#243;s-traumatismo, situa&#231;&#227;o de p&#233;ssimo progn&#243;stico, e onde muitos consideram a ressuscita&#231;&#227;o como ato f&#250;til, contradisseram diretrizes recentemente publicadas; a conclus&#227;o foi: <italic>"... a ader&#234;ncia &#224;s diretrizes pode deixar de lado um n&#250;mero de pacientes com chance de sobrevida...".</italic></p>
    <p>E como ficam as "piores que a melhor evid&#234;ncia"? O que representam aqueles dados que, compondo o produto interno bruto da Cardiologia, e longe de serem entulho cient&#237;fico, adquiriram o status de evid&#234;ncia em grau inferior na escala da valoriza&#231;&#227;o cient&#237;fica, segundo os crit&#233;rios convencionados? Elas formam uma esp&#233;cie de vice-evid&#234;ncia da "melhor" evid&#234;ncia. Assim sendo, n&#227;o se pode desconsiderar a legitimidade deles para assumir primazia, em impedimentos da evid&#234;ncia-titular; um forte argumento a favor da vis&#227;o que "piores que a melhor evid&#234;ncia" n&#227;o s&#227;o ant&#237;teses de benefic&#234;ncia, &#233; que sabemos o quanto &#233; improv&#225;vel que todos os pacientes com mesma mol&#233;stia requeiram sempre a mesma prescri&#231;&#227;o<sup>32</sup>. Deduz-se que recomenda&#231;&#245;es classes tanto I, quanto II podem determinar resultados semelhantes na beira do leito, independente do grau de probabilidade intu&#237;do da fonte cient&#237;fica.</p>
    <p>Levanta-se, ent&#227;o, a quest&#227;o: "Melhor" evid&#234;ncia para quem? Se for para o comit&#234; de elabora&#231;&#227;o da diretriz, n&#227;o &#233; o suficiente; se for para a satisfa&#231;&#227;o acad&#234;mica de um conceito fisiopatol&#243;gico, n&#227;o &#233; o suficiente; se for para a vis&#227;o administrativa de recomposi&#231;&#227;o da rela&#231;&#227;o custo-benef&#237;cio, n&#227;o &#233; o suficiente; se for para o m&#233;dico que ir&#225; aplicar, n&#227;o &#233; o suficiente; se for para a benefic&#234;ncia/n&#227;o-malefic&#234;ncia p&#243;s-consentimento livre e esclarecido do paciente, &#233; o suficiente. Deduz-se que o feedback avalista <italic>"evid&#234;ncia da diretriz"- resultado da beira do leito"</italic> depende da multiplicidade de s&#233;rie de casos, pois, "... <italic>dados de observa&#231;&#227;o podem cooperar com os estudos randomizados no objetivo de confirmar ou n&#227;o se a mesma efici&#234;ncia obtida perante condi&#231;&#245;es controladas ocorre na pr&#225;tica terap&#234;utica rotineira..."</italic> <sup>33</sup><italic>,</italic> curiosamente, um m&#233;todo cient&#237;fico inferior na concep&#231;&#227;o das evid&#234;ncias. "Verdades de plant&#227;o" sobre preven&#231;&#227;o t&#234;m not&#243;rias diferen&#231;as em rela&#231;&#227;o ao timing para aprecia&#231;&#227;o da utilidade e da efic&#225;cia do que as sobre terap&#234;utica. Esta tem a proposi&#231;&#227;o- abertura da valva mitral por uma interven&#231;&#227;o face a um edema agudo de pulm&#227;o-, a execu&#231;&#227;o- obten&#231;&#227;o de &#225;rea valvar mitral de 2,1 cm&#178; por valvoplastia por cateter-bal&#227;o- e o resultado- classe funcional I- em curto prazos; j&#225; em rela&#231;&#227;o &#224; epidemiologia cl&#237;nica e &#224; bioestat&#237;stica e seus desdobramentos na Medicina Baseada em Evid&#234;ncias, os efeitos ben&#233;ficos conceituais de uma redu&#231;&#227;o (qualitativa e quantitativa) &#224; exposi&#231;&#227;o da hipercolesterolemia s&#227;o menos expl&#237;citos na hist&#243;ria da vida real de um "quase doente". Esta constata&#231;&#227;o, vinte anos ap&#243;s a frase de efeito "... <italic>um dimmer reduz a luz quando sa&#237;mos do compartimento plasm&#225;tico e entramos na parede arterial..."</italic> <sup>34</sup>, relembra o ensinamento do epidemiologista Geoffrey Rose, famoso por formular que a concep&#231;&#227;o doentes x n&#227;o doentes (medicar ou observar) &#233; uma l&#243;gica cl&#237;nica dicot&#244;mica que n&#227;o se aplica no &#226;mbito populacional, onde h&#225; um continuum subcl&#237;nico: "... <italic>numa pol&#237;tica de massa populacional, um pequeno benef&#237;cio para cada um pode tornar-se inesperadamente grande</italic>..." <sup>35</sup>; e alerta que o car&#225;ter de benefic&#234;ncia da mudan&#231;a de h&#225;bitos n&#227;o pode ser visto desmembrado de <italic>"... a doen&#231;a &#233; um freio no cotidiano... a Medicina precisa inserir-se no contexto e nos valores dos freios de cada vida..."</italic> <sup>36</sup>.</p>
    <p>Parece que se concretiza um paradoxo com implica&#231;&#245;es &#233;ticas: <italic>"... n&#227;o h&#225; evid&#234;ncia aceit&#225;vel segundo a medicina baseada em evid&#234;ncia que a medicina baseada em evid&#234;ncia &#233; um caminho para a verdade... que randomiza&#231;&#227;o, quando tem discrep&#226;ncia com outro m&#233;todo, seja superior, &#233; uma cren&#231;a, n&#227;o uma evid&#234;ncia; afinal a diverg&#234;ncia entre trabalhos &#233; a regra, n&#227;o &#233; a exce&#231;&#227;o, se n&#227;o, porque haveria necessidade de revis&#227;o sistem&#225;tica, se tudo fosse id&#234;ntico?..."</italic><sup>5</sup>. Recorde-se que uma das express&#245;es mais comuns em artigos da literatura cardiol&#243;gica &#233; "<italic>conflicting results",</italic> justificativa para novas pesquisas. Deduz-se que &#233; v&#225;lido examinar o contexto das diretrizes sob o &#226;ngulo da cultura m&#233;dica atual, recorrendo a uma meton&#237;mia ligada a Caius Mecenas, que foi um cidad&#227;o romano da &#233;poca imperial que ajudou a autocracia a satisfazer os interesses da aristocracia: a diretriz, pela determina&#231;&#227;o de colecionar um acervo valioso, corresponde a mecenas do estado da arte, no ecossistema da Cardiologia?</p>
    <p>
      <bold>X - Diretricentrismo: fen&#244;meno cultural da &#233;poca</bold>
    </p>
    <p>H&#225; cerca de 15 anos, diretrizes imigraram para o ecossistema da Cardiologia; na chegada ao Brasil, mostravam compet&#234;ncia internacional para um <italic>vini, vidi, vince</italic> quanto a selecionar &amp; interpretar &amp; organizar.</p>
    <p>Elas n&#227;o olvidavam as dificuldades representadas pela no&#231;&#227;o que o desencaixar do dado do "receptor cient&#237;fico" n&#227;o era garantia do subseq&#252;ente encaixe, da agora evid&#234;ncia, de modo aveludado, no "receptor paciente" em fun&#231;&#227;o de: a) uma vis&#227;o n&#227;o muito realista - n&#227;o habilidosa - da beira do leito <italic>"... a proclamada superioridade hemodin&#226;mica da biopr&#243;tese stentless n&#227;o necessariamente traduz-se em melhor evolu&#231;&#227;o cl&#237;nica..."</italic> <sup>37</sup>; b) ambig&#252;idade da recomenda&#231;&#227;o; c) aus&#234;ncia de dicas de aplica&#231;&#227;o; d) falta de est&#237;mulo &#224; educa&#231;&#227;o do paciente.</p>
    <p>No formul&#225;rio de imigra&#231;&#227;o ficou anotada a identidade da diretriz: <italic>recomenda&#231;&#227;o de comit&#234; especializado, baseada em dados cient&#237;ficos qualificados, para o zelo e prud&#234;ncia na condu&#231;&#227;o de circunst&#226;ncias cl&#237;nicas espec&#237;ficas</italic>. O parecer de admiss&#227;o foi: <italic>dever&#225; contribuir para um aperfei&#231;oamento cultural, afastar do julgamento m&#233;dico a confian&#231;a n&#227;o conferida e aproximar um suporte estruturado e respons&#225;vel.</italic></p>
    <p>A ader&#234;ncia &#224;s diretrizes defrontou-se com o efeito teflon, enquanto <italic>"... alguns cl&#237;nicos acharam as diretrizes &#250;teis, outros as descreveram como anti-inteligentes...</italic>" <sup>20</sup>. Um clima de ambival&#234;ncia de postura determinou algo como atestado de bons antecedentes da conduta expedida pela experi&#234;ncia x atestado de bons antecedentes da conduta expedido por um comit&#234;.</p>
    <p>Por que? Porque sempre h&#225;bitos cl&#237;nicos foram fortes, retroalimentados por se estar seguro com o que faz, e protegidos por um sentimento de venera&#231;&#227;o da antiguidade, como nos lembra mestre D&#233;court <sup>38</sup>, porque lidar com mudan&#231;as depende do ritmo de cada um; porque sempre h&#225; clima para uma vers&#227;o fantasista; porque sempre temem-se imposi&#231;&#245;es- realidades trabalhadas com alto grau de liberdade poderiam ditar normas e depois, sob um clima de restri&#231;&#227;o do grau de liberdade, cada norma ditaria a realidade. As preocupa&#231;&#245;es com atitudes &#233;ticas s&#227;o &#243;bvias: <italic>"... a &#233;tica deve valorizar o uso do melhor dispon&#237;vel na pesquisa m&#233;dica, mas a &#233;tica de uma atitude n&#227;o pode restringir-se &#224; melhor evid&#234;ncia m&#233;dica..."</italic> <sup>39</sup>.</p>
    <p>Receios? Que um movimento de higieniza&#231;&#227;o das impurezas da literatura, servisse de pretexto para uma interfer&#234;ncia autorit&#225;ria das classes de evid&#234;ncia nas tradi&#231;&#245;es hipocr&#225;ticas e oslerianas de lidar com os conflitos; que, assim, provocasse um controle centralizado nas rela&#231;&#245;es de for&#231;a do ecossistema da Cardiologia e, pela deforma&#231;&#227;o de ra&#237;zes hist&#243;ricas, ou deturpa&#231;&#227;o de realidades, trouxesse uma conseq&#252;ente amea&#231;a de ostracismo para a medicina convencional; que o congelamento do conhecimento numa diretriz desvalorizasse certas habilidades classicamente consideradas imprescind&#237;veis ao ser m&#233;dico, como o ceticismo com sua d&#250;vida permanente e a autocr&#237;tica com sua pedagogia; que exaltar a superioridade da diretriz seria depreciar a pr&#243;pria experi&#234;ncia, ela a verdade e esta um sonho, algo como desapareceriam os m&#233;dicos, substitu&#237;dos por profissionais que medicam.</p>
    <p>Benef&#237;cios? Anti-imprud&#234;ncia &amp; anti-neglig&#234;ncia que conv&#234;m na decis&#227;o cl&#237;nica, uma liga&#231;&#227;o menos abstrata com princ&#237;pios seculares, educa&#231;&#227;o individual ou de grupos e guia para custeio, ou seja, uma equa&#231;&#227;o favor&#225;vel de custo-risco-benef&#237;cio.</p>
    <p>Malef&#237;cios? Semear uma postura conformista e complacente, postar-se na contra-m&#227;o da conscientiza&#231;&#227;o sobre o indutivo/dedutivo no exerc&#237;cio da Medicina, servir de instrumento a inten&#231;&#245;es "subcl&#237;nicas" de restri&#231;&#227;o do exerc&#237;cio profissional e representar mais uma espada do que um escudo<sup>40</sup> perante tribunais.</p>
    <p>Perspectivas? Que sele&#231;&#227;o, an&#225;lise, constru&#231;&#227;o e incorpora&#231;&#227;o ganhassem receptividade crescente e que houvesse uma aprecia&#231;&#227;o como tecel&#227; de estrat&#233;gias cl&#237;nicas; que o conv&#237;vio provocasse gradual ameniza&#231;&#227;o da imagem de "ordens a cumprir", pois esta carrega a pressuposi&#231;&#227;o que um estado de doen&#231;a somente deveria -ou poderia- ser controlado, parcial ou totalmente, segundo a raz&#227;o de suas recomenda&#231;&#245;es; e assim, tudo o mais poderia ser uma iatrogenia. E n&#227;o devemos supor que diretriz "... <italic>que n&#227;o resolve todas as incertezas da pr&#225;tica m&#233;dica habitual e deveria ser vista como apenas uma estrat&#233;gia em prol da qualidade do atendimento &#224; sa&#250;de..."</italic> <sup>41</sup>, seja imuniza&#231;&#227;o ativa contra iatrogenia, pois uma coisa &#233; ela formar os anticorpos contra m&#225;-pr&#225;tica pelo conhecimento que proporciona, e outra coisa &#233; o quanto a atitude indevida frente ao paciente possa multiplicar ant&#237;genos.</p>
    <p>Fundamentadas na ideologia da Medicina Baseada em Evid&#234;ncias, as diretrizes:</p>
    <p>1. Progressivamente, romperam "fronteiras mentais"; aqui e ali, superaram um clima de indiferen&#231;a e de produto de segunda m&#227;o- enquanto revis&#227;o- e expandiram-se num caminho ascendente: dado cient&#237;fico-evid&#234;ncia-resultado cl&#237;nico; conquistaram simpatizantes da concep&#231;&#227;o de que &#233; um bem que, aprovar e aplicar, &#233; uma efervescente obriga&#231;&#227;o; incrustaram-se na consci&#234;ncia cl&#237;nica e passaram a influenciar a gera&#231;&#227;o dos m&#233;dicos com n&#250;meros mais altos de CRM, desde o internato, aquela que n&#227;o conheceu alfaiate e, acostumada ao pr&#234;t-&#224;-porter, precisa ser alertada sobre o "pr&#234;t-&#224;-penser" das diretrizes.</p>
    <p>N&#227;o obstante, provocaram advers&#225;rios desta postura moral de dever, que lhes atribu&#237;ram um car&#225;ter m&#237;stico, mais "...<italic>f&#233; num dogma que confunde evid&#234;ncia com verdade...</italic>"<sup>12</sup> do que raz&#227;o por meio de comprova&#231;&#245;es; mesmo considerando aqueles que costumam manifestar uma compulsiva postura de independ&#234;ncia da opini&#227;o prevalente, parece que rejei&#231;&#245;es decorrem de uma pretensiosa exalta&#231;&#227;o da auto-avalia&#231;&#227;o de superioridade da adjetiva&#231;&#227;o Baseada em Evid&#234;ncias em rela&#231;&#227;o &#224; convencional, na, talvez n&#227;o adjetiv&#225;vel, Medicina, pois sabedoria &#233; apenas sabedoria.</p>
    <p>No decorrer destes 3 lustros, a literatura colecionou in&#250;meros lamentos da sub-utiliza&#231;&#227;o das diretrizes <italic>"... elas s&#227;o mais apregoadas do que seguidas..."</italic> <sup>20</sup>; pelo tom de muitos artigos, apenas um modesto efeito foi obtido com sugest&#245;es para a eleva&#231;&#227;o do grau de ader&#234;ncia<sup>42-44</sup>; pelos resultados de muitos malabarismos pr&#243;-ades&#227;o, a necessidade da rede sob o trap&#233;zio persiste, e bem estendida.</p>
    <p>Um certo car&#225;ter de "Di&#225;rio Oficial" da literatura cient&#237;fica do ecossistema da Cardiologia suscita controv&#233;rsias. O governo da Noruega<sup>32</sup>, por exemplo, considerou insuficiente a postagem das diretrizes para mudar h&#225;bitos de prescri&#231;&#227;o e reduzir custos; uma atitude proativa por meio de visitas organizadas aos m&#233;dicos foi frustrante: 83% dos pacientes dos m&#233;dicos visitados n&#227;o receberam tiaz&#237;dico para hipertens&#227;o arterial, conforme as diretrizes promovidas pessoalmente, embora tivesse sido um &#237;ndice melhor do que os 89% do grupo controle com apenas postagem das diretrizes e que se associou a um "<italic>trashing the envelope unopened</italic>".</p>
    <p>2. Real&#231;adas pelo louvor aos avan&#231;os da ci&#234;ncia e da tecnologia e pelo temor &#224;s vulnerabilidades deles decorrentes, elas passaram a ser vistas como um valor de vanguarda-um futuro cada vez mais seguro-e salvaguarda de um presente mais cient&#237;fico do que o passado;</p>
    <p>3. Incorporadas &#224; imagem de modernidade e referenciadas ao progresso, elas se otimizaram como tutores, os que sabem o que &#233; melhor, destacando do protocolo de inten&#231;&#245;es<italic>: inquestion&#225;vel idoneidade na elabora&#231;&#227;o, judiciosa interpreta&#231;&#227;o do conte&#250;do das refer&#234;ncias e objetiva contribui&#231;&#227;o para a sa&#250;de das pessoas.</italic></p>
    <p>4. Legitimaram-se em parceiras, conselheiras e pedagogas, com altru&#237;smo e confian&#231;a. Bancos de dados facilitaram a comunica&#231;&#227;o: " <italic>Guidelines Finder da inglesa The National Library for Health prov&#234; um &#237;ndice com mais de 1.500 diretrizes, atualizados semanalmente, com facilidade para download ..."</italic> <sup>45</sup>.</p>
    <p>5. Foram adotadas pela intelligentsia com a espontaneidade da p&#243;s-reflex&#227;o cr&#237;tica; mas tamb&#233;m sob outras formas, que, ao contr&#225;rio, suscitam reflex&#245;es cr&#237;ticas, por conta de conflitos de interesses; conseguiram patrocinadores e propagadores recomendando a cole&#231;&#227;o de "uma enciclop&#233;dia pr&#225;tica";</p>
    <p>6. Assimilaram-se ao conceito de boa &#225;rvore, bons frutos e articularam-se com decis&#245;es tanto da beira do leito - &#225;rvore por &#225;rvore - quanto da beira da mesa do administrador da sa&#250;de - a floresta;</p>
    <p>7. Preocuparam-se em se apresentar clinicamente amig&#225;veis, para facilitar o encontro cl&#237;nico, e cientificamente concisas, para prover o reencontro em meio aos labirintos da literatura;</p>
    <p>8. Promoveram uma remodela&#231;&#227;o curricular com realce para as evid&#234;ncias (dados interpretados);</p>
    <p>9. Preencheram lacunas do espa&#231;o da forma&#231;&#227;o universit&#225;ria e do tempo para atualiza&#231;&#227;o profissional, estimularam capacidades para um pr&#243;ximo passo consciente e catalisaram a interdisciplinaridade; como ponto de honra, esfor&#231;aram-se para deixar bem claro o que &#233; evid&#234;ncia e o que &#233; opini&#227;o como fundamento para dar respostas na beira do leito.</p>
    <p>10. Sofreram duras cr&#237;ticas, por tabela, por uma vigil&#226;ncia cr&#237;tica sobre vieses na base de sustenta&#231;&#227;o, a respeito de: modifica&#231;&#245;es em pesquisas durante a execu&#231;&#227;o, arbitrariedade de "endpoints"; discrep&#226;ncias entre significado estat&#237;stico e cl&#237;nico <italic>"... n&#227;o se deve confundir signific&#226;ncia estat&#237;stica e import&#226;ncia cl&#237;nica... pertin&#234;ncia biol&#243;gica, o teste do poder da considera&#231;&#227;o te&#243;rica e a for&#231;a de evid&#234;ncias correlatas s&#227;o mais importantes do que o valor de p... a id&#233;ia equivocada que um &#250;nico n&#250;mero pode capturar tanto os efeitos tardios de um experimento quanto o significado de um &#250;nico resultado.."</italic> <sup>46</sup>; n&#227;o-publica&#231;&#227;o de resultados desfavor&#225;veis; efeitos da polifarm&#225;cia e conflitos de interesses <sup>47</sup>. Elas n&#227;o puderam eliminar a impress&#227;o reducionista de certo "realismo m&#225;gico" - classe I x classe II I-, de ocultismo bem imposto - classe IIa x classe IIb -, e, at&#233; mesmo, de uma literatura m&#233;dica "em compotas".</p>
    <p>
      <bold>XI - Segunda opini&#227;o de bolso</bold>
    </p>
    <p>As diretrizes desenvolveram um processo de inclus&#227;o (<italic>trial-guideline-education process</italic>, como batizado por Fye, h&#225; cerca de 3 anos)<sup>47</sup>, com alicerces na verdade de plant&#227;o (renovada de tempos em tempos) e na confian&#231;a retroalimentada na rotina. Assim, elas contribuem para a taxa de crescimento do produto interno bruto no ecossistema da Cardiologia e distribui&#231;&#227;o <italic>per capita</italic>, &#237;ndice que no Brasil ocupa um lugar destacado no cen&#225;rio mundial.</p>
    <p>A inclus&#227;o traz a dimens&#227;o moral que acompanha uma a&#231;&#227;o de convencimento. Por isso, &#233; preocupante saber que diretrizes n&#227;o s&#227;o imunes, nem a modalidades de conflitos de interesses, lobbies, l&#243;gicas comerciais &#150; pass&#237;veis de estarem mascaradas em exalta&#231;&#245;es de diretricentrismo -, nem a falhas do sistema de sa&#250;de. E tamb&#233;m, indiretamente, elas n&#227;o est&#227;o isentas de defici&#234;ncias de controle de qualidade com a mat&#233;ria-prima; neste particular, Garcia-Berthou &amp; Alcaraz<sup>48</sup> fazem soar um forte alerta<italic>: "... 25% e 38% de cada artigo de uma amostragem do Nature e do British Medical Journal, respectivamente, apresentam pelo menos um erro estat&#237;stico, o que leva &#224; conclus&#227;o que pesquisadores numa ponta e revisores de revistas cient&#237;ficas, mesmo das renomadas, noutra, mostram insufici&#234;ncia de compet&#234;ncia nesta &#225;rea...".</italic> Shahar<sup>49</sup> refor&#231;a: <italic>"... m&#233;dicos devem estar muito bem habilitados para compreender n&#227;o somente o que a ci&#234;ncia pode e n&#227;o pode oferecer &#224; medicina, como tamb&#233;m porque a ci&#234;ncia biom&#233;dica e a pr&#225;tica m&#233;dica nunca ir&#227;o estar t&#227;o intensamente vinculadas quanto se possa teorizar o v&#237;nculo..."</italic></p>
    <p>O nexo de efici&#234;ncia &#224; inclus&#227;o das diretrizes no ecossistema da Cardiologia levanta a possibilidade de eventuais conota&#231;&#245;es "transg&#234;nicas"; o consumo de modifica&#231;&#245;es em fundamentos do exerc&#237;cio da Medicina poderia provocar impactos potencialmente nocivos sobre a natureza humana da rela&#231;&#227;o m&#233;dico-paciente.</p>
    <p>No contraponto, a ader&#234;ncia &#224; diretriz poderia modificar positivamente &#243;bices &#224; objetividade; eles poderiam ser figurados como aquela triste mem&#243;ria do &#250;ltimo caso, uma refer&#234;ncia preestabelecida que catalisa um desvio de percep&#231;&#227;o do caso futuro-temor de causar iatrogenia, press&#245;es emocionais vindas de distintas dire&#231;&#245;es; e, ainda, como excesso de imagina&#231;&#227;o acerca do bin&#244;mio risco-benef&#237;cio, quer seja por uma "microscopia cl&#237;nica" que amplia os m&#237;nimos riscos, quer seja por uma "hipocondria cl&#237;nica" que faz pretender benef&#237;cios a mais. Sem o filtro do bom-senso, uma diretriz pode representar, t&#227;o somente, um amortecedor da medicina defensiva. A bio&#233;tica inquieta-se.</p>
    <p>&#201; essencial, tamb&#233;m, ponderar sobre o contexto da inclus&#227;o das diretrizes na nossa pr&#243;pria natureza humana, a de cada cardiologista, coletivizada, no ecossistema da Cardiologia. Precisamos refletir sobre o quanto a ideologia fomentadora de diretrizes oferece-nos Esfinges onde projetamos as culpas e as responsabilidades advindas da pr&#225;tica da especialidade; podemos nos valer delas como uma terceiriza&#231;&#227;o sobre decis&#245;es quanto ao bem e ao mal para o paciente, pretendendo que sentimentos do processo decis&#243;rio fiquem transferidos para "fora dos nossos muros"; mas n&#227;o devemos deixar de lado a auto-confian&#231;a determinada pela seguran&#231;a profissional, adquirida caso-a-caso, para emitir nosso pr&#243;prio ju&#237;zo, qual &#201;dipo, que al&#233;m de ter decifrado o enigma da Esfinge, se obrigava a tudo ver, para decifrar os enigmas da vida. N&#227;o se despersonaliza quem mant&#233;m o poder da vontade, respons&#225;vel, &#233;tica e legal. Vence a ambig&#252;idade quem ajusta uma certa perda da autonomia pela utiliza&#231;&#227;o da diretriz cient&#237;fica com uma judiciosa transfer&#234;ncia de compet&#234;ncia da mesma.</p>
    <p>As duas frases seguintes foram ouvidas de cardiologistas e d&#227;o o contraponto da inclus&#227;o das diretrizes na pr&#225;tica da chamada medicina defensiva -mas tamb&#233;m ofensiva, em seu duplo sentido, em n&#227;o poucas ocasi&#245;es: a) entrincheirado, evitando o fogo cruzado de propostas concorrentes, mas arriscando-se a tomar uma pseudo-decis&#227;o: <italic>"... eu utilizo diretrizes para dormir tranq&#252;ilo e n&#227;o acordar com um processo nas costas...";</italic> b) na linha de fogo e bem armado, com o dom&#237;nio da recomenda&#231;&#227;o: "... <italic>uma diretriz &#233; o meu supervisor de papel, uma segunda opini&#227;o sempre perto de mim, mas n&#227;o abro m&#227;o de dar a primeira opini&#227;o...".</italic> Cada um expressou de uma forma o conforto que sente pelo aconchego da diretriz; ambas declara&#231;&#245;es suscitam reflex&#245;es segundo extens&#227;o dos esp&#237;ritos dos artigos 34 e 42 do nosso C&#243;digo de &#201;tica M&#233;dica: "...<italic>&#233; vedado ao m&#233;dico atribuir seus insucessos a terceiros..., exceto nos casos em que isso possa ser devidamente comprovado</italic>..." e <italic>" ...&#233; vedado ao m&#233;dico praticar atos m&#233;dicos desnecess&#225;rios...</italic>". Ademais, traz &#224; mente o artigo 29: <italic>"... &#233; vedado ao m&#233;dico praticar atos danosos ao paciente que possam ser caracterizados como imper&#237;cia, imprud&#234;ncia ou neglig&#234;ncia..."</italic>.</p>
    <p>Ainda no processo de inclus&#227;o das diretrizes, cabe examinar o quanto "os doentes acontecem &#224;s doen&#231;as", e n&#227;o o contr&#225;rio, &#233; epidemiologicamente v&#225;lido no ecossistema da Cardiologia; por exemplo, o "encontro" do paciente com o infarto do mioc&#225;rdio, pelo "mesmo determinismo ateroscler&#243;tico" imposto aos seus familiares pr&#243;ximos.</p>
    <p>Isto considerado, o aux&#237;lio dos algoritmos -um m&#233;todo de racionaliza&#231;&#227;o, partir da mesma informa&#231;&#227;o e chegar &#224; mesma conclus&#227;o- que acompanham diretrizes resulta diretamente proporcional &#224; capacidade de permitir percursos por um n&#250;mero abrangente de quadradinhos, tendo, desde o mais superior, capacidade para absorver os reais dados do paciente-alvo, como senha para as distin&#231;&#245;es. Para a tarefa, at&#233; pelo alerta <italic>"... n&#227;o h&#225; nenhum algoritmo b&#225;sico que transporte do geral para o particular..."</italic> <sup>50</sup> n&#227;o se pode abrir m&#227;o de uma combina&#231;&#227;o de objetividade e de sensibilidade sobre o valor de certas informa&#231;&#245;es: "<italic>...uma evid&#234;ncia pode ser interpretada de diferentes maneiras..."</italic> <sup>51</sup>; portanto, os algoritmos, ao mesmo tempo que, no comedimento, refor&#231;am a confian&#231;a, no excesso podem provocar prepot&#234;ncia; neste mister, atente-se para o duplo sentido do valor, o num&#233;rico, com suas linhas de corte sobre normalidade e grau de anormalidade e o interpretativo, com seu recorte alinhado na experi&#234;ncia. Algoritmo n&#227;o &#233; uma &#225;rvore geneal&#243;gica, onde as inclus&#245;es s&#227;o inequ&#237;vocas. Classe funcional II, mas em momento p&#243;s-classe I ou em momento pr&#233;-classe III ? O di&#226;metro ventricular esquerdo &#233;, t&#227;o somente, express&#227;o da remodela&#231;&#227;o ou &#233; marcador de progn&#243;stico ? Ainda normofun&#231;&#227;o ventricular esquerda no limite ou j&#225; disfun&#231;&#227;o ? s&#227;o exemplos de dilemas que fazem hesitar a coloca&#231;&#227;o da pontinha do dedo indicador na seq&#252;&#234;ncia dos quadradinhos. Uma trilha fora do padr&#227;o &#233; desvio que promove dispers&#227;o e a conseq&#252;&#234;ncia pode ser uma aplica&#231;&#227;o falsa positiva ou falsa negativa da diretriz. Uma varia&#231;&#227;o da condi&#231;&#227;o inicial no portador de valvopatia, por exemplo, pode representar uma dispers&#227;o no sentido de uma preserva&#231;&#227;o da hist&#243;ria natural ou no sentido de um desencadeamento cir&#250;rgico; o futuro da vida do paciente fica sujeito a estes comportamentos, com a possibilidade de haver numa pr&#243;xima ocasi&#227;o - ainda valva natural ou j&#225; com uma pr&#243;tese valvar -, o retorno ao quadradinho inicial e a tomada de novo caminho. Parece que o tal efeito borboleta admite outros v&#244;os.</p>
    <p>
      <bold>XII - Sem&#225;foro &#233;tico-cient&#237;fico</bold>
    </p>
    <p>O duplo sentido do obrigado</p>
    <p>Iceberg &#233; &#225;gua doce que se faz presente em &#225;gua salgada; diretriz &#233; pesquisa que se faz presente na assist&#234;ncia. Ambos t&#234;m 90% da solidez submersos; os demais 10% s&#227;o o vis&#237;vel ponto de impacto - os quadros de recomenda&#231;&#245;es no que se refere &#224; diretriz -, imaginado flutuante, fragment&#225;vel e mut&#225;vel.</p>
    <p>Pode at&#233; ser um paradoxo, diretriz baseada em evid&#234;ncia comparada com iceberg baseado em inapar&#234;ncia. Mas, h&#225; em ambos a l&#243;gica da auto-sustenta&#231;&#227;o forte, n&#227;o "definitivamente aterrada" e, portanto, razoavelmente livre, que s&#243; ir&#225; perceber quem estiver disposto a mergulhar fundo. E &#233; preciso treinamento e equipamento para circular pelas profundezas. Recorde-se que "diretriz ancorada na literatura" representa o valor do peso cient&#237;fico e n&#227;o imobilidade cl&#237;nica.</p>
    <p>Revis&#227;o e proposi&#231;&#227;o, facilita&#231;&#227;o para decidir e ordenar, uma diretriz tem duas partes na sua composi&#231;&#227;o.</p>
    <p>PRIMEIRA PARTE DE DIRETRIZ - A primeira parte, a reflexiva, cont&#233;m a base de dados cient&#237;ficos, a documenta&#231;&#227;o registrada ano &amp; volume &amp; p&#225;ginas como publica&#231;&#227;o, que, &#226;ncora, nunca pode ser superficial; uma diretriz que <italic>"...mais do que necess&#225;ria, se faz desej&#225;vel..."</italic> <sup>52</sup> incorpora uma discuss&#227;o pormenorizada das fontes, de tal modo que permite uma excelente revis&#227;o cr&#237;tica e indica&#231;&#227;o de assuntos a serem melhor explorados. As p&#225;ginas com as refer&#234;ncias ocupam 15-25% das diretrizes recentes, com tend&#234;ncia a uma cole&#231;&#227;o de 1.000 delas "...<italic>uma diretriz ideal precisa estar documentada por refer&#234;ncias apropriadas..."</italic> <sup>47</sup>.. Os d&#237;gitos d&#227;o a dimens&#227;o de um conhecimento verdadeiro do universo de dados cient&#237;ficos sobre o tema, mas "... <italic>uma lista completa est&#225; fora dos objetivos..."</italic> <sup>6</sup>.</p>
    <p>A primeira parte inclui-se no efetivo engajamento na "comunidade" do ecossistema da Cardiologia, que &#233;tica e moralmente precisa preceder a&#231;&#245;es de corre&#231;&#227;o dos problemas individuais do paciente; mais do que o livre consentimento do paciente, ela habilita para merecer a sua postura participativa.</p>
    <p>O <italic>up-to-date</italic> do cardiologista atualizado comporta-se de modo equivalente; vivemos profissionalmente "firmemente fincados" em racionalidades cient&#237;ficas din&#226;micas; o mesmo impacto de informa&#231;&#227;o, revis&#227;o, atualiza&#231;&#227;o e reflex&#227;o de um artigo na individualidade da sua aprecia&#231;&#227;o tem chance de se reproduzir na coletividade que d&#225; peso &#224; diretriz.</p>
    <p>Muito embora, os dados cient&#237;ficos dispon&#237;veis n&#227;o sejam hier&#243;glifos para decifradores predestinados, diferen&#231;as ocorrem, obviamente; o comit&#234; de alto n&#237;vel intelectual e baixo dissenso tem a <italic>obriga&#231;&#227;o de fazer</italic> por todos, e, sua miss&#227;o &#233; "...<italic>procurar e classificar evid&#234;ncias atualizadas, contando com as facilidades tecnol&#243;gicas da informa&#231;&#227;o..."</italic> <sup>24</sup>; enquanto que cada cardiologista obriga-se &#224; "li&#231;&#227;o de casa", ao seu modo e suas pastas eletr&#244;nicas ou de papel&#227;o d&#227;o a dimens&#227;o dos seus interesses profissionais. Em condi&#231;&#245;es normais de press&#227;o acad&#234;mica e de temperatura da beira do leito, a densidade sobre um assunto tende a se moldar &#224; distribui&#231;&#227;o do tempo no cotidiano pessoal e profissional; ali&#225;s, o efeito tempo &#233; um grande indutor de conflito entre interesses no ecossistema da Cardiologia - a escassez de di&#225;logo &#233; etiopatogenia prevalente nas manifesta&#231;&#245;es de insatisfa&#231;&#227;o de paciente/familiar. O que &#233; bom evitar, &#233; que o h&#225;bito ao ganho de tempo "cient&#237;fico", informando-se numa diretriz, n&#227;o represente uma perda da sensibilidade ao timing cl&#237;nico- risco de efeito Peter Pan.</p>
    <p>Podemos nos contentar com uma biopsia do conte&#250;do de um estudo, em geral, o fragmento &#233; a conclus&#227;o no resumo - uma esp&#233;cie de biopsia de congela&#231;&#227;o para ditar se h&#225; vantagem em prosseguir; ou, ent&#227;o, podemos nos interessar pelo exame completo e detalhado, que pode ou n&#227;o confirmar uma impress&#227;o inicial - os comit&#234;s consomem muitas horas &#150; e quantias - US$50 a US$500,000 <sup>53</sup> -, analisando desta forma; o grau de abrang&#234;ncia e o rigor na qualidade s&#227;o definidos por cada um -disponibilidade de tempo, &#224; parte. Um exemplo circunstancial de interesse do cardiologista: Um estudo do NIH <sup>54</sup> concluiu que "... <italic>resson&#226;ncia magn&#233;tica card&#237;aca realizada com 1.5T &#233; segura na primeira semana p&#243;s-implante de stent coron&#225;rio, n&#227;o causando efeitos adversos card&#237;acos evolutivos; os dados apontam para uma revis&#227;o das recomenda&#231;&#245;es dos fabricantes de stents..</italic>." Se um artigo como este n&#227;o corresponder &#224; primazia de aproveitamento do tempo dispon&#237;vel, a varredura da literatura torna-se uma biopsia que se basta pelo resumo - afinal para que &#233; que ele serve? -, n&#227;o determina ulterior disseca&#231;&#227;o do artigo e fica na mem&#243;ria do "acho que um dia eu li algo sobre"; a mais prov&#225;vel motiva&#231;&#227;o para o aprofundamento ser&#225; a responsabilidade perante um caso espec&#237;fico. E nesta ocasi&#227;o, o cardiologista ser&#225; "comit&#234; de uma nota s&#243;", aquela que ele confere &#224; evid&#234;ncia para produzir uma classe de recomenda&#231;&#227;o de utilidade e efic&#225;cia. Em outras palavras, a base de informa&#231;&#227;o da literatura, comum a qualquer retrospectiva, gera, pelo est&#237;mulo da aplica&#231;&#227;o no dia-a-dia, evid&#234;ncias para auto-diretrizes - um neologismo para que entremos no clima vigente de dado cient&#237;fico &amp; evid&#234;ncia, no ecossistema da Cardiologia -, antecipa&#231;&#245;es de ainda inexistentes diretrizes ou mesmo de pr&#243;xima atualiza&#231;&#227;o de pr&#233;-existentes.</p>
    <p>O senso cr&#237;tico do cardiologista sobre as bases da literatura geradoras de uma diretriz mostra-se tanto mais agu&#231;ado quanto mais ele tem intimidade com o assunto - que num grau superior pode ser a habilita&#231;&#227;o para compor um comit&#234;. Nas palavras de Rosoff da Duke University <sup>51</sup>: "... <italic>o conhecimento traz limita&#231;&#245;es, ou, pelo menos, as bases para as limita&#231;&#245;es a serem impostas..."</italic> O que pode ser complementado pela frase de Isaac Asimov (1920-1992): " <italic>se o conhecimento pode gerar problema, n&#227;o &#233; a ignor&#226;ncia que ir&#225; solucion&#225;-lo</italic>...".</p>
    <p>Se a diretriz cient&#237;fica representa o mapa das evid&#234;ncias sobre o caminho das pedras, virtualidade de precis&#227;o, &#233; a habitualidade que determina o "pulo do gato" adaptativo &#224;s realidades de cada pedra do percurso. Percebe-se que as entrelinhas das diretrizes mais recentes j&#225; embutem tra&#231;os desta met&#225;fora felina- <italic>"...h&#225; circunst&#226;ncias em que desvios destas diretrizes s&#227;o apropriados.."</italic> <sup>6</sup>.</p>
    <p>Harmonizar o <italic>in vitro</italic> ao <italic>in vivo</italic> subtende conscientizar-se por todos os neur&#244;nios que <italic>"...os pacientes s&#227;o diferentes entre si, as doen&#231;as comportam-se diferentemente e que, raramente, os casos preenchem todos os crit&#233;rios..."</italic> <sup>55</sup>. Porque <italic>"... a beira do leito ajusta retalhos multiformes de cap&#237;tulos de livro... acasos do livro da beira do leito..."</italic> <sup>56</sup>, id&#233;ias para hip&#243;teses de pesquisas s&#227;o infinitas; sempre haver&#225; uma situa&#231;&#227;o variante a ser estudada: "...<italic>h&#225; necessidade de pesquisas no campo da reopera&#231;&#227;o valvular... elas permitir&#227;o novas diretrizes, mais organizadas que necessitar&#227;o ser implementadas e verificadas por novas aprecia&#231;&#245;es a fim de aperfei&#231;oar o cuidado com o paciente..."</italic> <sup>57</sup>.</p>
    <p>O corol&#225;rio, a pertin&#234;ncia da famosa compara&#231;&#227;o de diretriz com "receita de bolo", diretamente proporcional &#224; falta de familiaridade com a pr&#225;tica, &#233; refor&#231;ada por uma vis&#227;o sob um &#226;ngulo a 180&#176; da mesma: <italic>" ... os adeptos da Pr&#225;tica Baseada em Evid&#234;ncia t&#234;m um longo caminho a percorrer antes de confiarem nas evid&#234;ncia das pesquisas publicadas em revistas qualificadas..."</italic> <sup>58</sup><italic>.</italic></p>
    <p>Em outras palavras, a efici&#234;ncia de uma diretriz est&#225; calcada na autenticidade de contribui&#231;&#227;o da sua primeira parte, a base de documenta&#231;&#227;o, o valor do produto interno bruto no ecossistema da Cardiologia; os resultados s&#227;o influenciados por um planejamento com livre-arb&#237;trio, enquanto nos limites da &#233;tica (a verdade do bom e do mau), esclarecido, enquanto convencimento para si e para o paciente (a verdade revelada), renov&#225;vel e revog&#225;vel, enquanto habilidade para reagir "em espelho"(a verdade do mundo real). Livre &amp; esclarecido &amp; renov&#225;vel &amp; revog&#225;vel resume, pois, o compromisso biopsicossocial que o nosso carimbo com o n&#250;mero do CRM simboliza.</p>
    <p>Considerando que uma verdade tem sempre duas metades, mas &#233; muitas vezes complexo conhecer as duas juntas, mencione-se que, nem sempre, fica-se sabendo da pretens&#227;o de evid&#234;ncia que n&#227;o deu certo. Estima-se que <italic>"... autores com conflitos de interesse associem-se a probabilidade 10-20 vezes menor de apresenta&#231;&#227;o de resultados negativos em rela&#231;&#227;o aos autores sem associa&#231;&#227;o a patroc&#237;nios de alguma companhia..."</italic> <sup>59</sup><italic>.</italic> Sup&#245;e-se, ent&#227;o, que dados sem chance de ser <italic>a melhor evid&#234;ncia</italic> n&#227;o s&#227;o "contribui&#231;&#227;o" e tendem a virar fic&#231;&#227;o cient&#237;fica; como tal, s&#227;o direcionados por jeitosos discos voadores para a <italic>face oculta da lua</italic>.</p>
    <p>Em prol da transpar&#234;ncia do desempenho de "<italic>projetos de pesquisa que prospectivamente designem pessoas para interven&#231;&#227;o e/ ou grupos para comparar rela&#231;&#245;es de causa e efeito entre interven&#231;&#227;o m&#233;dica e resultado sobre a sa&#250;de"</italic>, e sob o lema altru&#237;smo e confian&#231;a, os editores do JAMA, New England Journal of Medicine, The Lancet e outros membros do <italic>International Committee of Medical Journal Editors</italic> criaram um sistema de registro p&#250;blico a ser efetivado quando da recrutamento dos volunt&#225;rios a partir de 1 de julho de 2005, e a ser utilizado como condi&#231;&#227;o para a subseq&#252;ente publica&#231;&#227;o <sup>60</sup>. Pretende-se, pois, que uma resposta positiva a <italic>"Is this clinical trial fully registered?"</italic> <sup>61</sup> torne-se um pr&#233;-requisito para a publica&#231;&#227;o do artigo original.</p>
    <p>Conflitos de interesse s&#227;o uma das etiologias da s&#237;ndrome "n&#227;o sabemos o que n&#227;o sabemos, mas dever&#237;amos ter sido informados". Tais vieses de publica&#231;&#227;o estreitam o caminho da an&#225;lise cr&#237;tica do contradit&#243;rio e faz ".<italic>.. expor aos cl&#237;nicos uma falsa sugest&#227;o de superioridade de novas interven&#231;&#245;es..."</italic> <sup>62</sup>. Nada livre, nem esclarecido, al&#233;m de n&#227;o renovado, porque revogado na origem.</p>
    <p>Vem a pergunta pragm&#225;tica: qual &#233; o valor de se conhecer o que n&#227;o seria mesmo &#250;til? Cabe a resposta acad&#234;mica: a revela&#231;&#227;o fundamentaria uma aprecia&#231;&#227;o cr&#237;tica sobre eventual conclus&#227;o favor&#225;vel de outro estudo- evitar a falsa superioridade acima mencionada. Esse tipo de sigilo n&#227;o parece nada hipocr&#225;tico e guarda analogia com uma reprov&#225;vel oculta&#231;&#227;o de limita&#231;&#245;es do estudo em muitos artigos originais e/ou uma contida e tendenciosa contextualiza&#231;&#227;o da discuss&#227;o em publica&#231;&#245;es.</p>
    <p>SEGUNDA PARTE DE DIRETRIZ - A segunda parte da diretriz, a executiva, cont&#233;m a recomenda&#231;&#227;o estruturada, pragm&#225;tica e utilitarista "... <italic>que melhora a efici&#234;ncia dos cuidados, otimiza a evolu&#231;&#227;o cl&#237;nica e favorece a rela&#231;&#227;o custo-benef&#237;cio..."</italic> <sup>6</sup>; ademais paternalista: <italic>"...equ&#237;vocos e incoer&#234;ncias presentes na publica&#231;&#227;o original foram identificadas e corrigidas na medida do poss&#237;vel..."</italic> <sup>6</sup>. Por um lado, esta interfer&#234;ncia sobre o original poderia estar relacionada &#224; acima comentada quantidade de erros estat&#237;sticos de artigos em revistas conceituadas, mas por outro, suscita uma aprecia&#231;&#227;o moral sobre legitimidade e crit&#233;rios para praticar corre&#231;&#245;es.</p>
    <p>Coment&#225;rios &#224; parte, a segunda parte funciona como uma especifica&#231;&#227;o, algo na linha de "<italic>...especifica&#231;&#227;o &#233; um processo de redu&#231;&#227;o da indetermina&#231;&#227;o de normas gerais para elevar a capacidade de orienta&#231;&#227;o, enquanto preservando o compromisso moral das normas originais...."</italic> <sup>63</sup>. Ap&#243;s um julgamento abrangente da literatura em busca de um equil&#237;brio de "melhores evid&#234;ncias", em prol do bem-feito gerador da confian&#231;a, os quadros de recomenda&#231;&#245;es "especificam" fazendo redu&#231;&#227;o das indetermina&#231;&#245;es sobre o que, quando, onde, por quem, para quem fazer ou evitar.</p>
    <p>Convencionou-se classificar a segunda parte em porte do efeito pretendido (classes I, II e III de risco-benef&#237;cio) e precis&#227;o da presun&#231;&#227;o (n&#237;veis A, B e C de fundamenta&#231;&#227;o cient&#237;fica). A sigla IA designa a tropa de elite, utilidade na decis&#227;o e efic&#225;cia na arma reconhecidas, defensora da soberania da ci&#234;ncia e da dignidade da rela&#231;&#227;o m&#233;dico-paciente.</p>
    <p>As decodifica&#231;&#245;es abrangem, em grau decrescente de aconselhamento: DEVERIA SER APLICADA (benef&#237;cio bem maior do que risco), &#201; RAZO&#193;VEL PARA APLICA&#199;&#195;O (benef&#237;cio maior do que risco, mas h&#225; necessidade de esclarecimentos adicionais sobre pontos espec&#237;ficos), PODERIA SER CONSIDERADA (benef&#237;cio igual ou maior do que risco, mas h&#225; necessidade de esclarecimentos adicionais mais abrangentes) e N&#195;O RECOMENDADA (risco igual ou maior do que o benef&#237;cio).</p>
    <p>As indica&#231;&#245;es e condutas costumam ser estruturadas com todas as classes, pois, " o que se publica se rubrica" &#233; uma express&#227;o minorit&#225;ria. A classifica&#231;&#227;o funciona como um sem&#225;foro &#233;tico-cient&#237;fico: a luz verde (Classe I) &#150; cor que &#233; simbolicamente alvissareira num ecossistema- d&#225; a prefer&#234;ncia; a amarela (Classe II) d&#225; a op&#231;&#227;o de ainda avan&#231;ar ou j&#225; se deter; a vermelha (classe III) faz frear em respeito ao momento. Ali&#225;s, os adeptos entendem que &#233; um triplo vermelho, o do tr&#225;fego mencionado, o do cart&#227;o que expulsa como op&#231;&#227;o t&#225;tica e o do semblante envergonhado ap&#243;s um m&#225;-aplica&#231;&#227;o, quando n&#227;o &#233; um qu&#225;druplo, pelo negativo banc&#225;rio da perda de clientela e/ou dos honor&#225;rios advocat&#237;cios. O daltonismo cl&#237;nico parece reduzido no ecossistema da Cardiologia brasileira; as insatisfa&#231;&#245;es com o desempenho do cardiologista que chegam aos conselhos de Medicina referem-se a fatores n&#227;o-cl&#237;nicos, na maioria: car&#234;ncia de vagas hospitalares, demora no atendimento ligada ao sistema de sa&#250;de, falta de infra-estrutura; erro de diagn&#243;stico e omiss&#227;o de socorro s&#227;o os mais diretamente ligados &#224; atitude do m&#233;dico.</p>
    <p>Como curiosidade, as recomenda&#231;&#245;es de profilaxia da endocardite infecciosa e da atividade reum&#225;tica n&#227;o cont&#233;m a classe II; na aus&#234;ncia do amarelo, tudo se passa como se houvesse desnecessidade de esclarecimentos adicionais, ou &#233; &#250;til ou &#233; in&#250;til, ou &#233; eficaz ou &#233; ineficaz. Fatores de natureza &#233;tica devem ser considerados nesta quest&#227;o, pesquisas com placebo, por exemplo.</p>
    <p>&#201; oportuno destacar que a express&#227;o DEVERIA SER APLICADA - pelo m&#233;dico - est&#225; longe de significar &#201; O EXIGIDO - para o m&#233;dico ou pelo paciente; assim, n&#227;o se justifica efetuar decodifica&#231;&#245;es &#233;tico-legais do risco-benef&#237;cio da recomenda&#231;&#227;o como &#250;nica maneira de prover ben&#233;fico, muito menos como isenta de risco.</p>
    <p>Esta segunda parte das diretrizes pode ser entendida como paternalismo da sociedade de especialidade-obedi&#234;ncia estrita do m&#233;dico. Mas, &#233; essencial diferenciar um passivo aquiescer ao uso de um ativo consentir no uso, eles n&#227;o t&#234;m o mesmo grau de liberdade. Parece-nos mais adequado ao ser m&#233;dico, que a segunda parte seja apreciada com menor impress&#227;o de burocracia, impessoalidade e censura ao contradit&#243;rio; o caminho &#233; uma postura de autonomia do m&#233;dico, o livre-arb&#237;trio para decidir se d&#225; ou n&#227;o o seu consentimento p&#243;s-recomenda&#231;&#227;o, com a responsabilidade de justificar contraposi&#231;&#245;es; a insist&#234;ncia cabe pelo respeito &#224; responsabilidade com liberdade no exerc&#237;cio de nossa profiss&#227;o: decis&#227;o livre e esclarecida, pois, de fato, comprometida com os pr&#243;prios valores, e, ainda, renov&#225;vel e revog&#225;vel, pois, de fato, envolvida com a imprevisibilidade da sucess&#227;o de circunst&#226;ncias.</p>
    <p>Pela hist&#243;ria natural do ser m&#233;dico, desejamos estar bem informados, compreender o conflituoso como suporte para propor escolhas, ter prefer&#234;ncias sem macular a &#233;tica, possuir ju&#237;zo cl&#237;nico para usar ou n&#227;o usar uma determinada informa&#231;&#227;o cient&#237;fica, tanto melhor, quando a interpretamos com an&#225;logo sentido de evid&#234;ncia em rela&#231;&#227;o ao comit&#234; da diretriz. Neste ponto, a quest&#227;o epistemol&#243;gica (epistemologia-ramo da filosofia que aprecia a natureza do conhecimento) "como sabemos o que sabemos?" &#233; crucial para a satisfa&#231;&#227;o da tr&#237;ade honestidade &amp; sigilo &amp; efic&#225;cia de qualifica&#231;&#227;o da beira do leito; que o contexto de diretriz n&#227;o &#233; uma certeza est&#225; ressalvado no condicional das express&#245;es das classes de recomenda&#231;&#227;o; como exemplo, deveria ser aplicada embute um sim ou um n&#227;o &#224; recomenda&#231;&#227;o, ap&#243;s uma a&#231;&#227;o de se medir se cabe no paciente-alvo; mas o quanto sabemos do tema baseado na leitura de uma diretriz, o quanto estamos seguros da fidedignidade das suas nuances, o quanto nossos pressupostos influenciam na aceita&#231;&#227;o, mais ou menos conscientemente, e como far&#237;amos para obter uma confirma&#231;&#227;o em outras fontes, est&#227;o sujeitos a aprecia&#231;&#245;es conflitantes; e no caso de informa&#231;&#227;o conflitante, qual seria o melhor caminho? Vide abaixo o referido para o artigo de Tarasoutchi e cols. <sup>64</sup>, uma experi&#234;ncia pessoal que permitiu uma "visita" - n&#227;o guiada - a um comit&#234;. O fator tempo, mais uma vez ele, afigura-se crucial, raz&#227;o porque o proveito do ajuste da conduta a uma diretriz &#233; proporcional ao tempo que se despende debru&#231;ado no tema, de prefer&#234;ncia junto ao paciente na beira do leito. As 87.600 horas preparat&#243;rias dos 6 anos de gradua&#231;&#227;o e dos 4 de resid&#234;ncia m&#233;dica, em tempo "integral" de aprendizado, precisam manter uma analogia de propor&#231;&#227;o no "after-day".</p>
    <p>Para o progn&#243;stico do ser m&#233;dico, significa muito o quanto diretrizes dualizam um obrigado: <italic>o obrigado por</italic>, que vem do agradecimento por disponibilizar s&#237;nteses qualificadas, gratid&#227;o do encontro - e esperan&#231;a de continuidade -, e que soa profissionalmente mais euf&#244;nico; e <italic>o obrigado a</italic>, que emana da imposi&#231;&#227;o, uma mensagem, ent&#227;o, inaceit&#225;vel, que, ali&#225;s, pode estar mais na interpreta&#231;&#227;o do leitor do que na inten&#231;&#227;o do comit&#234;. H&#225; outra dualidade de obrigado derivada da primeira: a do paciente agradecido porque nos obrigamos a fazer ou n&#227;o-fazer, de acordo com a sua prefer&#234;ncia, muitas vezes ilus&#245;es, mas "protegidas" pelo direito &#224; autonomia-raz&#227;o do cliente -, ou seja o desejo do paciente falando mais alto do que a raz&#227;o da Medicina, salvo em iminente risco &#224; vida.</p>
    <p>
      <bold>XIII - Usos e costumes</bold>
    </p>
    <p>As diretrizes consolidaram-se estruturadas por for&#231;as-tarefa em consenso; suas estrat&#233;gias mudaram usos e costumes: c&#243;digos de conduta, algoritmos facilitadores e padroniza&#231;&#245;es vingaram com o lema "a melhor evid&#234;ncia"-caso n&#227;o houvesse, poder-se-ia emprestar o lema dos escoteiros "sempre alerta", o do Rotary Internacional "mostremos o caminho" ou o do Brasil "ordem e progresso"; mas, "cong&#234;nitas" tend&#234;ncias a manique&#237;smo fizeram-nas alvos de ambival&#234;ncias: ora as diretrizes s&#227;o presen&#231;a, por estar em converg&#234;ncia com o nosso padr&#227;o de conduta, ora, s&#227;o aus&#234;ncia, por as entendermos em diverg&#234;ncia com a vis&#227;o de otimiza&#231;&#227;o de determinado ambiente. &#201; como se a beira do leito fosse "... <italic>freq&#252;entada por heter&#244;nimos, cada qual surgindo como uma rea&#231;&#227;o do ort&#244;nimo &#224;s converg&#234;ncias e &#224;s diverg&#234;ncias..."</italic> <sup>56</sup> .</p>
    <p>No ecossistema da Cardiologia, dentre suas pol&#234;micas interfaces com os cardiologistas destacam-se:</p>
    <p><bold>1.</bold> No ritmo da condu&#231;&#227;o dos casos, uns entendem que ader&#234;ncia &#224; diretriz propaga-se como um seguro da "medicina defensiva"; outros receiam que a n&#227;o-utiliza&#231;&#227;o possa determinar reentrada em vias de acusa&#231;&#227;o de m&#225;-pr&#225;tica. Observa-se que quanto mais estreitada torna-se a polariza&#231;&#227;o m&#233;dico-paciente, mais se fica &#224; vontade para fluir o atendimento segundo prefer&#234;ncias do paciente, mesmo que signifique desvio de diretriz. Especialmente, porque a boa comunica&#231;&#227;o facilita a postura do m&#233;dico como navegador e a do paciente como piloto no processo de decis&#227;o <sup>65,66</sup>.</p>
    <p>Porque &#233; essencial acatar os Princ&#237;pios Fundamentais do nosso C&#243;digo de &#201;tica M&#233;dica, cada um deve ter o seu entendimento sobre o quanto express&#245;es como zelo, dignidade, aprimoramento, respeito, liberdade profissional est&#227;o afinadas com as atuais conven&#231;&#245;es da especialidade. Algumas perguntas provocam reflex&#245;es e as respostas parecem n&#227;o se enquadrar num gabarito predefinido. O seguinte di&#225;logo foi anotado durante uma reuni&#227;o cient&#237;fica:</p>
    <p>
      <italic>"- porque devo seguir ao p&#233; da letra o que recomenda a American Heart Association, se o meu paciente n&#227;o fala ingl&#234;s?"</italic>
    </p>
    <p>
      <italic>"- porque ela tem credibilidade e suas diretrizes preenchem os crit&#233;rios de excel&#234;ncia, al&#233;m de o ingl&#234;s ser a l&#237;ngua oficial da ci&#234;ncia"</italic>
    </p>
    <p>
      <italic>"- e como ficam as boas experi&#234;ncias dos Servi&#231;os de Cardiologia brasileiros e as posi&#231;&#245;es dos Departamentos da Sociedade Brasileira de Cardiologia?; al&#233;m disso, n&#227;o &#233; verdade que o que &#233; bom para uma popula&#231;&#227;o pode n&#227;o ser para outra?"</italic>
    </p>
    <p>
      <italic>" &#150; este &#250;ltimo aspecto est&#225; previsto na apresenta&#231;&#227;o de diretrizes, mas voc&#234; tem raz&#227;o, a discuss&#227;o sobre diretrizes precisa ser estimulada entre os cardiologistas".</italic>
    </p>
    <p>Diretriz n&#227;o &#233; uma vacina antiimper&#237;cia porque n&#227;o se pode desprezar a hipocr&#225;tica curva de aprendizado ou a aristot&#233;lica constru&#231;&#227;o da virtude: <italic>"...as coisas que &#233; preciso ter aprendido para faz&#234;-las, &#233; fazendo que aprendemos..."</italic> (Arist&#243;teles, 384ac-322ac). Um mau resultado n&#227;o est&#225; isento de advir de assinergias em alguma etapa da execu&#231;&#227;o de uma diretriz <italic>"... a mortalidade cir&#250;rgica pode ser maior ....especialmente nas m&#227;os de cirurgi&#245;es n&#227;o experientes...um fator a ter em mente quando se faz recomenda&#231;&#245;es gen&#233;ricas..."</italic> <sup>37</sup>; uma garantia de sincronismo operacional por distribui&#231;&#227;o envolvente, a mais "hissiana" poss&#237;vel, de diretriz, pode ver-se diante de bloqueios determinados "...<italic>por uma rela&#231;&#227;o inversa entre volume de procedimento e mortalidade de um Servi&#231;o, bem como por restri&#231;&#245;es em disponibilidade de pessoal especializado..."</italic> <sup>16</sup>. Em cl&#237;nica de valvopatia, <italic>"...dentre 684 hospitais analisados a mortalidade hospitalar associada a implante de pr&#243;tese a&#243;rtica variou de 6.0% em hospitais com alto volume cir&#250;rgico a 13% nos com baixo volume cir&#250;rgico..."</italic> <sup>67</sup>.</p>
    <p>Por outro lado, a inobserv&#226;ncia de uma diretriz n&#227;o &#233;, isoladamente, ind&#237;cio de fibrila&#231;&#227;o da boa pr&#225;tica. O marca-passo da conduta necessita ser o mais natural e autonomicamente ajust&#225;vel.</p>
    <p>Os aspectos ligados &#224; neglig&#234;ncia com a aplica&#231;&#227;o da diretriz s&#227;o os mais comentados. H&#225;, tamb&#233;m, a imprud&#234;ncia da utiliza&#231;&#227;o da diretriz, ou porque se desapercebe de uma circunstancial contra-indica&#231;&#227;o, ou porque um extra-sist&#243;lico ju&#237;zo cl&#237;nico conduziu mal a indica&#231;&#227;o.</p>
    <p><bold>2.</bold> Cardiologistas podem contribuir, por meio da aplica&#231;&#227;o de diretrizes, para a redu&#231;&#227;o de custos sem preju&#237;zo dos benef&#237;cios; &#233; o caso da recomenda&#231;&#227;o classe I, n&#237;vel B sobre freq&#252;&#234;ncia de repeti&#231;&#227;o da ecocardiografia tor&#225;cica para estenose a&#243;rtica; est&#225; indicada de modo inversamente proporcional &#224; gravidade da les&#227;o -at&#233; 5 anos para a discreta.</p>
    <p>Mas, por outro lado, a sujei&#231;&#227;o &#224; recomenda&#231;&#227;o que n&#227;o faria, espontaneamente, num determinado caso-alvo pode associar-se a efeito oposto; &#233; o caso da repeti&#231;&#227;o semestral da ecocardiografia tor&#225;cica para insufici&#234;ncia a&#243;rtica cr&#244;nica com di&#226;metros "em aproxima&#231;&#227;o dos cr&#237;ticos determinantes de indica&#231;&#227;o cir&#250;rgica", quando j&#225; se tenha decidido que este crit&#233;rio n&#227;o ser&#225; aplicado.</p>
    <p><bold>3.</bold> Cardiologistas podem aplicar diretrizes "de olho fechado", por estrita confian&#231;a na editoria e por aceitarem que elas s&#227;o uma conven&#231;&#227;o moderna do exerc&#237;cio profissional, uma esp&#233;cie de vigil&#226;ncia e disciplina; mas, quanto mais l&#234;-las com "os olhos abertos" pela experi&#234;ncia &#150; exoftalmia mesmo-, mais ajustes e contraposi&#231;&#245;es far&#227;o quando da aplica&#231;&#227;o. Ademais, miopias podem ser observadas no caminho do produtor ao consumidor, ligadas ao intermedi&#225;rio, representado pelos membros dos comit&#234;s de elabora&#231;&#227;o de diretrizes.</p>
    <p>Participamos da elabora&#231;&#227;o de um artigo sobre uma fase avan&#231;ada da hist&#243;ria natural de portadores de insufici&#234;ncia a&#243;rtica, conduzido no InCor (tese de doc&#234;ncia de Tarasoutchi <sup>68</sup>, citado por 6 vezes no <italic>ACC/AHA 2006 Guidelines for the Management of Patients with Valvular Heart Disease</italic> <sup>6</sup>; nesta diretriz, h&#225; incorre&#231;&#245;es, n&#227;o somente de transcri&#231;&#227;o de dados (n&#250;mero de casos e de &#243;bitos) na constru&#231;&#227;o da tabela 15, como tamb&#233;m de an&#225;lise dos resultados, inclusive com algumas diverg&#234;ncias da interpreta&#231;&#227;o do editorial que acompanhou a publica&#231;&#227;o do artigo original, escrito por um dos componentes do comit&#234; da rec&#233;m-publicada diretriz. Portanto, cabe refletir sobre em que grau, eventuais infidelidades aos dados originais de uma experi&#234;ncia de 10 anos, podem macular uma irrestrita confian&#231;a numa diretriz, como express&#227;o da "melhor evid&#234;ncia". Na elabora&#231;&#227;o de diretrizes, a fundamenta&#231;&#227;o, desde a produ&#231;&#227;o at&#233; o consumo, necessita ser vista e revista, a proposta de conduta prevista e a evolu&#231;&#227;o bem-vista, mas, fica claro que h&#225; a influ&#234;ncia da retina em que se d&#225; o impacto. Refor&#231;a-se o conceito de Gupta <sup>24</sup>: <italic>"...evid&#234;ncia n&#227;o &#233; sin&#244;nimo de dados/achados de pesquisa;somente quando algu&#233;m emite aprecia&#231;&#227;o &#233; que eles se tornam potenciais evid&#234;ncias...".</italic> A avalia&#231;&#227;o, por mais qualificada que seja, n&#227;o pressup&#245;e unanimidade.</p>
    <p>A classe oficial de uma recomenda&#231;&#227;o pode ser distinta da adotada em tantos ambientes heterog&#234;neos e a oficiosa tende a se apequenar. Mas, deve haver liberdade para o cardiologista, que corretamente vai &#224; fonte, considerar "melhor evid&#234;ncia" ou "evid&#234;ncia melhor" pelo seu ju&#237;zo e as diretrizes n&#227;o devem ter o poder absoluto de retirar a etiqueta. Insistimos, considerar a sua base de fundamenta&#231;&#227;o n&#227;o &#233; a mesma coisa que usar diretriz.</p>
    <p>Na diretriz acima mencionada, a identifica&#231;&#227;o de di&#226;metros sist&#243;lico e/ou diast&#243;lico com valores acima de uma linha de corte ecocardiogr&#225;fico &#233; referida como classe IIa de indica&#231;&#227;o de tratamento cir&#250;rgico da insufici&#234;ncia a&#243;rtica cr&#244;nica, em aus&#234;ncia de sintomas; ou seja para "...<italic>pacientes assintom&#225;ticos com insufici&#234;ncia a&#243;rtica grave e fun&#231;&#227;o sist&#243;lica normal &#150; fra&#231;&#227;o de eje&#231;&#227;o&gt;0,50 - apresentando dilata&#231;&#227;o ventricular esquerda grave-di&#226;metro diast&#243;lico final<underline>&gt;</underline>75mm, e di&#226;metro sist&#243;lico final <underline>&gt;</underline> 55 mm..."</italic> prev&#234;-se benef&#237;cio maior do que risco, mas com necessidade de esclarecimentos sobre pontos espec&#237;ficos; entretanto, o referido artigo<sup>68</sup>, produzido no ecossistema da Cardiologia brasileira com cerca de 80% dos pacientes estudados tendo etiopatogenia reum&#225;tica- a nossa realidade -, qualificado e selecionado pelo comit&#234; como base de dados/evid&#234;ncias, evidenciou que 26% dos pacientes com di&#226;metros cr&#237;ticos n&#227;o desenvolveram nem sintomas, nem disfun&#231;&#227;o ventricular esquerda, nem foram a &#243;bito; e, ainda, que cerca de 90% dos pacientes com di&#226;metro sist&#243;lico ventricular esquerdo <underline>&gt;</underline> 55 mm e/ou di&#226;metro diast&#243;lico ventricular esquerdo <underline>&gt;</underline> 75mm exibiram expressiva remodela&#231;&#227;o inversa p&#243;s-operat&#243;ria; em suma, os nossos resultados apontaram que as linhas de corte valorizadas pela diretriz n&#227;o subsidiariam &#233; razo&#225;vel a aplica&#231;&#227;o; apesar de constitu&#237;rem forte documenta&#231;&#227;o que tais di&#226;metros n&#227;o fazem diferen&#231;a pr&#225;tica no paciente assintom&#225;tico, eles n&#227;o adquiriram status de evid&#234;ncia esclarecedora e assim n&#227;o provocaram modifica&#231;&#227;o da diretriz de 1998, quanto ao uso de medidas de di&#226;metros ventriculares esquerdos na conduta para insufici&#234;ncia a&#243;rtica cr&#244;nica. Prevaleceram os dados publicados, em 1991, pelo pr&#243;prio Bonow <sup>69</sup>, o l&#237;der do comit&#234;: <italic>"...os poucos pacientes, em que a fun&#231;&#227;o sist&#243;lica &#233; mantida normal, a despeito de grande dilata&#231;&#227;o ventricular esquerda est&#227;o sob risco de eventos (chance de 19% ao ano de morte, sintomas ou disfun&#231;&#227;o ventricular esquerda), pela incapacidade de compensar ainda mais, pelas dilata&#231;&#245;es adicionais...</italic>". Note-se que <italic>risco de eventos pela incapacidade de compensar ainda mais</italic>, que &#233; uma opini&#227;o emitida h&#225; 15 anos<italic>,</italic> falou mais alto do que os dados rec&#233;m-obtidos em pesquisa. Ap&#243;s as indica&#231;&#245;es, o Oscar vai para...</p>
    <p>O trecho a seguir, acerca do acima exposto, permite alguma incurs&#227;o nos "bastidores" da elabora&#231;&#227;o da diretriz; "... <italic>pacientes tratados de modo conservador com di&#226;metro diast&#243;lico final&gt;70 mm, outrossim, manifestaram uma evolu&#231;&#227;o cl&#237;nica favor&#225;vel (ref276-a do nosso trabalho)...estes dados n&#227;o sustentam fortemente o uso de crescimentos extremos do ventr&#237;culo esquerdo como indica&#231;&#227;o para troca da valva a&#243;rtica, a n&#227;o ser que haja sintomas ou disfun&#231;&#227;o sist&#243;lica (ref 337, o coment&#225;rio editorial que acompanhou a publica&#231;&#227;o do artigo no JACC)...todavia, o comit&#234; recomenda opera&#231;&#227;o antes que o ventr&#237;culo esquerdo alcance um grau de dilata&#231;&#227;o extrema e recomenda troca da valva a&#243;rtica para pacientes com di&#226;metro diast&#243;lico final&gt;75 mm... "</italic><sup>6</sup>. Concordamos com Tan<sup>20</sup>: <italic>"... recomenda&#231;&#245;es equivocadas em diretrizes podem tamb&#233;m resultar de vieses de opini&#227;o, experi&#234;ncia cl&#237;nica inadequada e distor&#231;&#245;es na composi&#231;&#227;o do comit&#234;..."</italic> De qualquer forma, a informa&#231;&#227;o foi coletivizada (primeira parte da diretriz) e o valor da mesma como sugerido pelo comit&#234; pode ser reconstru&#237;do em cada Servi&#231;o. Refor&#231;a-se que o h&#225;bito de consultar diretrizes pode ser uma arma de dois gumes, pois as "verdades de plant&#227;o", se por um lado t&#234;m a utilidade que se precisa para desempenharmos nossas miss&#245;es, por outro, n&#227;o t&#234;m o dom de se apresentarem como evid&#234;ncias est&#225;ticas no mundo real da beira do leito. Especificamente, em rela&#231;&#227;o a medidas ecocardiogr&#225;ficas, parece ser mais &#250;til raciocinar em termos de tend&#234;ncia num continuum de observa&#231;&#227;o da hist&#243;ria natural, do que pontos de corte arbitr&#225;rios, 70 ou 75 mm, 50 ou 55 mm, considerando que n&#227;o se conhece um limiar exato abaixo do qual n&#227;o haveria porque se preocupar com a manifesta&#231;&#227;o de sintomas na evolu&#231;&#227;o natural. Acresce que, por mais que se almeje, o desejo de exatid&#227;o do m&#233;todo ecocardiogr&#225;fico &#233; insatisfaz&#237;vel.</p>
    <p>N&#243;s pr&#243;prios n&#227;o devemos desqualificar a mat&#233;ria-prima de nossos produtos de exporta&#231;&#227;o em rela&#231;&#227;o &#224; de importados. N&#227;o nos sentimos obrigados a mudar o protocolo institucional multiplamente aprovado, assistencial, acad&#234;mica e editorialmente, s&#243; porque ela foi exposta na diretriz como condi&#231;&#227;o com conflitos de evid&#234;ncias (classe II) e n&#237;vel de evid&#234;ncia B (aus&#234;ncia de m&#250;ltiplas randomiza&#231;&#245;es). Entendemos que possu&#237;mos evid&#234;ncia para a dissens&#227;o e continuamos a aguardar os sintomas nos portadores de insufici&#234;ncia a&#243;rtica cr&#244;nica com di&#226;metros ventriculares esquerdos elevados. Na nossa verdade (dogmatismo) e no valor das sucessivas previs&#245;es comprovadas (profetismo) est&#227;o o refor&#231;o &#224; fidelidade &#224; uma concep&#231;&#227;o de estrat&#233;gia que foi, um dia, considerada plaus&#237;vel (utopia). As implica&#231;&#245;es pr&#225;ticas ficam evidentes (sem trocadilho): quem n&#227;o vivencia casos de insufici&#234;ncia a&#243;rtica cr&#244;nica sentir-se-&#225; negligente se n&#227;o se mantiver "algemado" aos di&#226;metros elevados.</p>
    <p><bold>4.</bold> Cardiologistas mais jovens podem se impressionar negativamente com heterogeneidades de conduta no estilo "escova de dente": cada um tem a sua e a usa ao seu modo; &#233; prudente, todavia, atentar que os esfor&#231;os de racionaliza&#231;&#227;o para eliminar o desnecess&#225;rio ou corrigir o equivocado, por meio de diretrizes, correm o risco de servirem a interesses comerciais <sup>70</sup>, especialmente, considerando que <italic>"... ci&#234;ncia em geral e ci&#234;ncia m&#233;dica em particular, nunca s&#227;o um produto acabado..."</italic> <sup>17</sup>. Recentemente, medidas foram tomadas para uma mudan&#231;a urgente da cultura do FDA em prol de uma maior intera&#231;&#227;o entre a revis&#227;o pr&#233;- entrada do mercado e a seguran&#231;a ap&#243;s a comercializa&#231;&#227;o do f&#225;rmaco, pelo per&#237;odo de tempo que esta ocorrer<sup>71</sup>.</p>
    <p><bold>5.</bold> Cardiologistas podem se valer do direito &#224; autonomia para aplicar diretrizes conforme a flexibilidade indicada por uma vis&#227;o biopsicossocial; o r&#237;gido privil&#233;gio do <italic>bio</italic> das diretrizes pode propiciar a conduta tornar-se &#243;rf&#227; do <italic>psico e/ou social</italic>. Sob o aspecto antropol&#243;gico, realidades regionais dos distintos brasis motivam diversidades anti-imprud&#234;ncia de aplica&#231;&#227;o das diretrizes; &#233; o caso de anticoagula&#231;&#227;o oral e controle laboratorial, de certas medidas de preven&#231;&#227;o prim&#225;ria e da interven&#231;&#227;o por cateter-bal&#227;o em portador de estenose mitral. A valvoplastia por cateter-bal&#227;o &#233; recomenda&#231;&#227;o classe I, n&#237;vel A<sup>6</sup> &#150; a &#250;nica, ali&#225;s em valvopatia -, mas n&#227;o acontece disseminada no nosso ecossistema da Cardiologia, como se poderia pretender num pa&#237;s continental que convive com a etiopatogenia reum&#225;tica.</p>
    <p><bold>6.</bold> Cardiologistas podem diferir quanto ao ego no sentido de se obrigar ou se desobrigar a consultar um "livro de receitas de bolo", porque sabem como "por a m&#227;o na massa". Williams e cols.<sup>72</sup> revelam que somente 167 (22%) de 774 dos hospitais analisados aplicavam recomenda&#231;&#245;es de diretrizes para infarto do mioc&#225;rdio e insufici&#234;ncia card&#237;aca, em mais de 90% do tempo.</p>
    <p>A literatura que fundamenta diretrizes, no ecossistema da Cardiologia, &#233; razoavelmente access&#237;vel; mas n&#227;o h&#225; uma exata superposi&#231;&#227;o entre as refer&#234;ncias utilizadas por diretrizes americanas e europ&#233;ias; apesar das semelhan&#231;as b&#225;sicas, diferen&#231;as de recomenda&#231;&#227;o existem; portanto, os comit&#234;s, quando interpretam as bases -transformando dados em evid&#234;ncias- e opinam sobre a aplica&#231;&#227;o, embutem filtros; entre eles, h&#225; os interpostos pelos acertos e erros vivenciados por seus pr&#243;prios membros e com poros determinados em conson&#226;ncia com peculiaridades regionais; &#233; &#250;til considerar que a globaliza&#231;&#227;o fica sujeita a refiltragens locais. Neste aspecto, a pertin&#234;ncia da coprodu&#231;&#227;o internacional de diretrizes, j&#225; considerada de modo modesto anteriormente, ficou refor&#231;ada como tend&#234;ncia com a publica&#231;&#227;o do <italic>2006 Guidelines for Management of Patients with Ventricular Arrhythmias and the Prevention of Sudden Cardiac Death,</italic> uma coprodu&#231;&#227;o da <italic>American College of Cardiology, American Heart Association Task Force e European Society of Cardiology Committee for Practice Guidelines</italic><sup>7</sup>.</p>
    <p><bold>7.</bold> Cardiologistas podem julgar que &#233; positivo as diretrizes apresentarem complexidade suficiente para salvaguardar do uso de informa&#231;&#245;es da internet pelo paciente. &#201; um ponto de vista, mas, por outro lado, parece haver necessidade de maior aten&#231;&#227;o com a qualidade e os limites &#233;ticos da informa&#231;&#227;o para o leigo na l&#237;ngua portuguesa, at&#233; para n&#227;o conflitar com o que foi, eventualmente, ouvido do seu cardiologista. Vale um exemplo; quem acessar perguntas mais freq&#252;entes do site da Sociedade Brasileira de Cardiologia, P&#250;blico em geral, Cora&#231;&#227;o on line, e se interessar por prolapso da valva mitral encontrar&#225;: <italic>prolapso da valva mitral (PVM) &#233; uma condi&#231;&#227;o muito comum, especialmente em pessoas jovens. N&#227;o &#233; exatamente uma doen&#231;a. Na maioria absoluta dos casos n&#227;o h&#225; sintomas, nenhum tratamento &#233; necess&#225;rio. O portador de PVM pode, e deve, levar vida normal, incluindo trabalho e pr&#225;tica de esportes.</italic></p>
    <p>N&#227;o se pode deixar de mencionar que h&#225; o "paciente aculturado", um termo bioeticamente correto, pois se refere &#224;quele que absorve a cultura do ambiente que passa a vivenciar; em cl&#237;nica de valvopatia, por exemplo, a cronicidade favorece o aculturamento em pr&#243;teses e anticoagula&#231;&#227;o.</p>
    <p><bold>8.</bold> Cardiologistas podem se sentir orgulhosos da erudi&#231;&#227;o acerca da "evid&#234;ncia-ouro" da literatura, que, como n&#227;o poderia deixar de ser, &#233; difusa; e eles podem sentir desinteresse pela busca da "evid&#234;ncia-diamante" da beira do leito, esta necessariamente espec&#237;fica, com conseq&#252;ente queda tanto da expertise cl&#237;nica, quanto do est&#237;mulo &#224; criatividade que a aten&#231;&#227;o a cada caso provoca, na linha de uma das leituras para <italic>h&#225; doentes, n&#227;o doen&#231;as,</italic> o aforismo quase centen&#225;rio de Miguel Couto (1865-1934). Para quem comunga com este ponto de vista, soar&#225; no m&#237;nimo amoral a afirma&#231;&#227;o <italic>"...uma t&#233;cnica para elevar a ader&#234;ncia do m&#233;dico a diretrizes &#233; focar na doen&#231;a e desfocar do doente..."</italic> <sup>73</sup>. Esclare&#231;a-se que criar &#233; da ess&#234;ncia do ser m&#233;dico; pela cria&#231;&#227;o, d&#225;-se o tom da intensidade do encontro com o paciente; ela aproxima, por um lado, um interior, o conhecido/habilitado, que pode at&#233; advir de diretrizes, que v&#234;em um mundo ideal de expans&#245;es, e por outro, um exterior, a atitude frente ao "mundo real" com limita&#231;&#245;es al&#233;m daquelas j&#225; cuidadas pelas pesquisas cient&#237;ficas. Em conseq&#252;&#234;ncia, cardiologistas criam decomposi&#231;&#245;es em diretrizes estimuladas pelo momento e subseq&#252;entes recomposi&#231;&#245;es, com a finalidade de favorecer a efic&#225;cia.</p>
    <p>H&#225; entre os diretr&#243;filos quem entenda que um ant&#244;nimo para a Medicina Baseada em Evid&#234;ncias &#233; <italic>Achismo,</italic> uma esp&#233;cie de anti-certifica&#231;&#227;o ISO de evid&#234;ncia e benefic&#234;ncia; todavia, a conota&#231;&#227;o subjetiva do "eu acho que"- muitas vezes uma forma ling&#252;&#237;stica de expressar comprometimento- n&#227;o &#233; sin&#244;nimo de falta de responsabilidade, at&#233; porque &#233; preciso que o processo de tomada de decis&#227;o contemple tanto revela&#231;&#227;o de benefic&#234;ncia, quanto inspira&#231;&#227;o de n&#227;o-malefic&#234;ncia. Ademais, a "verdade de plant&#227;o" em sua conota&#231;&#227;o de &#250;til e eficaz, quando chega &#224; beira do leito, &#233; percebida pelo paciente como opini&#227;o, "o que o m&#233;dico acha", ou pensa ou acredita; e, nesta humaniza&#231;&#227;o promovida pelo verbo achar e afins, o paciente, comumente, passa a ficar achando, pensando ou acreditando-informado e esclarecido.</p>
    <p>Se a expertise para o desempenho da profiss&#227;o for admitida como comum a todos os m&#233;dicos, a diferen&#231;a entre um sucesso absoluto (cura) e um fracasso (morte) ou entre um bem relativo (ortotan&#225;sia) ou um mal (mistan&#225;sia), resultaria influenciada pelo valor <italic>achar bom</italic> ou pelo valor <italic>achar mau</italic> que se desejou atribuir a cada op&#231;&#227;o admiss&#237;vel - como cuidado principal ou como coadjuvante -, uma contraposi&#231;&#227;o que costuma existir quando &#233; motivada pelo car&#225;ter humano de um real v&#237;nculo m&#233;dico-paciente. Nesta concep&#231;&#227;o de qual arma escolher no arsenal das evid&#234;ncias, n&#227;o invalida que o papel cient&#237;fico do personagem (no sentido de int&#233;rprete de diferentes pap&#233;is) m&#233;dico n&#227;o admite fantasias, o fato de o lado humano do personagem paciente ter a permiss&#227;o para as usar, muitas vezes pelo preenchimento, ao seu modo, das lacunas de comunica&#231;&#227;o, como esperan&#231;a, como bandeira para seguir a conduta cient&#237;fica, mesmo apesar dos desconfortos, mesmo apesar do que cruelmente possa ignorar dos temores do m&#233;dico; o desespero d&#225; as asas para ir buscar, num futuro otimista, o reconforto de uma imagem positiva, que se mostra negativa no presente.</p>
    <p>Se &#233; uma verdade da bio&#233;tica que o progresso cient&#237;fico carrega o potencial de comprometer a humaniza&#231;&#227;o, n&#227;o parece justo ver a Medicina Baseada em Evid&#234;ncias como a fada boa que luta contra a madrasta da Medicina convencional; parece-nos perigoso para as boas pr&#225;ticas, certos excessos visando a projetar sentimentos negativos numa madrasta Medicina convencional, a fim de preservar a evid&#234;ncia, a " imagem da boa m&#227;e".</p>
    <p>Recorde-se que procurar uma segunda opini&#227;o &#233; pr&#225;tica crescente, sendo uma freq&#252;ente motiva&#231;&#227;o do paciente "achar o que deseja" e "saber o que outro m&#233;dico acha"- refor&#231;o que <italic>achar</italic> &#233; um estilo na comunica&#231;&#227;o, muito humano- em meio a mesmas evid&#234;ncias. Assim, evid&#234;ncia como opini&#227;o da literatura e opini&#227;o do m&#233;dico sobre evid&#234;ncia podem conviver como elos do processo <italic>primeira opini&#227;o-segunda opini&#227;o-volta &#224; primeira opini&#227;o</italic>; &#233; a nossa opini&#227;o e a evid&#234;ncia de Moumjid e cols.<sup>74</sup><italic>:</italic> "... <italic>conclu&#237;mos que a implementa&#231;&#227;o de diretrizes n&#227;o eliminar&#225; a necessidade da segunda opini&#227;o, pelo contr&#225;rio, o uso pode at&#233; mesmo estimular a procura mais ampla</italic>...".</p>
    <p>A bio&#233;tica nos ensina o qu&#227;o frequentemente mesmas premissas podem representar ora o adequado ora o inadequado em fun&#231;&#227;o de circunst&#226;ncias. A recomenda&#231;&#227;o: <italic>" paciente com rinosssinusite aguda bacteriana deveria receber antibioticoterapia apenas ap&#243;s 10 dias sem melhoras...",</italic> baseada numa revis&#227;o de diretrizes <sup>75</sup>, pode ser distintamente aplicada se o hipot&#233;tico paciente for um verdadeiro portador de cardiopatia sob alto risco de endocardite infecciosa.</p>
    <p>Portadores de valvopatia em capacidade funcional classe III/IV usam os f&#225;rmacos habituais para insufici&#234;ncia card&#237;aca que objetivam um estado de compensa&#231;&#227;o at&#233; a corre&#231;&#227;o hemodin&#226;mica cir&#250;rgica, presumivelmente em breve; as doses eficazes costumam ser menores do que as "padronizadas" para ICC de outras etiopatogenias; a cautela tem fundamenta&#231;&#227;o fisiopatol&#243;gica e acontece em prol da n&#227;o-malefic&#234;ncia. Neste particular, &#233; interessante assinalar que o <italic>ACC/AHA 2006 Guidelines for the Management of Patients with Valvular Heart Disease</italic><sup>6</sup> faz men&#231;&#227;o &#224; terap&#234;utica vasodilatadora de curta dura&#231;&#227;o -pr&#233;-operat&#243;ria-, t&#227;o somente, em situa&#231;&#227;o de insufici&#234;ncia a&#243;rtica cr&#244;nica com insufici&#234;ncia card&#237;aca grave e disfun&#231;&#227;o ventricular esquerda grave; pelas conven&#231;&#245;es de classifica&#231;&#227;o, esta recomenda&#231;&#227;o &#233; classe IIa, n&#237;vel de evid&#234;ncia C. Assim, a omiss&#227;o sobre terap&#234;utica vasodilatadora no per&#237;odo entre o momento da indica&#231;&#227;o cir&#250;rgica e a efetiva realiza&#231;&#227;o em portadores tanto de valvopatia com sobrecarga de volume com fun&#231;&#227;o ventricular normal, quanto de estenose mitral, n&#227;o deve ser decodificada como desnecessidade ou "n&#227;o autoriza&#231;&#227;o" e, desta forma, inibir o bom-senso rotineiro.</p>
    <p>A anamnese do paciente, de carne e osso, nome e sobrenome, aquela que alerta para uma mudan&#231;a de classe funcional n&#237;vel II para n&#237;vel III- de m&#225;xima import&#226;ncia em valvopatia-, por exemplo, n&#227;o pode ser substitu&#237;da pela anamnese da literatura, carne afastada do osso, nome do autor &#150;cr&#233;dito que afama- e sobrenome da revista-fama que d&#225; cr&#233;dito. Ambas representam uma comunica&#231;&#227;o triangular indispens&#225;vel, cada v&#233;rtice representando uma prioridade de vis&#227;o segundo preceitos da bio&#233;tica: m&#233;dico (que aplica) Medicina (ao) paciente, Medicina (que &#233; aplicada) (ao) paciente (pelo) m&#233;dico e paciente (que recebe) Medicina (pelo) m&#233;dico<sup>4</sup>.</p>
    <p><bold>9.</bold> Cardiologistas conseguem &#243;timos resultados por meio da aplica&#231;&#227;o de diretrizes; mas, apesar deste efeito-qualidade, eles n&#227;o devem temer insucessos s&#243; porque se valem das condutas "de livro de texto", "de livre contexto na literatura" ou com liberdade observacional; afinal, n&#227;o &#233; por esta forma "autodidata" de garimpagem na literatura e de prospec&#231;&#227;o na beira do leito que procedemos nas circunst&#226;ncias n&#227;o ajustadas a diretrizes?- e que s&#227;o maioria. &#201; sabido que <italic>"... somente um reduzido subgrupo do que se realiza em Medicina &#233; testado em estudos experimentais apropriados... somente uma pequena propor&#231;&#227;o de recomenda&#231;&#245;es &#233; baseada em evid&#234;ncia cient&#237;fica... a maioria &#233; derivada de experi&#234;ncia cl&#237;nica e observa&#231;&#245;es..."</italic> <sup>20</sup>. Vide adiante como apenas 1 em cada 4 recomenda&#231;&#245;es em valvopatia correspondem a n&#237;veis A e B de evid&#234;ncia.</p>
    <p>A pergunta parece oportuna: a concep&#231;&#227;o de diretriz, com uma bem feita primeira parte, deve aposentar cap&#237;tulos de livro sobre terap&#234;utica cl&#237;nica?</p>
    <p>Ser precedido por batedores de comit&#234;s de diretrizes pode facilitar transitar pelos caminhos da beira do leito, nem sempre bem sinalizados; em contrapartida, tem o inconveniente de acostumar a ser passageiro de uma condu&#231;&#227;o com baixo grau de intera&#231;&#227;o. Certos reflexos do ser m&#233;dico que j&#225; foram chamados de "olho cl&#237;nico", "olhar de relance" ou "intui&#231;&#227;o de m&#233;dico" correm o risco de ficarem embotados; nenhuma alta tecnologia superou a utilidade desta baixa tecnologia.</p>
    <p><bold>10.</bold> Cardiologistas podem julgar que as diretrizes lhe colocam na m&#227;o uma chave-mestra; todavia, n&#227;o &#233; por isso que devem presumir que tudo se comportar&#225; como fechaduras interligadas. Ali&#225;s, segredos a sete chaves &#233; o que n&#227;o falta na beira de leito; e no caso o v&#233;rtice de refer&#234;ncia do tri&#226;ngulo costuma ser o paciente em seu amplo contexto biopsicossocial.</p>
    <p>Parece oportuno frisar que, nem sempre, abrir, com autoridade, certas portas exige um estudo cl&#237;nico randomizado. Grunkemeier e cols.<sup>76</sup> informam que o FDA admite o m&#233;todo <italic>Crit&#233;rio de Desempenho Objetivo(OPC)</italic> como um desenho correto para avaliar o desempenho de pr&#243;tese valvular. As facilidades de documenta&#231;&#227;o do abrir-e-fechar e das complica&#231;&#245;es de naturezas mec&#226;nica, tromboemb&#243;lica e infecciosa permitem a an&#225;lise dos eventos e fazem desnecess&#225;rias as pesquisas cl&#237;nicas randomizadas para a aprova&#231;&#227;o ou desaprova&#231;&#227;o de uma nova pr&#243;tese valvular. Os autores refor&#231;am que o estudo AVERT (<italic>Artificial Valve Endocarditis Reduction Trial)</italic> previsto para acompanhar 4400 pacientes por 48 meses "...<italic>foi interrompido prematuramente</italic> ..." pelo alto percentual de complica&#231;&#227;o mec&#226;nica com uma das pr&#243;teses sob compara&#231;&#227;o; presumiu-se que <italic>"... um estudo OPC muito menor, com 800 pacientes-ano fosse suficiente para revelar o mesmo potencial de complica&#231;&#227;o.."</italic> <sup>76</sup>.</p>
    <p>Acresce que n&#227;o h&#225; certeza se estudo cl&#237;nico randomizado &#233;, de fato, invariavelmente superior a outros m&#233;todos, pois "... <italic>n&#227;o h&#225; uma sistem&#225;tica diferen&#231;a em conclus&#245;es derivadas de estudos RCT e n&#227;o RCT..."</italic> <sup>5</sup>.</p>
    <p>
      <bold>XIV - Mais uma vez sempre como uma primeira vez</bold>
    </p>
    <p>Diretrizes podem representar um "resumo de alta" do grande prontu&#225;rio que cont&#233;m o dia-a-dia da interna&#231;&#227;o das pesquisas na literatura. Elas reduzem a ampla mem&#243;ria, ap&#243;s an&#225;lises e metas-an&#225;lises, a uma mem&#243;ria seletiva fortalecida na aten&#231;&#227;o aos m&#233;todos e interesse nos resultados.</p>
    <p>Os mesmos atributos da boa mem&#243;ria aplicados &#224; beira do leito maximizam a probabilidade de elaborarmos um resumo de alta de um paciente t&#227;o favor&#225;vel quanto as conclus&#245;es das pesquisas.</p>
    <p>A mem&#243;ria do prontu&#225;rio da literatura, que representa o "para tr&#225;s", pretendemos o "para frente" no prontu&#225;rio do nosso paciente <italic>"...certid&#227;o de vida que registra uma conduta-momento que pretende adiar a certid&#227;o de &#243;bito..."</italic> <sup>77</sup>. Esta continuidade costuma requerer, por um lado, alguns esquecimentos estrat&#233;gicos e, por outro, determinadas lembran&#231;as, reaparecidas sabe l&#225; onde estavam, o mais prov&#225;vel, no "locus praticus".</p>
    <p>Em prol do equil&#237;brio do nosso habitat, segundo a "expertise conciliada", &#233; &#250;til levar em conta um dec&#225;logo de alertas sobre comportamentos de diretrizes, no ecossistema da Cardiologia. Levamos em conta, especialmente, a acima mencionada SEGUNDA PARTE DE DIRETRIZ, ou seja, o conjunto de recomenda&#231;&#245;es organizadas por classes e n&#237;veis de evid&#234;ncia.</p>
    <p><bold>1.</bold> Diretrizes complementam o ju&#237;zo cl&#237;nico, n&#227;o se transformam em seu substituto; elas s&#227;o b&#250;ssolas de nortes estruturados para o exerc&#237;cio de decis&#245;es com profissionalismo, mediante o racioc&#237;nio, o mais l&#243;gico, para um amplo panorama da circunst&#226;ncia; elas n&#227;o s&#227;o mandados com poder para colocar algemas que possam tolher "as m&#227;os da arte".</p>
    <p>Todavia, &#233; preciso conhecer e se posicionar sobre argumenta&#231;&#245;es como a seguinte<sup>25</sup>: <italic>"... uma vez as diretrizes adotadas por um grupo, espera-se que cada m&#233;dico as cumpra, exceto quando julgue inapropriado; nesta circunst&#226;ncia... um sistema de vigil&#226;ncia pode analisar os desvios das diretrizes e tomar provid&#234;ncias antes que ocorra malef&#237;cio para o paciente... freq&#252;entar semin&#225;rios educativos &#233; menos terr&#237;vel do que um processo formal e, inclusive &#233; mais convincente para que o m&#233;dico aceite o enquadramento..."</italic> Frieza de arrepiar ou calores de uma menopausa da medicina convencional?</p>
    <p>A flexibilidade &#233; compromisso de elabora&#231;&#227;o das diretrizes, desde os seus prim&#243;rdios, por estrita exig&#234;ncia das humanas diversidades da beira do leito "...<italic>uma diretriz ideal precisa ser suficientemente flex&#237;vel ao conceito que cada paciente &#233; &#250;nico..."</italic> <sup>47</sup>. Da formatura &#224; aposentadoria, a beira do leito promove o ac&#250;mulo do passado, que ao contr&#225;rio da express&#227;o "n&#227;o volta mais", nela "volta sempre"; e, nesta linha do tempo, cursa uma educa&#231;&#227;o continuada em servi&#231;o, sens&#237;vel a novas composi&#231;&#245;es sobre percep&#231;&#245;es e prefer&#234;ncias individuais, como as provocadas por aspectos culturais de uma etnia ou de uma regi&#227;o; elas podem bloquear a racionalidade de uma recomenda&#231;&#227;o, o que n&#227;o deve surpreender o mais diretr&#243;filo, pois, sem a aten&#231;&#227;o a elas, talvez n&#227;o se esteja praticando uma boa rela&#231;&#227;o m&#233;dico-paciente. O desejo do paciente d&#225; a conota&#231;&#227;o de verdade ao valor que ele aspira e, esta express&#227;o adquire for&#231;a moral para confiscar a prerrogativa m&#233;dica de aplicar a "melhor evid&#234;ncia", salvo no iminente risco &#224; vida; a determina&#231;&#227;o "humana" do paciente poder&#225;, ent&#227;o, ser a nega&#231;&#227;o da raz&#227;o "cient&#237;fica" do m&#233;dico e, desafiadoramente, do nosso narciso projetado na diretriz.</p>
    <p><bold>2.</bold> Diretrizes transformaram-se na "melhor metaboliza&#231;&#227;o da literatura" e, por seus anabolismos e catabolismos, ganham um mandato com per&#237;odo de validade indefinido, porque &#233; obra sempre em aberto. "Fabrica&#231;&#245;es" de distintas sociedades de especialidade podem apresentar maior afinidade com o consumidor &#150;imagem da marca- e, a sele&#231;&#227;o que faz "colocar no carrinho" &#233; influenciada por fatores que v&#234;m de fora (interpessoais como o efeito equipe ou ambientais como press&#245;es reguladoras) e por fatores que v&#234;m de dentro (intra-pessoais como a convic&#231;&#227;o refor&#231;ada por um feedback positivo de aplica&#231;&#245;es).</p>
    <p>Segmentos da ind&#250;stria farmac&#234;utica denunciam que os seus esfor&#231;os de alto custo para implementar as diretrizes contrastam com a lentid&#227;o de outras estrat&#233;gias, governamentais ou n&#227;o; em conseq&#252;&#234;ncia, reduz-se a credibilidade e forma-se uma lacuna entre a pesquisa e a pr&#225;tica, por exemplo, no tocante a fatores de risco cardiovascular<sup>75,78</sup>.</p>
    <p>Diferen&#231;as &#233;tnicas entre pacientes e de g&#234;nero entre m&#233;dicos constituem vari&#225;veis n&#227;o-cl&#237;nicas de influ&#234;ncia em tomadas de decis&#227;o. Barnhart e cols.<sup>79</sup> identificaram que "<italic>... m&#233;dicos de fam&#237;lia mais do que cardiologistas e m&#233;dicas mais do que m&#233;dicos percebem a participa&#231;&#227;o de fatores socioecon&#244;micos e de estilo de vida ante diverg&#234;ncias sobre aceita&#231;&#227;o de m&#233;todos de revasculariza&#231;&#227;o do mioc&#225;rdio..."</italic></p>
    <p>Vale a lembran&#231;a hist&#243;rica. Os crit&#233;rios de Jones (Thomas Duckett Jones, 1899-1954) foram provocados por uma filosofia semelhante &#224; das diretrizes; devido ao efeito "crowding" em quart&#233;is, durante a segunda guerra mundial, precisava-se conhecer a "melhor" informa&#231;&#227;o proped&#234;utica e organiz&#225;-la em crit&#233;rios de uso para o diagn&#243;stico de atividade reum&#225;tica; na ocasi&#227;o, o ano de 1944, representou o "consenso de &#250;nica pessoa", com a base de evid&#234;ncia essencialmente constru&#237;da em anos de beira do leito. As tr&#234;s altera&#231;&#245;es - <italic>post-mortem</italic> de Jones- de 1956, 1965 e 1992 foram j&#225; organizadas pela <italic>American Heart Association</italic>. Esta modalidade de ado&#231;&#227;o ocorreu tamb&#233;m em rela&#231;&#227;o aos crit&#233;rios da Duke University, publicados em 1994, para endocardite infecciosa; a tabela 22 de <italic>ACC/AHA 2006 Guidelines for the Management of Patients with Valvular Heart Disease</italic> &#233; a transcri&#231;&#227;o da modifica&#231;&#227;o realizada em 2000 por Li e cols.<sup>80</sup>, o que fecha o c&#237;rculo<italic>.</italic> A distribui&#231;&#227;o em crit&#233;rios maiores e menores &#233; uma analogia essencialmente pr&#225;tica das classes e dos n&#237;veis de evid&#234;ncia; ela &#233; algo como um dialeto, pois junta v&#225;rios elementos de forma&#231;&#227;o com analogia &#224; classe IIb e torna o conjunto, assim resultante, afim de IIa ou, at&#233; mesmo de classe I.</p>
    <p><bold>3.</bold> Diretrizes hospedam suas classes I e IIa de evid&#234;ncias no princ&#237;pio da benefic&#234;ncia; delas se pretende utilidade e efic&#225;cia com superioridade em rela&#231;&#227;o a outros m&#233;todos, para a maioria dos casos-alvo. O acaso na composi&#231;&#227;o de grupos a comparar, por uma estrat&#233;gia da randomiza&#231;&#227;o, &#233; um pr&#233;-requisito forte da legitimidade dos resultados da pesquisa, embora n&#227;o seja um fiel da verdade; &#233; cl&#225;ssica a for&#231;a persuasiva da quantifica&#231;&#227;o em ci&#234;ncia, o que de certa maneira, d&#225; lenha para a concep&#231;&#227;o que qualquer medida da experi&#234;ncia pessoal, por maior que seja, seria, no m&#237;nimo temer&#225;ria para as boas pr&#225;ticas; contudo, paradoxalmente, os acasos da beira do leito, distribui&#231;&#245;es n&#227;o controladas de morbidades num mesmo paciente<sup>56</sup>, podem comprometer o grau de reprodutibilidade da "melhor evid&#234;ncia" obtida em ensaio controlado.</p>
    <p>Duas conclus&#245;es de artigos da literatura recente chamam a aten&#231;&#227;o, uma para o problema e outra para a solu&#231;&#227;o a respeito de inconformidades em rela&#231;&#227;o a diretrizes.</p>
    <p>Boyd e cols.<sup>81:</sup><italic>" a aplica&#231;&#227;o de diretrizes dispon&#237;veis para idosos com v&#225;rias comorbidades pode resultar em efeitos indesej&#225;veis, em fun&#231;&#227;o de ju&#237;zos inadequados "</italic> ; os autores argumentam que idosos, que s&#227;o mais suscet&#237;veis a efeitos adversos e intera&#231;&#245;es de f&#225;rmacos, podem se encontrar incapacitados ou n&#227;o desejosos de se comprometerem, n&#227;o somente, com um grande n&#250;mero de medicamentos, simultaneamente, quanto com mudan&#231;as de estilo de vida por per&#237;odos prolongados; implica&#231;&#245;es sobre custos poderiam tamb&#233;m desestimular m&#233;dicos a assumirem o cuidado de idosos com v&#225;rias comorbidades. Recorde-se que "... <italic>no idoso, a maior chance do risco de cada tratamento tornar-se evento adverso da combina&#231;&#227;o terap&#234;utica conspira para reduzir os benef&#237;cios presum&#237;veis, do que se conclui que ao idoso deve-se oferecer apenas a associa&#231;&#227;o do que for claramente eficiente.</italic>.."<sup>82</sup>, sendo que cerca de 90% dos idosos fazem uso de pelo menos um medicamento ao dia; drogas de efeito cardiovascular e anti-hipertensivos lideram o consumo na terceira idade, onde se manifestam mais fortemente as heterogeneidades de absor&#231;&#227;o, distribui&#231;&#227;o e elimina&#231;&#227;o.</p>
    <p>J&#225; Gaede e cols.<sup>83</sup> avaliaram pacientes diab&#233;ticos, m&#233;dia et&#225;ria de 55 anos, por meio de um estudo randomizado, com m&#233;dia de acompanhamento de cerca de 8 anos; a atua&#231;&#227;o simult&#226;nea sobre glicemia, hipertens&#227;o arterial, l&#237;pides s&#233;ricos, e o uso de droga inibidora da enzima de convers&#227;o da angiotensina e aspirina permitiram concluir que: <italic>"... uma interven&#231;&#227;o focada num objetivo com m&#250;ltiplos fatores de risco em portadores de diabete tipo 2 e microalbumin&#250;ria reduz, em cerca de 50%, o risco de eventos cardiovasculares e microvasculares...".</italic> Ainda em rela&#231;&#227;o ao diabetes, doen&#231;as cr&#244;nicas requerem um apoio multidisciplinar ao comit&#234; de elabora&#231;&#227;o; a diretriz da Associa&#231;&#227;o de Diabete de Israel, por exemplo, houve por bem obter a colabora&#231;&#227;o das sociedades de hipertens&#227;o arterial, pr&#225;tica familiar, obesidade, nefrologia, aterosclerose e medicina interna<sup>84</sup>.</p>
    <p><bold>4.</bold> Diretrizes amadurecem quando especialistas transformam, em ferramenta confi&#225;vel, pr&#233;-requisitos de qualidade na elabora&#231;&#227;o<sup>19,20,85</sup>. Eles incluem: flexibilidade como atributo "... para satisfazer percep&#231;&#245;es e prefer&#234;ncias advindas da rela&#231;&#227;o m&#233;dico-paciente..."<sup>20</sup>, clareza para evitar ambig&#252;idades e facilitar a fluidez de acompanhamento <italic>"...recomenda&#231;&#245;es vagas e inespec&#237;ficas foram seguidas em in 36% das decis&#245;es e as recomenda&#231;&#245;es claras em 67% das decis&#245;es..."</italic> <sup>85</sup>, grau de transpar&#234;ncia sobre a interpreta&#231;&#227;o dos dados transformada em peso de evid&#234;ncia, limita&#231;&#245;es na aplica&#231;&#227;o pr&#225;tica, pluralidade nas representatividades acad&#234;micas dos autores e reprodutibilidade face a peculiaridades regionais <italic>"... quando e riscos e benef&#237;cios individuais n&#227;o podem ser avaliados, a propor&#231;&#227;o risco/benef&#237;cio deve ser determinada na popula&#231;&#227;o local..."</italic><sup>19</sup>. Elas n&#227;o podem transparecer um estatuto de "sociedade secreta", descomprometidas com os costumes locais, porque a beira do leito exige o m&#225;ximo de revela&#231;&#245;es.</p>
    <p>O neurologista Glauser e cols.<sup>86</sup> nos relembram a distin&#231;&#227;o entre uma informa&#231;&#227;o de valor cient&#237;fico e uma evid&#234;ncia de valor na cl&#237;nica. Ap&#243;s analisarem 50 RCT (Randomized Clinical Trials) e sete metas-an&#225;lises, os autores verificaram que a maioria (88%) era classe III/IV, uma grada&#231;&#227;o para estudos insuficientes por n&#227;o preencherem RCT duplo-cego &amp; pelo menos 24-48 semanas de tratamento sem interrup&#231;&#227;o &amp; aus&#234;ncia de sintomas por 24 semanas &amp; apropriado valor estat&#237;stico; a conclus&#227;o foi: <italic>"... a aus&#234;ncia de rigor de dados quanto a efeitos adversos torna imposs&#237;vel desenvolver uma diretriz sobre a otimiza&#231;&#227;o da monoterapia inicial na epilepsia...torna-se alarmante, a maioria dos RCT relevantes existentes sobre convuls&#227;o generalizada em epilepsia apresenta defici&#234;ncias expressivas de m&#233;todo que limitam a aplica&#231;&#227;o em projeto de diretriz..."</italic> A partir deste alerta, dir&#237;amos que o zelo com o princ&#237;pio da n&#227;o-malefic&#234;ncia &#233; capital na aplica&#231;&#227;o de diretrizes; ele tem, pelo menos, igualdade de valor com o zelo pela benefic&#234;ncia.</p>
    <p><bold>5.</bold> Diretrizes sofrem transforma&#231;&#245;es na aplicabilidade em fun&#231;&#227;o dos muitos acasos da beira do leito, que podem comprometer uma distribui&#231;&#227;o eq&#252;itativa de certos fatores, como ocorrida na pesquisa; no ecossistema da Cardiologia, o paciente-real costuma apresentar-se com alguns componentes que os volunt&#225;rios da pesquisa, justamente por n&#227;o t&#234;-los - crit&#233;rios de exclus&#227;o -, foram aceitos para o estudo; e que, ap&#243;s terem dado sua contribui&#231;&#227;o individual, ao final, fundiram-se num modelo de paciente-virtual, pronto para ser protagonista de uma diretriz; os ajustes de inclus&#227;o/exclus&#227;o realizados habitualmente, para deixar um desenho de pesquisa melhor estruturado para conclus&#245;es, costumam obstar que o paciente-real da exig&#234;ncia assistencial seja "gemelar" ao paciente-virtual da evid&#234;ncia do estudo; da&#237;, a demanda de providenciar a destila&#231;&#227;o da recomenda&#231;&#227;o pelo princ&#237;pio da n&#227;o-malefici&#234;ncia ou pela confirma&#231;&#227;o de pertin&#234;ncia de extrapola&#231;&#227;o de benefic&#234;ncia; a finalidade do endosso &#233; assegurar-se que a pretendida utilidade da <italic>melhor evid&#234;ncia</italic> n&#227;o esteja sobrepujada por uma condi&#231;&#227;o de <italic>maior evid&#234;ncia,</italic> como contra-indica&#231;&#227;o moment&#226;nea ou duradoura-anticoagula&#231;&#227;o &#233; um modelo desta cautela; ou se &#233; v&#225;lida a extrapola&#231;&#227;o frente a uma exclus&#227;o original que est&#225; agora presente &#150;acidente vascular cerebral pr&#233;vio exclu&#237;do para possibilitar uma randomiza&#231;&#227;o entre anticoagulante e aspirina; freq&#252;entemente, o paciente-real da beira do leito difere do paciente-virtual, refer&#234;ncia das diretrizes, em aspectos demogr&#225;ficos, etiopatog&#234;nicos e de associa&#231;&#227;o medicamentosa (polifarm&#225;cia- como acima referido para idosos).</p>
    <p><bold>6.</bold> Diretrizes s&#227;o alvo da eros&#227;o provocada pela car&#234;ncia de recursos financeiros e humanos; a insufici&#234;ncia de infra-estrutura t&#233;cnica, em seu amplo sentido, restringe a efici&#234;ncia presumida. O alerta <italic>"... a disponibilidade distinta de recursos em regi&#245;es geogr&#225;ficas refor&#231;a a posi&#231;&#227;o deste comit&#234; que recomenda&#231;&#245;es s&#227;o "guias" e n&#227;o "necessidades r&#237;gidas..."</italic> consta nas p&#225;ginas iniciais do <italic>ACC/AHA 2006 Guidelines for the Management of Patients with Valvular Heart Disease</italic><sup>6</sup><italic>.</italic></p>
    <p><bold>7.</bold> Diretrizes transformam a rela&#231;&#227;o de poder entre m&#233;dicos, na medida em que tendem a uniformizar condutas de modo independente da experi&#234;ncia pr&#243;pria adquirida; ou seja, elas tendem a minimizar a curva de aprendizado da beira do leito, que funciona como um intervalo de confian&#231;a, na medida que baliza o valor da capacita&#231;&#227;o dentro dos limites m&#237;nimo e m&#225;ximo de aceita&#231;&#227;o; o poder da sociedade de especialidade pela vincula&#231;&#227;o dos s&#243;cios ao diretricentrismo embute a tend&#234;ncia de reduzir a capacidade individual de perceber diferen&#231;as entre pacientes com manifesta&#231;&#245;es semelhantes; pode resultar um aprendizado com distanciamento do significado de um a um (conhecer sobre casos assistenciais) e com proximidade da signific&#226;ncia do p&lt;0,001 (conhecer sobre acasos na pesquisa). Esta "sindicaliza&#231;&#227;o" manifesta na formula&#231;&#227;o e coletiviza&#231;&#227;o de diretrizes precisa estar conscientemente avaliada por todos que contribuem para o desenvolvimento do produto interno bruto no ecossistema da Cardiologia.</p>
    <p><bold>8.</bold> Diretrizes pressup&#245;em heteronomia, ou seja, receber de um elemento exterior a regra a que se deve submeter; desta forma, elas concorrem para transformar em grau pr&#233;-determinado de abertura, o leque de op&#231;&#245;es de uso de m&#233;todos; poder-se-ia argumentar que n&#227;o deveria haver diferen&#231;a em ler na diretriz e ler num livro, mas depende da hierarquia do compromisso com que se d&#225; a leitura; a glamoriza&#231;&#227;o da diretriz embute uma restri&#231;&#227;o da autonomia do m&#233;dico para aplicar o que ele bem conhece e uma certa imposi&#231;&#227;o para "plagiar" o que ele, eventualmente, mal conhece. O grau de resposta &#224; glamoriza&#231;&#227;o <italic>"...pode ser avaliado por um modelo psicossociol&#243;gico que inclui a influ&#234;ncia de comportamentos passados, percep&#231;&#227;o de controle e barreiras e inten&#231;&#227;o na ader&#234;ncia..."</italic> <sup>87</sup>.</p>
    <p>Porque uma saud&#225;vel tens&#227;o entre o livre-arb&#237;trio do m&#233;dico e a recomenda&#231;&#227;o "segunda-opini&#227;o de bolso" beneficia as boas pr&#225;ticas da beira do leito, cabe uma reflex&#227;o, no ecossistema da Cardiologia: a tese a que nos referimos acima<sup>68</sup> sobre uma determinada conduta cl&#237;nica do dia-a-dia, experi&#234;ncia de anos, aprovada perante uma banca de professores de uma conceituada Faculdade de Medicina, em plena rotina de execu&#231;&#227;o, &#233; o que "se bem conhece" numa experimentada Unidade Cl&#237;nica de Valvopatia; entretanto, um diretricentrismo poderia determinar o seguinte exagero de senten&#231;a "sindicalista": a pr&#225;tica s&#243; receberia o "selo de aprova&#231;&#227;o" se, ap&#243;s a publica&#231;&#227;o em revista conceituada, houvesse a superposi&#231;&#227;o &#224;s classes favor&#225;veis de recomenda&#231;&#227;o da diretriz. Se entendermos que temos uma mat&#233;ria-prima boa, porque dever&#237;amos nos sujeitar a um produto importado, porque "de marca"? Esta perplexidade parece v&#225;lida, especialmente, em temas onde possu&#237;mos n&#250;mero de casos para dar poder de observa&#231;&#227;o e expertise de baixa, m&#233;dia e alta tecnologias para o correto diagn&#243;stico e terap&#234;utica. &#201; brasileiro<sup>88</sup> o artigo que motivou "<italic>The art of Medicine lives on"</italic>, como sub-t&#237;tulo do coment&#225;rio editorial<sup>64</sup><italic>"... o julgamento do cl&#237;nico foi &#250;til em corretamente identificar a modalidade terap&#234;utica adequada, particularmente para aqueles pacientes que n&#227;o deveriam se submeter &#224; interven&#231;&#227;o percut&#226;nea..."</italic>. Mais um componente de exporta&#231;&#227;o do nosso produto interno bruto do ecossistema da Cardiologia, quando nos aproximamos do centen&#225;rio de Nova Triponozom&#237;ase humana<sup>89</sup>, o emblem&#225;tico artigo de exporta&#231;&#227;o de Carlos Chagas, 60 p&#225;ginas em duas colunas, a da esquerda em portugu&#234;s e a da direita em alem&#227;o.</p>
    <p><bold>9.</bold> Diretrizes n&#227;o s&#227;o nem instrumentos exatos de convers&#227;o de probabilidades em certezas, nem argumentos para transformar prefer&#234;ncias pessoais -&#224; margem das diretrizes- em equ&#237;vocos cl&#237;nicos; o jarg&#227;o "padr&#227;o de conduta" n&#227;o pode motivar a denomina&#231;&#227;o de cuidado sub-padronizado e menos qualificado para uma conduta alternativa, ao gosto de suspei&#231;&#245;es sobre erro profissional e motivo de m&#233;rito para pena&#231;&#245;es. Elas n&#227;o s&#227;o instrumentos cartoriais e n&#227;o respondem solidariamente.</p>
    <p><bold>10.</bold> Diretrizes s&#227;o pass&#237;veis de servirem a vieses de interesses, al&#233;m dos estritamente de &#226;mbito cient&#237;fico, como o privil&#233;gio da efici&#234;ncia do primeiro componente e n&#227;o do v&#237;nculo da rela&#231;&#227;o custo-benef&#237;cio <italic>"...&#233; importante compreender a filosofia por detr&#225;s do desenvolvimento de diretrizes por administradores da sa&#250;de e ag&#234;ncias comerciais... as principais motiva&#231;&#245;es s&#227;o conveni&#234;ncia administrativa e incentivo a neg&#243;cios, mais do que garantia de qualidade e considera&#231;&#227;o sobre a efici&#234;ncia do cuidado com o paciente..."</italic><sup>17</sup>. H&#225; o risco de comportamento Flauta m&#225;gica quando se compromete a concilia&#231;&#227;o de redu&#231;&#227;o de custo e preserva&#231;&#227;o da qualidade.</p>
    <p>Por outro lado, a observa&#231;&#227;o que <italic>"...conflitos de interesse no &#226;mbito do financiamento t&#234;m o potencial de prejudicar a ci&#234;ncia m&#233;dica...</italic>", a exig&#234;ncia para <italic>"... autores revelaram os &#250;ltimos cinco anos quanto a interesses ou conflitos financeiros...</italic>" e as sugest&#245;es como <italic>"...condu&#231;&#227;o por comit&#234;s desvinculados do financiador e an&#225;lises por estat&#237;sticos independentes..."</italic> <sup>91</sup> indicam que as revistas cient&#237;ficas desejam analisar al&#233;m da tradicional casu&#237;stica e m&#233;todos, alguns casu&#237;smos e m&#233;todos n&#227;o ortodoxos da pesquisa cient&#237;fica.</p>
    <p>No aspecto da eventual propaga&#231;&#227;o do conflito de interesses com a ind&#250;stria farmac&#234;utica para o receitu&#225;rio, cabe ressaltar os n&#250;meros seguintes<sup>91</sup>: Dentre 685 diretrizes contendo prescri&#231;&#227;o, 35% dos autores declararam algum tipo de conflito de interesses, afetando 70% dos comit&#234;s; cerca de 10% dos comit&#234;s tinham um membro que era acionista de produto considerado; metade das diretrizes n&#227;o inclu&#237;a informa&#231;&#245;es sobre eventuais conflitos de interesses dos componentes. A grandeza dos n&#250;meros, talvez explique cepticismos como "... <italic>cl&#237;nicos podem estar menos inclinados a confiar em dados patrocinados pela ind&#250;stria do que por fundos p&#250;blicos..."</italic> <sup>24</sup>. Mecanismos de controle existem e a utiliza&#231;&#227;o dos mesmos parece crescente. Resta saber o quanto medidas fiscalizadoras conseguem afastar conceitos como <italic>"... n&#227;o &#233; verdade que os componentes mantenham total objetividade</italic>..." ou "... <italic>conflitos de interesse advindos de rela&#231;&#245;es de financiamento da ind&#250;stria farmac&#234;utica a pesquisadores e institui&#231;&#245;es acad&#234;micas podem influenciar de v&#225;rias maneiras a pesquisa biom&#233;dica..."</italic> <sup>92</sup>, ou "... <italic>a ind&#250;stria que patrocina n&#227;o tem obriga&#231;&#227;o em servir &#224; sa&#250;de p&#250;blica; ela tem um dever de obriga&#231;&#227;o com seus acionistas e um direito, circunscrito somente pelo aspecto &#233;tico de estudos em humanos, a financiar estudos de sua escolha; em conseq&#252;&#234;ncia, a concep&#231;&#227;o de grandes pesquisas, com compara&#231;&#245;es a longo prazo, pode, em certas circunst&#226;ncias, funcionar mais como um discurso comercial do que ci&#234;ncia obrigat&#243;ria..."</italic><sup>93</sup>.</p>
    <p>Por outro lado, n&#227;o se pode desprezar que <italic>"... pesquisa custeada pela ind&#250;stria farmac&#234;utica produziu muito mais medicamentos de utilidade do que a pesquisa patrocinada pelos impostos do cidad&#227;o..."</italic> <sup>49</sup> e que cresce a revela&#231;&#227;o dos conflitos de interesses "...<italic>uma diretriz ideal precisa estar acompanhada da manifesta&#231;&#227;o de conflitos de interesse..."</italic> <sup>47</sup>. Por exemplo, os ap&#234;ndices 1 e 2 do <italic>ACC/AHA 2006 Guidelines for the Management of Patients with Valvular Heart Disease</italic> exibem as rela&#231;&#245;es dos autores e revisores com a ind&#250;stria farmac&#234;utica. J&#225; o recente <italic>V Brazilian Guidelines for Arterial Hypertension 2006</italic> n&#227;o menciona conflitos de interesses<sup>94</sup>.</p>
    <p>Partindo do pressuposto que compartilhamos mesmos objetivos -manter os pacientes sob controle cl&#237;nico por meio de medicamentos-precisamos estimular discuss&#245;es sobre a forma harm&#244;nica de conviv&#234;ncia entre a l&#243;gica comercial e a &#233;tica m&#233;dica.</p>
    <p>No Brasil, alguns f&#243;runs de debate surgem pela preocupa&#231;&#227;o moral e pela aten&#231;&#227;o a artigos do C&#243;digo de &#201;tica M&#233;dica. A pauta poderia come&#231;ar pela listagem contida num ponto de vista sob o t&#237;tulo <italic>Resisting Cookbook medicine</italic>: "... <italic>a ind&#250;stria influencia as quest&#245;es a serem pesquisadas, os m&#233;todos, avalia&#231;&#227;o dos dados obtidos, conveni&#234;ncia da publica&#231;&#227;o e divulga&#231;&#227;o dos resultados... j&#225; se verificou que algumas diretrizes da pr&#225;tica cl&#237;nica e conceitos de "consensus conferences" s&#227;o indiretamente financiados por meio de pagamentos a indiv&#237;duos e funda&#231;&#245;es espec&#237;ficas</italic>..."<sup>95</sup>. O n&#227;o envolvimento do m&#233;dico com o planejamento da pesquisa e a sua divulga&#231;&#227;o soa mais como prestador de servi&#231;o a terceiros do que propriamente como pesquisador.</p>
    <p>
      <bold>XV - N&#250;meros em evid&#234;ncia</bold>
    </p>
    <p>No <italic>ACC/AHA 2006 Guidelines for the Management of Patients with Valvular Heart Disease</italic><sup>6</sup> h&#225; 54 quadros com classes de recomenda&#231;&#227;o e n&#237;veis de evid&#234;ncia. A diretriz disponibiliza 324 situa&#231;&#245;es diversas, distribu&#237;das conforme a tabela abaixo.</p>
    <p>
      <graphic xlink:href="1678-4170-abc-89-05-e136-00014-e01.jpg"/></p>
    <p>Observa-se que h&#225; &#250;nico n&#237;vel A, que se conjuga &#224; classe I em: <italic>"...valvotomia mitral percut&#226;nea por cateter-bal&#227;o &#233; efetiva para pacientes sintom&#225;ticos (classe funcional II, III ou IV da NYHA), com estenose mitral moderada ou grave e morfologia valvar favor&#225;vel para o procedimento, em aus&#234;ncia de trombo atrial esquerdo ou insufici&#234;ncia mitral moderada ou grave..."</italic></p>
    <p>Portanto, 99,7% das recomenda&#231;&#245;es no &#226;mbito da cardiopatia valvar n&#227;o preenchem a condi&#231;&#227;o de <italic>"... evid&#234;ncia ou concord&#226;ncia em geral que o procedimento ou tratamento &#233; ben&#233;fico, &#250;til e eficaz, por meio de dados derivados de m&#250;ltiplos ensaios cl&#237;nicos randomizados..."</italic> .</p>
    <p>DESTA MANEIRA, DEVERIA SER APLICADA, por um m&#225;ximo peso de evid&#234;ncia, &#233; exce&#231;&#227;o, pois como <italic>"... n&#227;o h&#225; disponibilidade de pesquisas randomizadas em muitos setores do tratamento da cardiopatia valvar, estudos observacionais e, em algumas &#225;reas, opini&#245;es de especialistas, formam a base de recomenda&#231;&#227;o oferecida..."</italic> <sup>6</sup>.</p>
    <p>As 236 recomenda&#231;&#245;es "positivas" (classes I e IIa- - jun&#231;&#227;o an&#225;loga ao se pratica com classe funciona lII/IV) fundamentam-se em dados derivados de &#250;nico ensaio randomizado ou de n&#227;o randomizado (n&#237;vel B), em 30,1% delas e em dados obtidos de opini&#245;es consensuais, estudos de casos ou padr&#227;o de cuidados (n&#237;vel C), em 69,5%. Assim, a maioria das condutas <italic>"...com benef&#237;cio presumivelmente bem maior do que risco..."</italic> n&#227;o deriva de randomiza&#231;&#245;es planejadas, considerando-se a cardiopatia valvar.</p>
    <p>As 88 recomenda&#231;&#245;es "negativas" (classes IIb e III- jun&#231;&#227;o an&#225;loga ao que se pratica com classe funciona lII/IV) associam-se a 83% de aus&#234;ncia de randomiza&#231;&#227;o fundamentadora (n&#237;vel C), o que, em parte, pode ser creditado &#224; compet&#234;ncia de vigil&#226;ncia &#233;tica sobre a n&#227;o-malefic&#234;ncia da Medicina convencional. N&#227;o &#233; incomum, o cotidiano da beira do leito em cl&#237;nica de valvopatia fazer optar pela inutilidade ou mesmo o malef&#237;cio de se cogitar de certas pesquisas com desenho semelhante &#224;s efetuadas com outras modalidades de cardiopatia. Note-se que, a escassez de eventos observada na experi&#234;ncia cl&#237;nica acumulada com casos de estenose a&#243;rtica assintom&#225;tica cotejada com as potencialidades de intercorr&#234;ncia projetadas do acompanhamento assistencial per e p&#243;s-operat&#243;rio de substitui&#231;&#227;o da valva a&#243;rtica, direciona para a inconveni&#234;ncia da indica&#231;&#227;o cir&#250;rgica, em aus&#234;ncia de s&#237;ncope, angina do peito e sinais de insufici&#234;ncia card&#237;aca e fun&#231;&#227;o ventricular esquerda preservada.</p>
    <p>Na diretriz <italic>1998 ACC/AHA guidelines for the management of patients with valvular heart disease</italic> havia a recomenda&#231;&#227;o de indica&#231;&#227;o cir&#250;rgica para "... <italic>paciente assintom&#225;tico com estenose a&#243;rtica grave e taquicardia ventricular..."</italic> <sup>15</sup>, o que, de certa maneira estava contr&#225;rio &#224; concep&#231;&#227;o que <italic>" ... mesmo se a mortalidade cir&#250;rgica fosse minimizada, o risco combinado da opera&#231;&#227;o e complica&#231;&#245;es tardias da pr&#243;tese excederia a possibilidade de preven&#231;&#227;o de morte s&#250;bita em todos os pacientes assintom&#225;ticos..."</italic> <sup>15</sup>.</p>
    <p>No <italic>ACC/AHA 2006 Guidelines for the Management of Patients with Valvular Heart Disease,</italic> prevaleceu a vis&#227;o cl&#237;nica: " <italic>o comit&#234; entendeu que n&#227;o havia evid&#234;ncia para sustentar a recomenda&#231;&#227;o, que n&#227;o foi confirmada no presente documento..."</italic> <sup>6</sup>.</p>
    <p>
      <bold>XVI - Reproduzo, logo existo</bold>
    </p>
    <p>A reboque da forte imigra&#231;&#227;o, as diretrizes costumam passar pelo processo de naturaliza&#231;&#227;o do tipo "dupla cidadania". A "cidadania brasileira" &#233; concedida, habitualmente, em fun&#231;&#227;o da ascend&#234;ncia da sociedade que elaborou e da revista onde se publicou. O ecossistema da Cardiologia brasileira costuma ser hospitaleiro, neste sentido, c&#244;nscio da utilidade e da efic&#225;cia avalizadas pela credibilidade natal.</p>
    <p>Nascimentos no Brasil tamb&#233;m ocorrem, sendo que a primeira gera&#231;&#227;o nasceu com forte semelhan&#231;a fenot&#237;pica, como aconteceu em outros pa&#237;ses, como Espanha: "... <italic>pouco antes de come&#231;armos a elabora&#231;&#227;o desta guia sobre valvopatias, apareceu a diretriz da American College of Cardiology/ American Heart Association... imposs&#237;vel subtrair a poderosa influ&#234;ncia...apesar de haver, no campo da cardiologia, as melhores contribui&#231;&#245;es originais espanholas..."</italic> <sup>96</sup>.</p>
    <p>A taxa de crescimento dessa natalidade &#233; indicador da fecundidade da expertise patr&#237;cia. Neste in&#237;cio do s&#233;culo XXI, a Sociedade Brasileira de Cardiologia registra meia centena de diretrizes e normatiza&#231;&#245;es, uma produ&#231;&#227;o alvissareira. Contudo, uma diretriz &#233; mais do que parecer &#250;til por conter "todos" os itens; ela precisa ser verdadeiramente proveitosa, pois, os dados/evid&#234;ncias s&#227;o "verdades pela utilidade".</p>
    <p>A recente II Diretriz Brasileira de Cardiopatia Grave<sup>97</sup> alerta-nos que "...<italic>considera-se um servidor portador de cardiopatia grave quando existir uma doen&#231;a card&#237;aca que acarrete o total e definitivo impedimento das condi&#231;&#245;es laborativas, existindo, implicitamente, uma expectativa de vida reduzida ou diminu&#237;da, baseando-se o avaliador na documenta&#231;&#227;o e no diagn&#243;stico da cardiopatia..."</italic>.</p>
    <p>Suponhamos uma avalia&#231;&#227;o de per&#237;cia num portador de valvopatia e o perito deseja recorrer, patrioticamente, a essa diretriz; ele encontrar&#225; o direcionamento <italic>"... nas se&#231;&#245;es a seguir ser&#227;o definidos os t&#243;picos importantes a serem valorizados na defini&#231;&#227;o de gravidade de diferentes cardiopatias..."</italic>; ele dirigir-se-&#225; &#224; se&#231;&#227;o 4-Valvopatias. O primeiro impacto &#233; que as &#250;nicas tr&#234;s refer&#234;ncias formam uma base de documenta&#231;&#227;o j&#225; interpretativa, algo como <italic>copy-paste</italic> sem <italic>search.</italic> A seguir, ao percorrer os v&#225;rios itens sobre doen&#231;as valvares, a fim de nortes para a decis&#227;o, o perito deparar-se-&#225; com informa&#231;&#245;es como: ".. <italic>press&#227;o arterial diferencial reduzida em estenose a&#243;rtica, segunda bulha hiperfon&#233;tica na estenose mitral, hist&#243;ria familiar de morte s&#250;bita no prolapso da valva mitral, dadas as condi&#231;&#245;es hemodin&#226;micas que uma troca proporciona, &#233; de consenso que a obstru&#231;&#227;o permanece, embora com gradiente menor, mantendo portanto, a condi&#231;&#227;o fisiopatol&#243;gica, a perman&#234;ncia da defini&#231;&#227;o de cardiopatia grave depender&#225; do gesto profissional, na situa&#231;&#227;o p&#243;s-cir&#250;rgica de estenose a&#243;rtica</italic>..." Aparentemente, todas as informa&#231;&#245;es "a serem valorizadas" est&#227;o listadas com o mesmo grau hier&#225;rquico; a agulha da diretriz-b&#250;ssola aponta para v&#225;rios pontos cardinais e, pela aus&#234;ncia de discrimina&#231;&#227;o, faz, por exemplo, classe funcional III/IV equiparar-se a ictus hipercin&#233;tico, deslocado externamente, na insufici&#234;ncia a&#243;rtica. A diretriz n&#227;o contribuir&#225; para o rumo de sa&#237;da do labirinto.</p>
    <p>H&#225; v&#225;rias barreiras para a implementa&#231;&#227;o de diretrizes, cada regi&#227;o tem a sua. &#201; importante frisar que <italic>"...o fator paciente &#233; citado como a raz&#227;o mais comum para que os m&#233;dicos n&#227;o sigam as diretrizes... no &#226;mbito da baixa expectativa de benef&#237;cio..."</italic> <sup>98</sup>.</p>
    <p>Pesquisa recente conduzida pela <italic>European Society of Cardiology</italic><sup>99</sup> em seis pa&#237;ses europeus concluiu que "... <italic>ader&#234;ncia do paciente e pol&#237;tica de sa&#250;de, incluindo aspectos financeiros, s&#227;o fatores cr&#237;ticos para a n&#227;o implementa&#231;&#227;o de diretrizes sobre redu&#231;&#227;o de risco cardiovascular</italic>...". A verifica&#231;&#227;o da autoria do artigo acima alerta para um aspecto interessante: um co-autor &#233; identificado t&#227;o somente como membro de uma determinada ind&#250;stria farmac&#234;utica, ali&#225;s, uma das v&#225;rias que patrocinaram o estudo; o mesmo comportamento &#233; observado em outras refer&#234;ncias sobre implementa&#231;&#227;o de diretrizes, o que assinala o interesse das empresas em conhecer os fatores intervenientes. Uma das mais freq&#252;entes sugest&#245;es pr&#243;-ader&#234;ncia &#224;s diretrizes, obtidas dos m&#233;dicos contatados, &#233; a simplifica&#231;&#227;o. Esta, contudo, &#233; a que mais aproximaria a diretriz de uma "receita de bolo".</p>
    <p>Por mais t&#225;cita que possa ser, num determinado ambiente, a aceita&#231;&#227;o e a integra&#231;&#227;o, &#233; essencial n&#227;o se dispensar um ritual de implementa&#231;&#227;o de diretrizes no ecossistema da Cardiologia, que idealmente, inclui:</p>
    <p><bold>1.</bold> Aprova&#231;&#227;o da relev&#226;ncia da ader&#234;ncia a respeito das realidades do cotidiano do cardiologista, ou do Servi&#231;o, para um determinado tema "... <italic>o m&#233;dico precisa crer que o uso da diretriz n&#227;o prejudica a rela&#231;&#227;o m&#233;dico-paciente e que os benef&#237;cios sustentam-se por longo prazo..."</italic> <sup>20</sup>.</p>
    <p><bold>2.</bold> Aprova&#231;&#227;o da idoneidade da propositura, abrang&#234;ncia das refer&#234;ncias, qualidade da elabora&#231;&#227;o do texto cient&#237;fico e da pertin&#234;ncia de objetivos econ&#244;micos, como salvaguarda da benefic&#234;ncia para o paciente e da n&#227;o-malefic&#234;ncia para a equipe de sa&#250;de. Otten e cols.<sup>100</sup> aplicaram um <italic>Instrumento de Avalia&#231;&#227;o de Diretriz</italic> e verificaram que os escores mais altos foram das que inclu&#237;am instru&#231;&#245;es para implementa&#231;&#227;o; nenhuma das diretrizes preencheu todos os crit&#233;rios de excel&#234;ncia; conclu&#237;ram que o melhor parece ser a jun&#231;&#227;o das partes de cada uma que os satisfazem. Neste campo, <italic>De Maria</italic><sup>52</sup> descortina bastidores e revela a produ&#231;&#227;o de diretrizes "populistas", criadas e/ou avalizadas por nomes com credibilidade; elas s&#227;o independentes de not&#243;rias sociedades e apontam para uma estrutura&#231;&#227;o de diretrizes "... <italic>menos certa de se assemelhar a diretrizes preparadas por organiza&#231;&#245;es de fato representativas , o que confere credibilidade e abrang&#234;ncia na aceita&#231;&#227;o...".</italic> O ponto nevr&#225;lgico &#233;<sup>17</sup>: <italic>"... desenvolveu-se uma ind&#250;stria com numerosas organiza&#231;&#245;es comerciais aderindo a este mercado..."</italic>.</p>
    <p><bold>3.</bold> Nomea&#231;&#227;o de l&#237;deres dentre os mais especializados no tema, em prol da legitimidade da condu&#231;&#227;o do processo de implementa&#231;&#227;o; "...<italic>a implementa&#231;&#227;o gradual parece beneficiar a ader&#234;ncia..."</italic> <sup>87</sup>.</p>
    <p>4. Agrega&#231;&#227;o de um corpo de multiprofissionais afins, para uma vis&#227;o integrada das evid&#234;ncias sobre etiopatogenia, diagn&#243;stico, terap&#234;utica, progn&#243;stico, preven&#231;&#227;o e custo-risco-benef&#237;cio.</p>
    <p><bold>5.</bold> Defini&#231;&#227;o de um fluxo de exposi&#231;&#245;es pedag&#243;gicas para discuss&#227;o e dissemina&#231;&#227;o do conte&#250;do.</p>
    <p><bold>6.</bold> Avalia&#231;&#227;o do impacto das recomenda&#231;&#245;es em rela&#231;&#227;o &#224; rotina praticada: disponibilidade de pessoal e aparelhos, exig&#234;ncias de treinamento adaptativo; em hospital universit&#225;rio, as maiores barreiras para a utiliza&#231;&#227;o de diretriz foram "<italic>... para o m&#233;dico-assistente, o tempo necess&#225;rio para receber resultados de exames e para o residente, a restri&#231;&#227;o &#224; autonomia de decis&#227;o..."</italic> <sup>87</sup>.</p>
    <p><bold>7.</bold> Avalia&#231;&#227;o do impacto econ&#244;mico e sobre a ocupa&#231;&#227;o de espa&#231;o;</p>
    <p><bold>8.</bold> Sele&#231;&#227;o eventual de certas recomenda&#231;&#245;es, an&#225;lise de sugest&#245;es para adapta&#231;&#245;es a peculiaridades nosol&#243;gicas de popula&#231;&#245;es, estilo local de conduta, expectativas coletivas da equipe, experi&#234;ncia dos profissionais e valores dos pacientes; deste modo a ado&#231;&#227;o poder&#225; ser com ou sem modifica&#231;&#245;es; ademais, a defini&#231;&#227;o de um cronograma de implementa&#231;&#227;o progressiva de itens n&#227;o rejeitados, mas, por alguma raz&#227;o, "congelados".</p>
    <p>Morimoto e cols.<sup>101</sup> nos alertam sobre a&#231;&#245;es de cautela para dar o devido endosso a uma recomenda&#231;&#227;o de diretriz com fundamentos em etnia distinta: <italic>"... os limiares de terap&#234;utica antiplaquet&#225;ria para popula&#231;&#245;es asi&#225;ticas deveriam ser duas a cinco vezes mais elevados do que os para a popula&#231;&#227;o estadunidense, em fun&#231;&#227;o de maior risco de complica&#231;&#245;es hemorr&#225;gicas... endosso &#224; diretriz dos EUA deve considerar implica&#231;&#245;es em outros pa&#237;ses...".</italic></p>
    <p>An&#225;lise feita pelo Estudo Chin&#234;s de M&#250;ltiplas Prov&#237;ncias concluiu que "... <italic>as fun&#231;&#245;es do estudo Framingham superestimaram o risco de doen&#231;a arterial coron&#225;ria em chineses... modifica&#231;&#245;es adaptativas tornaram o modelo &#250;til..."</italic> <sup>102</sup>.</p>
    <p>Na Nova Zel&#226;ndia, o <italic>Evidence-Based Best Practice Guideline</italic> recomenda que a popula&#231;&#227;o assintom&#225;tica seja submetida &#224; avalia&#231;&#227;o do risco cardiovascular, visando a eventual redu&#231;&#227;o, a partir dos 45 (homens) ou 55 anos (mulheres); caso haja fator de risco, as idades reduzem-se 10 anos: 35 e 45 anos. Os Maoris-o povo ind&#237;gena da Nova Zel&#226;ndia- t&#234;m os piores &#237;ndices de sa&#250;de e apresentam a maior incid&#234;ncia e preval&#234;ncia de cardiopatias e fatores e risco, ligados &#224; etnia e a aspectos socioecon&#244;micos e, desta forma, demandam prioridades. Em fun&#231;&#227;o do maior risco, a avalia&#231;&#227;o &#233; recomendada tamb&#233;m 10 anos antes;</p>
    <p><bold>9.</bold> Estrutura&#231;&#227;o da disponibilidade e reabastecimento de f&#225;rmacos e demais instrumentos para aplica&#231;&#227;o, bem como das provid&#234;ncias para a atualiza&#231;&#227;o de conhecimentos e reciclagem de capacita&#231;&#245;es para o uso adequado;</p>
    <p><bold>10.</bold> Planejamento de a&#231;&#245;es de envolvimento/comprometimento do paciente/familiar cuidador, com aten&#231;&#227;o &#224; informa&#231;&#227;o e ao esclarecimento visando &#224; ader&#234;ncia do j&#225; recomendado e &#224; expectativa de passos futuros, bem como &#224; identifica&#231;&#227;o e comunica&#231;&#227;o de eventos adversos.</p>
    <p>
      <bold>XVII - Ep&#237;logo</bold>
    </p>
    <p>Tr&#234;s frases famosas sobre verdade:</p>
    <p><bold><italic>1.</italic></bold><italic>"... o oposto de uma verdade profunda pode bem ser outra verdade profunda..."</italic> Niels Henrik David Bohr (1885-1962), dinamarqu&#234;s, Pr&#234;mio Nobel em F&#237;sica.</p>
    <p><italic>Se todos concordarem com voc&#234;, alguma coisa est&#225; errada, pois a unanimidade &#233; burra</italic> &#233; frase antol&#243;gica de quem, pela obra, abalou convic&#231;&#245;es apontando verdades cruas do esp&#237;rito humano: Nelson Falc&#227;o Rodrigues (1912-1980). Aceit&#225;-la, todavia, contribui para uma unanimidade que desdiz a intelig&#234;ncia da concep&#231;&#227;o. Sempre h&#225; mais um &#226;ngulo.</p>
    <p><bold><italic>2.</italic></bold><italic>"... os homens, ocasionalmente, trope&#231;am numa verdade, mas a maioria deles levanta-se e prossegue como se nada houvesse acontecido..."</italic> Sir Winston Churchill (1874-1965), ingl&#234;s, Pr&#234;mio Nobel em Literatura.</p>
    <p>Paul Dudley White (1886-1973) escreveu sobre a longa "hiberna&#231;&#227;o" do conceito de angina de peito proposto no s&#233;culo XVIII por William Heberden (1710-1801): ".<italic>.. era considerada rara por Austin Flint, em seu livro de Medicina em 1866 e por William Osler (de novo!), em seu renomado livro em 1892, quando surgiu o autom&#243;vel na d&#233;cada de 20 e as pessoas se tornaram mais pr&#243;speras e hipernutridas, a angina de Heberden tornou-se epidemia..."</italic> <sup>9</sup>. O progresso da Medicina comporta uma sucess&#227;o de <italic>d&#233;j&#224; vu</italic>.</p>
    <p><bold><italic>3.</italic></bold><italic>"... acredite nos que buscaram a verdade, duvide dos que a encontraram..."</italic> Andr&#233; Gide (1869-1924), franc&#234;s, Pr&#234;mio Nobel em Literatura.</p>
    <p>David Sackett (1934-....) um dos magos da Medicina Baseada em Evid&#234;ncias renunciou, no pico da gl&#243;ria, a <italic>"... escrever, ministrar cursos e atuar como &#225;rbitro em temas relacionados a Medicina Baseada em Evid&#234;ncias, em 2000<sup>103</sup>... a &#250;nica reden&#231;&#227;o do pecado da compet&#234;ncia profissional que conhe&#231;o &#233; a aposentadoria no seu campo e derivar a sua capacidade intelectual para novas &#225;reas, onde, tendo se desprendido da maior parte do prest&#237;gio e sem afirma&#231;&#245;es pessoais para defender, aproveite da liberdade de debater novas evid&#234;ncias e id&#233;ias sobre os seus m&#233;ritos passados... porque muitos especialistas s&#227;o sugados para buracos negros, como fun&#231;&#245;es administrativas, nas quais h&#225; menos chance de influenciar o progresso da ci&#234;ncia... a liga&#231;&#227;o do meu nome a um v&#237;nculo artificial de uma publica&#231;&#227;o ao movimento da Medicina Baseada em Evid&#234;ncias com a finalidade de promover vendas- sackettisation- feriu meus sentimentos e ganhou minha desaprova&#231;&#227;o... pareceristas parecem n&#227;o resistir &#224; tenta&#231;&#227;o de aceitar ou rejeitar novas evid&#234;ncias ou id&#233;ias n&#227;o pelo m&#233;rito cient&#237;fico das mesmas, mas pelo quanto concordam ou discordam de posi&#231;&#245;es p&#250;blicas dos especialistas nas mat&#233;rias.. .assim novas id&#233;ias e novas investiga&#231;&#245;es s&#227;o obstadas por especialistas e lentifica-se o progresso em dire&#231;&#227;o &#224; verdade..."</italic>(DN). Dignidade n&#227;o &#233; para ser defendida, &#233; para nos defender (Ralph Waldo Emerson, 1803-1882).</p>
    <p>Esta postura representa um veemente apelo para a mod&#233;stia dos intelectuais (cientistas) e um pux&#227;o de orelha nos especialistas (saber t&#233;cnico). Numa esp&#233;cie de " ind&#250;stria do conhecimento numa comunidade da verdade", floresceu a sacketiza&#231;&#227;o; uma vez as regras constitu&#237;das, houve uma "expans&#227;o para o mercado" com uma vis&#227;o moral pr&#243;pria da concep&#231;&#227;o que diz respeito &#224; "melhor evid&#234;ncia"; ela precisa do maior n&#250;mero de especialistas para "consumir" e, nem tantos cientistas para produzir e disseminar o conhecimento<sup>104</sup>.</p>
    <p>
      <bold>Potencial Conflito de Interesses</bold>
    </p>
    <p>Declaro n&#227;o haver conflito de interesses pertinentes.</p>
    <p>
      <bold>Fontes de Financiamento</bold>
    </p>
    <p>O presente estudo n&#227;o teve fontes de financiamento externas.</p>
    <p>
      <bold>Vincula&#231;&#227;o Acad&#234;mica</bold>
    </p>
    <p>N&#227;o h&#225; vincula&#231;&#227;o deste estudo a programas de p&#243;s-gradua&#231;&#227;o.</p>
    <p>
      <bold>Refer&#234;ncias</bold>
    </p>
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    <p>
      <fn id="back" fn-type="corresp">
        <label>
          <bold>Correspond&#234;ncia:</bold>
        </label>
        <p> Max Grinberg </p>
        <p> InCor - Av. Dr. En&#233;as de Carvalho Aguiar, 44 </p>
        <p> 05403-000 - S&#227;o Paulo, SP - Brasil </p>
        <p> E-mail: </p>
        <p>
          <email xlink:href="grinberg@incor.usp.br">grinberg@incor.usp.br</email>
        </p>
      </fn>
    </p>
    <p> Artigo recebido em 25/04/07; revisado recebido em 10/05/07; aceito em 30/05/07.</p>
  </body>
  <sub-article article-type="translation" id="TRen" xml:lang="en">
    <front-stub>
      <article-categories>
        <subj-group subj-group-type="heading">
          <subject>Point of View</subject>
        </subj-group>
      </article-categories>
      <title-group>
        <article-title xml:lang="en">The ecosystem of cardiology guidelines - patrons of the state of the art in cardiology</article-title>
      </title-group>
    </front-stub>
    <body>
      <p>
        <bold>POINT OF VIEW</bold>
      </p>
      <p>
        <bold>The ecosystem of cardiology guidelines - patrons of the state of the art in cardiology - Part I</bold>
      </p>
      <p>
        <bold>Max Grinberg</bold>
      </p>
      <p>Instituto do Cora&#231;&#227;o do Hospital das Cl&#237;nicas - FMUSP - S&#227;o Paulo, SP - Brazil</p>
      <p>
        <xref ref-type="corresp" rid="back-body2">Mailing address</xref>
      </p>
      <p><bold>Key words:</bold> Bioethics; guidelines; comment [publication type]; expert testimony.</p>
      <p>
        <italic>
          <bold>"... guidelines, viewed as anything less than objective and reflecting broad consensus, may be inadequate to overcome the rugged individualism inherent to physicians..." Anthony N. De Maria (Editor-in-chief &#150; Journal of the American College of Cardiology)</bold>
        </italic>
      </p>
      <p>
        <bold>
          <italic>"You know how difficult this profession is for one who is conscientious and exact, and who states only that which he can support by argument or authority, or for one who cannot recall where he saw it mentioned or proved..."</italic>
        </bold>
      </p>
      <p>
        <bold>
          <italic>Moshe ben Maimon- Maimonides (1135-1204)</italic>
        </bold>
      </p>
      <p>
        <bold>
          <italic>"Experience is a hard teacher because she gives the test first, the lesson afterwards."</italic>
        </bold>
      </p>
      <p>
        <bold>
          <italic>Vernon Sanders Law (1930-...)</italic>
        </bold>
      </p>
      <p>
        <bold>I - Preliminary comment</bold>
      </p>
      <p>I hereby declare that I harbor no conflict of interests, but rather an interest in conflicts inherent to the guidelines &#150; conflicts that relate to the choice of scientific data, to interpretation seen as evidence, and to classification of the recommendations and their implementation. My interest constitutes a way to follow up the process of balancing physicians' two focal poles &#150; medical practice and patients &#150; from the inside, from within the ecosystem of cardiology. It is a way to keep close track of the dynamics between what, technically speaking, would be in compliance with the best medical practice available to the doctor-patient relationship (which implies ongoing exercise), the application of its units in the manner that would best complete individual needs (which implies "on-the-spot" exercise) and thus result in the "best decision" for any given situation.</p>
      <p>It makes it easier to analyze responsibilities that stem from the privilege of being qualified to make decisions &#150; as the locomotive &#150; and clarifies rights and obligations of those in a subordinate position &#150; that of the railway cars &#150; the same tracks, the same stations, the same destination.</p>
      <p>It engender reflection on the question of ethics, of the conflict between a science of objective measures &#150; but that brings to mind a production line and fosters a culture that features control and standardization &#150; and the art of competence and judgment that neither separates persons who know from their knowledge, nor loses sight of intuition and "hunches"<sup>1</sup>.</p>
      <p>It helps us weigh the outpouring of questions stemming &#150; but not exclusively &#150; from the bedside, inspired by direct contact with the realities of disease and which, transforming themselves into hypotheses for research, generate scientific data, source answers capable of returning to the bedside from whence they originated in the form of value-added evidence.</p>
      <p>It helps when delving into the extreme complexity of human biology to discover subtleties inherent to the raw materials furnished by illnesses and to work with them on the various levels of knowledge that, in the universe of heart diseases, comprise what we might call the "gross domestic product" of the ecosystem of cardiology.</p>
      <p>It leads us to understand to what extent the bedside would admit to guidelines functioning with the "authority" to recommend and to demand obedience. Although they may inspire confidence, guidelines cannot stifle physicians' professional freedom and in addition they help us appreciate how much that same bedside suffers, not only from pernicious ambivalence &#150; fed back by certain ethical infractions &#150; but also from abdication of the decision-making process &#150; due to bad attitude stemming from lack of knowledge and qualification that can result in malpractice.</p>
      <p>It seeks the real dimension of the extent to which the bedside is a fitting environment for indecision &#150; Shall I do it? What shall I do? When shall I do it? How shall I do it? And thus, fall back on the use of guidelines as a strategy for perfecting inversion of the concept (that physicians are already accustomed to practice at the bedside) that humanity <italic>"... is divided into decision-makers and abdicators... the majority tends to behave as abdicators... many require the stimulating pressure of deadlines to make any decision... running the risk of impulsivity..."</italic> (Theodore Isaac Rubin, 1923-...). In therapeutics, the answers seem to be more positive, but in prevention, the implementation of guidelines has been negatively influenced by the above-mentioned in the patient's mind.</p>
      <p>Guidelines harmonize decision-making support, but their use cannot be abused by those who, in their desire to solve conflicts of conscience, consult said guidelines systematically whenever faced with some theme on which they lack knowledge.</p>
      <p>Guidelines are not omniscient and must not, in themselves, be seen as orders, as though they were capable of transferring the ethical-professional responsibility of the recommendation, which is personal within the scope of the doctor-patient relationship, to a collective mea culpa.</p>
      <p>Guidelines are a serious business and, within the limits of the heritage of medical practice &#150; representing the selection of the good part &#150; sufficient reason to not be seen as a safe harbor for those who aim for models of perfectionism, whatever they may be, within the cost-risk-benefit ratio.</p>
      <p>Guidelines are a rendering of the service of rediscovery, not of a rewriting of medical literature. They are officially seen as revision, not as original messages. However, the finishing touches that they provide make them the origin of messages on expectations regarding performance and safety, demanding, as state of the art, of the physician's knowledge and leadership, of the efficient decoding by the wisdom of the patient's body, and of the social focus of health.</p>
      <p>Guidelines organize the "chaos" of literature and offer one sole language in a tower of Babel; they turn all physicians into "doctors without borders". By classifying gathered past experience, they help strengthen the habit of foreseeing consequences of practice. They fulfill the need for anticipation in a labyrinth; play the role of oracle when doubts arise, and act as codes to invert morbid happenings. However, the real bedside world is not exactly monolingual, and therefore, experiences actually lived through &#150; always "multilingual" &#150; constitute filters interposed in the connecting channels between the perspective informed in the text and that which one perceived at the bedside, including moral values that cardiologists cannot fail to notice. <italic>"The heart has its reasons of which reason knows nothing" (</italic>Blaise Pascal (1623-1662). What this favors is good discernment regarding objectives and good mentalization of end-views in three stages: OBSERVATION of the current clinical situation of the case; retrospective KNOWLEDGE of similarities previously observed within the cardiological ecosystem environment; JUDGMENT of the prospective meaning of the OBSERVATION-KNOWLEDGE meeting point for the case at hand.</p>
      <p>Guidelines are not akin to Kantian categorical imperatives (Immanuel Kant 1724-1804) because if they could be acknowledged as moral duties (imperatives), they would not reach all, without exception (categorical), even though the universal principle "<italic>do unto others what you would have all others do unto all</italic>" must always be present. Further in the Kantian line, an explanation for the non-categorical is that if a guideline represents a <italic>theoretic reason</italic> for a recommendation, the desire expressed by the patient's own free will can determine a <italic>practical reason</italic> for not heeding said recommendation.</p>
      <p>Far be it from me any intention to philosophize &#150; merely a passing thought &#150; a guideline can be analyzed by its capacity to answer a triad of basic questions from Kantian criticism, when posed at the bedside: a) <italic>What can I know?</italic> A guideline might have the intention of answering that the physician can know about probabilities of utility and diagnostic, therapeutic, and preventive efficacy; b) <italic>What should I do?</italic> Mentalizing what should be universal conduct, start from the "best scientific evidence", which is diffuse, and arrive at the "best clinical evidence", individualized according to precepts of freedom, clarification and reorganization within the doctor-patient relationship; c) <italic>What can I expect?</italic> Maximization of successes thanks to knowledge of the best practices and interpretation of failures due to the biological nature of human beings.</p>
      <p>A guideline is a plural tool when one perceives that it can satisfy philosophical theorizations such as the <italic>realism</italic> of a fact that serves as a reference point to a recommendation (example: blood pressure of 180x120 mmHg measured with a sphygmomanometer); the <italic>idealism</italic> of the need to take measures to reduce (the) blood pressure levels; the <italic>rationalism</italic> of the essential human and technical qualification to perform that mission, and the empiricism of the research-based recommendations.</p>
      <p>If we were to draw an analogy with the concept of media, guidelines would be mass media communication &#150; high probability of a good (clinical) return on (scientific) investment. Guidelines represent an emerging power that must be considered from the viewpoint of their inter-relation with the classic concept of <italic>the clinic is sovereign</italic> and, more recently, from the viewpoint of the notion that <italic>the clinic is sovereign and the image is powerful</italic> <sup>2</sup>.</p>
      <p>In the analysis that follows, I sought to support the concept that data/evidence &#150; due to ongoing construction/deconstruction &#150; has both the strength of the "efficient scientific stint of duty", and the fragility of "probability, not precisely clinical certification", to cater to the best bedside practices. We must keep in mind that the essence of medical practice comprises the many anxieties physicians are subject to, to transform the recommendation <italic>should apply,</italic> to the statement <italic>applied in the line of duty</italic>.</p>
      <p>I tried to keep a keen "outside view" to ensure that the text was, as far as possible, based on evidence from learned publications about guidelines and that it contained an inkling from the teachings of Osler who said that <italic>the more you look outside of the narrow circle of your work, the better equipped you will be for the struggle in your profession</italic>. Any feeling of rarefaction of general culture in the atmosphere of the ecosystem of cardiology jeopardizes the technical-scientific rationality in the context of the specialty.</p>
      <p>I justify certain excerpts featuring the use of the personification style of language because of the view of dialogue we must have with the content of the guideline and which is "a dialogue with colleagues" with the power to influence the "me with myself" dialogue, and due to the custom of personifications (anthromorphisms) at the bedside such as: <italic>the heart accelerated, the blood pressure dropped, the hypertrophy pulled the vector back, the aorta is overriding the interventricular septum, or the echocardiogram didn't say anything about the mitral valve score</italic>.</p>
      <p>I explain some repetitions in the course of the article due to the chance of "revolving reading" that occurs with texts that deal with viewpoints because these lead to thoughts, engender ideas in a permanent merry-go-round that, contrary to an original article, needn't &#150; or shouldn't &#150; have the virtuosity of rigorous conciseness. And the merry-go-round in this instance is called GUIDELINES TO BE RESPECTED IN THE PROPER DOSAGE. Consensus regarding w<italic>hat the proper dosage is</italic> seems to be as impossible to determine as the chance of each little horse representing a supposition of an answer and all racing off to get a winner.</p>
      <p>I presume that the text may contain certain biases of appreciation, self-conflicts of interest between an unconsciously partial self and a self that wants to be impartial, but they will not be prejudices. I believe that, at least in part, possible biases could be attributed to habits in the treatment of valvular heart disease because the conceptual bases of conduct in this pioneer sub-specialty of cardiology, entwined as it is with cardiovascular surgery, have been put to the test for decades; so many years at the bedside, countless randomizations due to human nature in the broadest sense, lent them high "study-power", strong significance, and a narrowing of the confidence interval.</p>
      <p>Time &#150; that cruel purifier &#150; because it is the unblemished guardian of the truth, is the best method of evidence. And, in this respect, the <italic>Framingham Heart Study,</italic> nearly sixty years old and with 3900 grandchildren "born" in 2002, is worthy of praise &#150; an hors-concours purifier of evidence.</p>
      <p>Chronos is the father of Kiron, who created Asclepius, a hero and the god of medicine <italic>"...at night, Asclepius appeared in the dreams of the ill and gave them advice... in the morning the priests collected the prescriptions and explained them..."</italic> Meaningful coincidences!</p>
      <p>
        <bold>II - Plato on the duty roster</bold>
      </p>
      <p>Here I transcribe an excerpt from <italic>Banquet</italic>, a symposium by Plato (428-347 B.C.) that deals with "ascending dialectic", heading constantly upward without stopping, stage by stage, after an initiation. The object is to carpet some steps on the subject of guidelines. "...<italic>to pass from the love of one beautiful body, to the love "of all beautiful bodies", and after the beauty of bodies, to the "beauty of souls", then to the "beauty of actions and laws", then to that of the sciences, until ultimately, his spirit fortified and broadened, he perceives one sole science</italic>..."<bold><italic>.</italic></bold></p>
      <p>
        <bold>III - Kafka parable</bold>
      </p>
      <p>Below is a parable by Franz Kafka (1883-1924)<sup>3</sup>. My intent in reproducing this parable is to provoke thought about conciliating guidelines with the bedside. I suggest that the term 'antagonist' be decoded as the interface between the past &#150; the workforce that we know and that can be synthesized in a guideline &#150; and the future &#150; the next case, while 'he' is a physician eager to deal with beneficence/non-harmfulness.</p>
      <p><italic>"He has two adversaries: the first (knowledge of medicine) presses him from behind, from the origin. The second blocks the road ahead (</italic>the patient in need of expertise<italic>). He gives battle to both. To be sure, the first supports him in his fight with the second (</italic>guideline furnishing the recommendation<italic>), for he wants to push him forward, and in the same way the second supports him in his fight with the first, since he drives him back (</italic>the specificity of a case<italic>). But it is only theoretically so. For it is not only the two antagonists who are there, but he himself as well (</italic>the physician between the past and the future<italic>), and who really knows his intentions?</italic> (to lend meaning to the care provided<italic>). His dream, though, is that some time in an unguarded moment &#150; and this would require a night darker than any night has ever been yet &#150; he will jump out of the fighting line (</italic>preserve his autonomy in the face of the patient's autonomy<italic>) and be promoted, on account of his experience in fighting, to the position of umpire (</italic>beneficence/nonharmfulness of what the past taught for the future of the clinical situation<italic>) over his antagonists in their fight with each other."</italic></p>
      <p>
        <bold>IV - Gross domestic product</bold>
      </p>
      <p>The gravitational pull of the cardiological ecosystem's atmosphere attracts the specialty's evolution and stabilizes it in its three layers &#150; assistential, educational, and research.</p>
      <p>Gravity, by definition, means 'a natural force of attraction', and also means 'seriousness'. Cardiologists are zealous and have their feet planted firmly on the ground, and Brazilian cardiologists, heirs to 60 years of accumulated expertise in this specialty in Brazil, have been committed to technical-scientific biosafety, preservation of the interpersonal relationship environment, decisions that entail the least risk of offending human nature due to carelessness or negligence &#150; in short &#150; committed to protecting the ecosystem of cardiology.</p>
      <p>Because of their moral responsibility, cardiologists all get involved, to the best of their ability, in investments, consumption, costs, imports and exports, and consequently help promote the accumulation of scientific assets and cardiological services.</p>
      <p>The consequence is the composition of a true 'gross domestic product' of cardiology, a clinical wealth that, in the name of technical-scientific equity, has various forms of per capita distribution.</p>
      <p>It is worthwhile to reiterate one of these &#150; the entity that plays the role of vector of the idea that optimizing clinical practice cannot be separated from the capacity of knowing how to choose literature &#150; the GUIDELINES. The well-known highlighting in modern medical communication, which personifies scientific excellence, is a very good example of the truism "knowledge is power".</p>
      <p>
        <bold>V - Human warmth, ethical humidity, and a bioethical breeze</bold>
      </p>
      <p>In the ecosystem of cardiology, the guidelines lend the bedside a dry climate devoid of any major thermal fluctuations, with a tendency toward cold, less cloudy, and with scant wind. However, the monotony seems incapable of fulfilling human nature's various needs. Therefore, equilibrium in the ecosystem of cardiology requires at least three bedside-softening factors: human warmth, ethical humidity, and a bioethical breeze. The guidelines help physicians make decisions according to their own conscience. When that conscience is contrary to the evidence and its alleged universal validity, they set out to search for some agreement by means of a medicine-physician-patient dialogue that can be symbolized in a bedside triangulation<sup>4</sup>.</p>
      <p>The triad thus formed tempers respect for the limits of moderation between intensive and extensive, of grasp, and of the acknowledgment of inadequacies in the face of circumstances that are marginal to what was idealized elsewhere under rigid methodological controls &#150; "...<italic>research customarily uses carefully selected populations</italic>..." <sup>5</sup>. This proviso is reinforced by a unisonant text in the introduction to the updated guidelines: "... <italic>therefore, deviating from these guidelines may be appropriate under certain circumstances..."</italic> <sup>6</sup>, or "... <italic>there are circumstances in which deviation from these guidelines is appropriate</italic>..."<sup>7</sup>. The same is seen in the AMB/CFM Guidelines Project: "...<italic>the relation between study quality and recommendation grade is insufficient if used in an isolated manner and it will be up to the physician to judge the form, timing, and pertinence of utilization according to the guideline.</italic>.."<sup>8</sup>.</p>
      <p>At the bedside, inclusion criteria, exclusion criteria, limitations of the study, editorials, and letters to the editor transform themselves according to individual needs of beneficence/nonharmfulness in the ecosystem of cardiology. The actual patient's right to autonomy influences the weight of the beneficence and the weight of the harmfulness to be placed on the plates of the scales of humanization of the doctor-patient link. Prospects of harmfulness are usually feather-light in comparison to the heavy-weight measures of the so-called heroic beneficence in light of the imminent risk to life, and heavy as lead in view of the light nihilism of certain "discharges upon request". The guidelines can be relegated to a second level.</p>
      <p>Virtual patients mentioned in publications represent characters to whose conflict &#150;after having been worked out &#150; at the end was added the foreseeability of a fact ('A' would work well, 'B', not so well). Real patients represent a conflict that contains an explanatory factor to be associated to the foreseeability of the virtual patient. The nuances of the conflict we are faced with raise additional arguments to explain the "whys" of a decision. Furthermore, the endpoints that encourage research are not necessarily identical to those of real patients in terms of need or in terms of priority.</p>
      <p>When the boomerang of the evidence launched with the expectation stemming from research returns, it may be surprised by a combination of forces (given by the assistance) that changes the course that had been foreseen in view of the concept. Nature teaches: a scientific element, we will call hydrogen, a clinical fact, let's call it oxygen: the first element can cause a fire, the second can cause it to spread. When the two elements combine to form water, the effects are inverted.</p>
      <p>But it is certain that the presence of guidelines oxygenates the organizational climate of the bedside. They lend vitality and support against routine factors of clinical anoxia: the myriad difficulties to arrive at a diagnosis, the toxicity of ambivalent therapeutics, and those dreadful immersions in the swampland of prognosis.</p>
      <p>On the other hand, it is also certain that "breathing" guidelines leads to "exhaling" carbon dioxide, which causes concern regarding excesses; exaggerations are associated with the risk of hypercapnia and dulling of the clinical senses. In addition, paradoxical as it may seem, excess can result in a greenhouse effect and consequently heighten possible humanization irradiation unbalances in the bedside atmosphere, especially at times when holes are detected in the ethical-ozone layer.</p>
      <p>
        <bold>VI - Truth &#150; an endless quest</bold>
      </p>
      <p>Research finds "truths", teaching divulges them, and health care applies them. The quotation marks are justified by the sense of revelations that sound like truths because they happen to be useful and effective. The majority of these, however, are susceptible only to endless forms of discussion because in medicine, contrary to other environments, the "self-evident" nature of truth is not the rule. Without the quotation marks, the opposite meaning could be "lie" or "error" &#150; which certainly does not comply with the spirit of good faith in the quest for truth in medicine; nor does it comply with the conviction that not using a guideline is an error because what one knows by means of it is true.</p>
      <p>It is in these three doctorly activities &#150; etymologically speaking, doctor is one who teaches a colleague or layperson, directly or indirectly &#150; that the unchangeable truth, "devoid of competition", and the "on-call truths" circulate (or at least as far as we can see), and which, being viewpoints, represent approximations of the truth by the momentary force of their connection with utility within the ecosystem of cardiology. It is what distinguishes a pericardial rub &#150; eternal in the clinical meaning &#150; from the dosage of corticosteroids it provokes &#150; something temporary, depending on a new conclusion regarding utility. The "on-call" truths are habitually seen as having a contingent nature. They feature a built-in uncertainty, and the "will it or will it not occur" duality is the fuel that keeps the flame of the search for the "best evidence" always burning.</p>
      <p>The history of cardiology registers some peculiar types of immutable truth: the "adopted" truth, such as the Doppler effect (Christian Johann Doppler,1803-1853); or that found by a physician during a war, such as the Korotkoff sounds (Nicolai Sergeyvich Korotkoff, 1874-1920); or the "lay" truth of Musset's sign (Louis Charles Alfred de Musset, 1810-1857); or the "literary" truth (Charles Dickens-1812-1870) of the Pickwickian syndrome (proposed by Charles Sidney Burwell &#150; 1893-1967); or that "learned from a layperson" such as Withering (William Withering, 1741-1799); or the "predestined", such as Chagas disease (Carlos Ribeiro Justiniano das Chagas, 1879-1934); and the monomorphic truth of Ebstein's anomaly (Wilhelm Ebstein 1836-1912)<sup>9</sup>. One historic "on-call truth" is Peter's aphorism, which in fact we can consider an emblematic forerunner of a guideline. Michel Peter (1824-1893) "inaugurated" a Class III recommendation when he discouraged pregnancy in women with heart disease because <italic>"... it puts the mother's life at risk</italic>... <italic>it is associated with premature birth or abortion... it aggravates heart disease</italic>..."<sup>9</sup>. There is also the truth that is idealized and not yet realized half a century later, known as Harken's criteria for an ideal heart valve prosthesis <sup>10</sup>.</p>
      <p>The enthusiasm of the moment usually speaks out loudly and makes statements that quickly become obsolete: "... <italic>a remarkable characteristic of modern medical treatment.</italic>.." was written by William Bart Osler (1849-1010), always Osler..., in the early 20th century, something along the lines of the hot-cold empathy gap<sup>11</sup>. It is a warning of a symptom of the "SYNDROME OF THE MOST RECENTLY PUBLISHED ARTICLE<bold>"</bold>: an ardent "we have the truth..." instead of a guarded "we may have a truth..." The guidelines, somehow, constitute a counterbalance to this context of indisputable superiority of the latest information, even though they deal with the most recent, as long as they meet criteria such as "...a moral imperative..."<sup>12</sup>. The context of a new fact in medical literature is different from a new clinical fact, and at times we tend toward group reasoning as though we were conditioned by the habits of day-to-day communication. One thing is the mobility of a temporary certainty of the clinical moment blood glucose tests repeated several times to follow up on treatment of decompensated diabetes, a <italic>sine qua non</italic> condition for immediate therapy. Another thing is the mutability of a temporary certainty of the scientific moment. For example: "...<italic>statins significantly reduce the hemodynamic progression of moderate-to-severe aortic stenosis, an effect that may not be related to cholesterol lowering</italic>..." &#150; Raphael Rosenhek &#150; Circulation 7, September 2004<sup>13</sup>. Nine months later, "...<italic>in view of studies by Cowell and colleagues, prescribing statins is not justified for aortic stenosis, unless due to other indications.</italic>.." &#150; Raphael Rosenhek &#150; NEJM &#150; 09 June 2005<sup>14</sup>.</p>
      <p>The guidelines are collections of "truths" that would be closer to scientific excellencies, evidence of reasons for use and the probability of success &#150; class I recommendations &#150; or reasons for avoiding use and the probability of failure &#150; class III recommendations.</p>
      <p>The guidelines testify that progress in medicine is achieved by establishing "truths" with undefined validity, the infinite is the minority. Each novelty is capable of "vanquishing the on-call truth" due to acknowledged superiority, or it may even re-label the one it replaced as an untruth. Thus, there is a cycle of truthfulness in the guidelines. To parody Lewellys Barker, successor of William Osler &#150; that name again &#150; as physician-in-chief at Johns Hopkins University School of Medicine, in his observation on early 20th century technological advances (sphygmomanometers, electrocardiogram, x-ray)<sup>9</sup>: if a cardiologist were to sleep for quite some time he would wake up astounded &#150; and feeling rather disoriented &#150; by the changes in the environment.</p>
      <p>The notion of a succession of truths over time, in medicine, is closely linked to a permanent state of doubt, atavistic in physicians &#150; diagnostic hypothesis, surgical risk, guarded prognosis. Degrees of skepticism are useful drivers of advantageous replacements &#150; the pencil and eraser style of research, write and erase, erase and write, in search of the "best expression". The intention to achieve perfection, knowing it to be unachievable, is inherent to the "best evidence" concept of the guidelines. The commitment to time is promising "...<italic>the guidelines will be reviewed annually</italic>..."<sup>6</sup>.</p>
      <p>Inclusions and exclusions in accelerated remakes of the 'state-of-the-art' reinforce the notion that guidelines are advisors to those reasonably up-to-date in knowledge of the theme and qualified to apply them. The problem lies in how much we fill in &#150; or fail to fill in &#150; gaps in the guidelines with what we know &#150; or do not know &#150; and then, how much prevails of the information researched and of the complementation mentalized. Following are two illustrative examples based on the <underline>ACC/AHA 2006 Guidelines for the Management of Patients with Valvular Heart Disease</underline><sup>6</sup>. The first: <italic>"...Aortic valve replacement may be considered for asymptomatic patients with severe aortic stenosis and abnormal response to..."</italic> was downgraded from APPLICATION IS REASONABLE (CLASS IIa), to COULD BE CONSIDERED (CLASS iib), from 1998<sup>15</sup> to 2006<sup>6</sup>. There was an impact, although, in this case, slight, since all cardiologists, according to their knowledge and qualification, can have their own convictions regarding the usefulness and effectiveness of functional evaluations. The second: <italic>"...aortic balloon valvotomy might be reasonable as a bridge to surgery in hemodynamically unstable adult patients who are at high risk for valve replacement..."</italic> was downgraded in exactly the same way as the first. However, cardiologists must have already changed their concept regarding the beneficence/nonharmfulness of the method quite some time before by staying abreast of medical literature and by their own experience. In other words, anyone who had not experienced complex cases of aortic stenosis, up to August 2006, by following a guideline valid for eight years, was running the risk of following the advice of an unsuitable APPLICATION IS REASONABLE guideline. It is well worth while to think about the following phrase: "...<italic>within the context of rapid technological evolution, guidelines must be dynamic and reviewed/revised with greater frequency</italic>..."<sup>16</sup>.</p>
      <p>
        <bold>VII - Guideline reader &#150; bedside author</bold>
      </p>
      <p>Guidelines are practice, both noun and adjective. Three uses stand out:</p>
      <p>Use 1 &#150; A guide for <italic>what I should do</italic>. When faced with a clinical situation, guidelines work like a compass to orient the information to be obtained from the anamnesis, the prime signals of a physical examination, the dynamics of complementary tests, the therapeutic conduct to deal with the manifestation and at the same time benefit prolongation of life and the programming of prevention. From the moral and ethical viewpoint, they should be used preferably by those who have expertise &#150; past, tradition - in the theme "...<italic>physicians who are not familiar with the evidence that supports the recommendation are not prepared to follow the guidelines</italic>..."<sup>17</sup> Guidelines must be internalized, in the sense that they help us to add missing links to our chain of knowledge of the theme. On principle, guidelines must not overprotect us from lack of knowledge of the theme.</p>
      <p>Analogy 1A &#150; <italic>Cake recipe.</italic> Guidelines list ingredients and recommendations on how to handle them <sup>18-20</sup>. However, the actual making of a cake requires something more, and those who apply guidelines as though they were using cake mix "...<italic>tend to disregard the patient's participation in the decision.</italic>.."<sup>19</sup>, and to disregard the fact that "...<italic>uniform recommendations may ignore a patient's special needs</italic>..."<sup>20</sup>. One might say that the degree of acknowledgment of guidelines as "a monopoly of conduct" is reduced in the same proportion as the weight of another type of cake &#150; the stack of prescriptions signed and stamped by the hands of commitment and involvement at the bedside.</p>
      <p>Analogy 1B &#150; <italic>Changing a light bulb</italic>. Guidelines officialize certain obvious features that are intuitive: "...<italic>postoperative visits... for patients with valve prostheses, anamnesis, physical examinations and appropriate tests should be carried out upon the first postoperative outpatient evaluation</italic>..."<sup>6</sup>. The level of evidence is C (consensual opinion of specialists). Obviously, there is no justifying a randomized study that would sound like evaluating the usefulness and effectiveness of the sequence: get a ladder, place the ladder under the light bulb, find a new light bulb, climb up on the ladder, remove the burned-out bulb, and screw in the new bulb. No double-blind trial is suggested..., nor is there any fear that someone might suggest holding the ladder and spinning the world... The fact is that "...<italic>a well-informed and highly-trained practitioner can practice content equivalent to a guideline without ever actually having resorted or adhered to the guidelines</italic>..."<sup>20</sup>.</p>
      <p>Analogy 1C &#150; <italic>The ventriloquist's art</italic>. Guidelines speak with the voice of medical literature; physicians may speak with the voice of guidelines. Or could it be that the guidelines open physicians' mouths and the physicians say what serves their purpose? In situations of poor clinical outcome, blaming the guideline recommendation is tantamount to blaming the ventriloquist's dummy.</p>
      <p>Analogy 1D &#150; <italic>The Peter Pan effect</italic>. Guidelines, when seen merely as labels to be glued on with superficial involvement and commitment, inhibit both full accountability and the growth of clinical qualification. "... <italic>Physicians are concerned because their management of patients is increasingly worse due to a standardized and automated process</italic>..."<sup>21</sup>. Bertrand Russell (1872-1970) left this legacy: " <italic>Passive acceptance of the teacher's wisdom ... seems rational because the teacher knows more... Yet the habit of passive acceptance is a disastrous one in later life. It causes man to seek and to accept a leader, and to accept as a leader whoever is established in that position...</italic>".</p>
      <p>Analogy 1E &#150; <italic>The magic flute behavior.</italic> Guidelines may be the sound that "eliminates rats", or the sound that "makes children disappear", depending on intra- and interpersonal variables. Bedside music may not be the same as the desk-side music of health care managers.</p>
      <p>Analogy 1F &#150; <italic>Chameleon effect.</italic> Guidelines must be integrated in the clinical circumstances and environmental aspects determined by the health care system. "...<italic>There is a vacuum between the scientific aspects of medicine and clinical practice.</italic>.."<sup>17</sup>. The analogy goes beyond this change-of-skin folkloric mimicry. It includes flexibility in a broader sense, with aspects of freedom &#150; we need only recall that chameleons have independent eye movement. Osler (that man again): "...<italic>educating the eyes to observe facts takes time, but it begins with the patient, continues with the patient, and ends with the patient</italic>..."</p>
      <p>Use 2 &#150; Guide for <italic>a brief overall vision of the theme</italic>. Guidelines make it easier to appreciate the submerged part of the iceberg.</p>
      <p>Use 3 &#150; Guide for <italic>delving more deeply into medical literature</italic>. Guidelines orient the choice of articles that reveal the submerged part of the iceberg.</p>
      <p>
        <bold>VIII - Nomenclature</bold>
      </p>
      <p>&#149; Scientific fact &#150; the result of scientific research. Scientific fact constitutes the largest component of the cardiological ecosystem's gross domestic product. More than "an original", it must be "a universal asset" because more than a scientific novelty, what counts is reproducibility and safety.</p>
      <p>&#149; Clinical fact &#150; occurrence whose existence can be indisputably verified; many could dispense with research. What follows was published in the <underline>British Medical Journal</underline><sup>22</sup>, with the following summary. <italic><underline>Objective</underline></italic>: to determine if parachutes are effective in preventing major trauma related to gravitational challenge. <italic><underline>Structure</underline></italic>: systematic review of randomized controlled trials. <italic><underline>Data source</underline></italic>: Medline, Web of Science, Embase, Cochrane Library, Internet sites, and lists of citations. <italic><underline>Study selection</underline></italic>: studies on the use of parachutes during free fall. <italic><underline>Points of interest</underline></italic>: death or major trauma, defined as lesion with severity score&gt;15. <italic><underline>Results</underline></italic>: we were unable to identify any randomized and controlled trial on intervention with parachutes. <italic><underline>Conclusion</underline></italic>: as is the case with many interventions that aim to prevent disease, the efficacy of parachutes was not submitted to a strict evaluation by randomized controlled trials. Followers of evidence-based medicine have criticized the adoption of interventions that are evaluated exclusively by observational data. It is our opinion that benefit would be forthcoming if the more radical proponents of evidence-based medicine were to organize and participate in randomized, double-blind, placebo-controlled, crossover trials of the efficacy of the parachute.</p>
      <p>A word to the wise: "...<italic>the popular belief that only randomized controlled trials produce reliable results and that all observational trials are illusions constitutes a disservice to patient care and to the education of health professionals</italic>..."<sup>23</sup>.</p>
      <p>&#149; Evidence &#150; interpretation and qualification of scientific data is an attribute. To judgment of the scientific finding (fact) a value judgment is added. The authors conclude and publish after passing through the filter of the publishing house. Based on the data, the power of the society of the specialty, fundamented by means of a committee, analyzes the status of approximation to the truth by a mixture of <underline>SOOTHSAYING</underline> (in the sense of an asset, a value because it will come to be good for the patient), and <underline>DOGMATISM</underline> (in the sense of a truth to be offered to the patient), each portion of which, when joined in the realm of science, loses its everyday meaning &#150; not well thought of in the medical field. Humanist philosopher Andr&#233; Comte-Sponville (1952-....) defines <underline>SOOTHSAYING</underline> + <underline>DOGMATISM</underline> as <underline>UTOPIA</underline>, not in the sense of something unattainable because it is based on a concept that we judge fanciful, but in the sense of another philosophical school that sees it as something with potential to be attained because it is plausible to give the concept the benefit of the doubt.</p>
      <p>&#149;There is no "best" objective evidence &#150; there is a choice (and a degree of subjectivity is inherent to choice) that is considered to be best, under certain premises, to "reintegrate itself" at the bedside, upon each new case. Because we can disagree with the committee-certified qualification at any time, the evidence cannot be termed absolute truth. An insightful definition is: "...<italic>evidence is a status granted based on a fact; it reflects, at least in part, that this subjective and social judgment of the fact increases the probability of a given conclusion being true... thus, evidence is not merely a research datum or a fact, but the result of some interpretations that cater to social and philosophical needs</italic>..."<sup>24</sup>.</p>
      <p>&#149; Guideline &#150; a structured recommendation that stems from scientific data, "reproduced" as evidence and transcending individual limitations in the figure of a committee that aspires to drawing up excellence, the best that can possibly be hoped for, with the best evidence. A guideline constitutes a disclosure, colleague-to-colleague, stipulated and delegated to a society of specialties &#150; the most common &#150; a clinical identity, articulation of values "assured" in an <italic>a priori</italic> manner, a sort of authority franchise &#150; worthy of respect for a scientific reason, but without the sense of coercion &#150; collective, with freely granted permission to use. However, having in hand, as it were, an authorization to believe that the guideline is true, the members of the specialty society, given their due responsibilities, maintain their free will in regard to the scientific fact &#150; after all, "scientific obedience" is not mandatory. But there is vigilance, "... <italic>once the guideline is adopted by the health care service, all physicians are expected to comply with it</italic>..."<sup>25</sup>, and there are ways of thinking, such as "...<italic>without due reason, deviation from compliance should lead to corrective action..</italic>." or "...<italic>latitude for exercising professional judgment.</italic>.." or "... <italic>replacing the vague language of "standards of care" with explicit contractual terminology, such as "expectations of performance" and incorporating guidelines selected and adjusted directly to physicians' routine could result in equilibrium between public concern regarding the quality of health care and physicians' interest in a fair performance evaluation review carried out by other physicians to ensure quality health care in the institution (peer review)..."</italic> <sup>25</sup>.</p>
      <p>The strength and value of the guidelines for consensual treatment lie in the best possible approximation to usefulness and effectiveness, in the critique and hierarchy of options, in scientific updating, and clinical clarity as opposed to the contradictions of medical literature. Stratifying the recommendations into critical and non-critical seems to be useful in the realm of the cost-risk-benefit ratio<sup>26</sup>.</p>
      <p>A relevant aspect is the cultural influence, most commonly of the language used to decode the message. How is it possible to properly grasp and apply "<italic>is reasonable, may be considered, might be considered",</italic> and "translate" it at the bedside into "<italic>I'm going to do it &amp; I'm not going to do it, I'll probably do it &amp; I'll probably not do it"?</italic></p>
      <p>Guidelines do not cause physicians to exist; it is physicians who lend existence to the guidelines. And that existence comes to take part in the physician's professional life in such a manner that it becomes the goose that lays the golden eggs, but fails to reveal which came first. Guidelines are not exactly an exaltation to science, they are linked to the state-of-the-art in medicine and, because of the "little bit more" that they provide, they require clinical reading. In other words, guidelines do not constitute a manual for those who have no clinical vision, or an interpreter for those who are deaf and dumb in regard to their patients. Guidelines are not exactly an "out" for building up a stereotype professional image. Triangles, due to the interdependence of their vertices, help one to perceive the multiple facets of what might be considered admissible as a humane attitude in regard to disease<sup>4</sup>: there is that facet resulting from the "dialogue" between the medical recommendation (guideline) and the patient's preferences and perceptions; there is that resulting from the "dialogue" between the medical recommendation (guideline) and the physician's ethical, moral, and legal responsibilities; and there is that resulting from the "dialogue" between the patient's preferences and perceptions and the physician's ethical, moral, and legal responsibilities. Each "dialogue" has its "evidence" regarding beneficence/nonharmfulness/autonomy and thus "...<italic>dealing with patients should be seen more as cooperation of a team of specialists (doctor, nurse, lab personnel, patient, family, etc...) than as a physician shooting a magic bullet of authoritarian competence... protecting the freedom and equality of this cooperation would be the prime clinical objective on both individual and institutional levels..."</italic><sup>27</sup>.</p>
      <p>&#149; Conflicts of interest &#150; conditions in which judgment of a primary interest has the potential to be influenced in an undue fashion by a secondary interest that may be linked to an economic, or even personal, social, or scientific aspect<sup>28</sup>.</p>
      <p>&#149; Selected publication &#150; article in a scientific journal that has passed the quality control of the guideline committee and was included in the references. It represents certification as an asset of scientific value, and in our specialty, is to be held under the guardianship of the ecosystem of cardiology. Having been examined and selected to be "part of such a blessedly select group" is the high point of a publication's <italic>curriculum</italic> &#150; the feeling of winning an Oscar for the best script or a Nobel Prize for medical literature. Such an honor broadens the definition of "... <italic>primarily, a means of scientific communication, information for colleagues, proof of academic competence, a criterion for academic promotion, an argument for funding, and a fundamental prestige-enhancing factor for universities.</italic>.."<sup>12</sup>. We must also keep in mind the academic maxim, "publish or perish".</p>
      <p>Every article is a primary source as long as it is in the hands of its author(s), a stage that includes the publication of data and interpretation of that data by the person(s) who obtained it. The community's reading of the article is a re-interpretation &#150; an interpretation of the interpretation actually contained in the original, or interpretation of the non-interpretation of data which, after having been classified and awarded merit, can become a secondary source in a revision, in an update, in a view point, in discussion about some similar article, or in a guideline. As is usually the case with a good book, it is the first paragraph &#150; the primary source &#150; and the last paragraph &#150; the reproducibility &#150; that foretell the quality of a guideline text.</p>
      <p>&#149; The aspects of colloquial language &#150; It would be fitting to say "<italic>no scientific data is available</italic>", but it would not be fitting to say "<italic>no evidence is available</italic>". Availability refers to the research that generates data and not to the interpretation of that data, because any data, if available, can be qualified as evidence &#150; good or bad, positive or negative. In like fashion, it would not be fitting to say "<italic>no guideline is available</italic>", unless that is literally the case, in other words, that no guideline was drawn up by a committee. It would not be fitting to state that no scientific data capable of serving as a fundament and guide exist. Scientific fact is not born as a guideline. First it must become a source; second, be analyzed as evidence; third, acquire a new form &#150; that of acceptance or refusal of its recommendation status.</p>
      <p>
        <bold>IX - Guidelines and moral commitment</bold>
      </p>
      <p>A guideline is not an eleventh commandment. We might see it as a compact ideal of scientific data and of the value (evidence) of those data, or as a guide to what might be missing in our treatment of the patient. If we were to see it as an ideal, we would be admitting duty and subjection, but if we see it as a guide, we would be doing away with the submission.</p>
      <p>What we might lack could be the objectivity of a pharmacological effect, or it could be the subjectivity of the patient's perceptions and preferences. One can deduce that although a guideline may not complete a bedside ordination &#150; when, for example, a patient favors emotional reasoning to the detriment of intellectual fundamentation &#150; it can certainly arouse awareness of what may not have been thought out and point out possible strategies. After all, if the bedside-care concept did not exist, why would we have guidelines?</p>
      <p>But that which is capable of completing the classification nominates itself as the spokesperson of a scientific consortium that offers a product of continued education with global raw material (we are doctors without borders), produced, packaged, and labeled in certain communities. The right to one sole quota for all harks back to twenty-five centuries ago, acquired and eternalized in the rationale of the Hippocratic Oath: "...<italic>to teach them this art - if they desire to learn it... to give a share of precepts and oral instruction and all the other learning</italic>...". One deduces that guidelines have roots in an archetypal fraternity of medicine.</p>
      <p>Guidelines imply awareness of the data's legitimacy, reasoning as to their reproducibility and their honesty of purpose regarding what may or may not be recommendable. One deduces that guidelines are an "open system" that turns on an axis of renewed reflection on contradictory probabilities and the Aristotelian classification of agonist and antagonist trends that coexist in the field of medical literature.</p>
      <p>Guidelines focalize strong moral commitment &#150; in their elaboration, in view of the data selection process, and in their application, since the intention to use what is a diffuse asset of medicine ("the best evidence" in literature) must not clash with what would in fact be good for the patient, which is specific ("the best evidence" at the bedside) &#150; in accordance with what is implied in the beneficence/nonharmfulness binomial.</p>
      <p>One concept that knocks on door after door of medical scholars from the earliest days of their training is that technical availability is not a synonym of clinical recommendation &#150; after graduating it is also useful to knock on the door of one physician after the other. Having a valve prosthesis still in its original packaging, presumption of "<italic>best hemodynamics</italic>", is not, in itself, an argument for replacing an abnormal native valve, knowingly in "<italic>worst hemodynamics</italic>". And not having something available is not an antonym &#150; the lack of expertise to perform a mitral balloon valvuloplasty does not eliminate that procedure from the list of options to be commented by the physician who practices autonomy with a patient suffering from mitral stenosis. One might add that the relevance of the moral aspects of a decision is proportional to the degree of risk of each option to attain benefit and/or avoid harmfulness. One can deduce that the effort to achieve a communion of interests in the doctor-patient relationship is an undebatable stimulus for collective "best evidence" in literature to adjust itself to individualized "best evidence" at the bedside.</p>
      <p>Guidelines constitute a reciprocity agreement among colleagues. By means of a tacit agreement of wills, a physician furnishes a clinical situation and the guideline committee offers a recommendation certified as reliable. This is in compliance with "...<italic>formulation of a clear patient-based clinical issue... search for relevant articles in medical literature... critical evaluation of the evidence... selection of the best evidence for the clinical decision... linking of the evidence with clinical experience, knowledge, and practice... implementation of the useful findings in clinical practice.</italic>.."<sup>29</sup> Be it a convention "...<italic>echocardiography is recommended annually for patients with asymptomatic mitral stenosis and mitral valve area &gt; 1.5 cm&#178;..."<sup>6</sup>, or an imperative, "....mitral balloon valvotomy is not recommended in patients with mild mitral stenosis</italic>..."<sup>6</sup>, there is a capital commitment related to the Hippocratic "...<italic>to no one shall I give advice that induces loss</italic>..." One can deduce that guidelines incorporate a symbolism of service rendered with zeal and prudence.</p>
      <p>It just so happens that because this process involves an exchange, it requires an endorsement: we must verify if we, putting ourselves in the place of the guideline committee and having total autonomy, would apply the same process that resulted in the final product that we are accepting &#150; "we" in this case referring to any cardiologist who is familiar with heart disease, whether active in academic life or not. The answer is complex. One can deduce that it must be broken down.</p>
      <p>During the phase of panning for scientific data, we could explore the same veins of the 'literature mine' and make identical selection and classification of nuggets &#150; restrictions are not usually of an intellectual nature, they are on duty on days that have "only" 24 hours. We can conclude that, conceptually, this first half of the answer has a good chance of being '<italic>yes, we would use an analogous process'</italic>.</p>
      <p>The answer in the phase of certifying scientific data as evidence &#150; where those data that are supposedly closest to the truth (useful and effective intervention) are chosen &#150; has a good chance of being ambiguous. The tasks of ranking evidence and making the "best evidence" hegemonic are subject to subjective judgment and therefore far from being neutral. One can deduce that giving a 'yes' in this second part is associated with a high degree of transfer of trust to the patron committee.</p>
      <p>In the case of a double 'yes', approval is complete and we project in it the outlook of the best result. We feel that a result that may differ from what was expected would not be due to malpractice. One of the angles of the concept of guidelines is exactly to shield, as far as possible, from imprudence &#150; because by following the guidelines, we would not be doing something that the majority does not do either &#150; as well as from negligence &#150; because we would not be failing to do something that the majority does &#150; so the guidelines would represent the guardian of "...<italic>acting in the benefit of the patient</italic>..." (Art. 6 of the Code of Medical Ethics). But there is the other side of the bedside: adherence to a guideline can become imprudent when its beneficence is not passed through the filter of non-harmfulness. Here is an example in valve treatment. Let us suppose that there has been adhesion to the following recommendation: " a bioprosthesis is indicated for mitral valve replacement in a patient who will not receive anticoagulation, is incapable of receiving anticoagulation, or has a clear contraindication to anticoagulation therapy<strike><italic>.</italic></strike> .." (class I recommendation in selection of mitral prosthesis)<sup>6</sup>. Immediately following implantation of the selected bioprosthesis because the patient does not have a profile for anticoagulation, care must be taken to avoid adhering to "... <italic>during the first three months after replacing the mitral with a bioprosthesis, the use of warfarin is reasonable</italic>..." (class IIa recommendation for antithrombotic therapy in patients with prosthetic heart valves)<sup>6</sup>. One deduces that standardization by guideline, as an ideology, must have interdependencies legitimized as being of real interest to the community.</p>
      <p>To be well suited to the sensed result, guidelines should not be seen as bedside "package inserts" or as "cheat sheets" for examining patients. For those who have not read a bare minimum of articles mentioned in the references, guidelines are little more than caricatures of the available literature. In fact, when guidelines are not read as the revelation of secrets, they contribute to professional success in that they represent a second reading in accordance with the concept that "...<italic>Curiously enough, one cannot read a book: one can only reread it</italic>..." (Wladimir Nabokov, 1899-1977). Nabokov teaches us that the first reading leaves a sediment, a mark of the effort to understand, and that when we are faced with the need, we recover the stored recollection, a sort of mental <italic>search-copy-paste</italic> that causes a second, more immediatist reading &#150; a second look at the literature just to make sure.</p>
      <p>It is essential that physicians who intend to hitch a ride on the guidelines do not do so without first checking the itinerary at the ticket booth of experience. At this point, "doubly informed" and clarified by their own clinical sensibility, they can fulfill one more of Osler's words of wisdom (one more and he will be a co-author) "...<italic>Lack of systematic personal training....leads to... misapplication</italic> " For everything else we have the "credit card guidelines" that even admit an effort to develop "...<italic>systems of guidelines interpretable by computers and targeting non-specialists.</italic>.."<sup>30</sup> It brings to mind pioneer scientific publications, centuries ago, which were anagrams that preserved the credit of authorship, but were intelligible only to those who shared the password.</p>
      <p>It hardly seems ethical to consider ourselves multispecialized simply because we have access to a collection of guidelines. Contrary to what many may believe, one can deduce that guidelines are not meant to be used as Personal Protective Equipment (PPE) by those who are not intimate with the subject. Guidelines may even give us a feeling of being free and protected, but using "gloves and goggles" without a proper initiation ritual hampers our sensitivity to light touch and visual acuity, and therefore run the risk of protected freedom in a labyrinth. Once caught up in that labyrinth, we will have to face a series of realities with which we are not familiar and we will soon start contradicting ourselves. It is something like "not confirming tomorrow the untruth that you uttered today" because those who are unable to tell a story based on their own experience &#150; the more kaleidoscopic, the more they tend to base their practice on theory &#150; will probably not feel at ease to play the role of the character that "recites guidelines" at the bedside with the authenticity of an expert's opinion. In situations far from the clinical interrelations of our daily routine, applying guidelines like cake recipes &#150; other than in cases of "extreme isolation from colleagues" when the guidelines become lifesavers &#150; ethically speaking, constitutes a borderline case of Munchausen's syndrome. Hippocrates would say to Osler: They forgot that they swore "...<italic>I will follow that system of regimen, which, according to my ability and judgment, I consider for the benefit of my patients..."</italic> &#150; and Osler would reply: <italic>"...lack of systematic training is apt to place us, in the eyes of the public, on a level with empirics and quacks</italic>..."</p>
      <p>If some fact is interpreted as <italic>the most</italic> [applicable], in complementation there must be another interpreted as <italic>the least</italic>, but not necessarily inapplicable. Likewise, if there is <italic>best</italic> evidence, we can assume that there is also <italic>worst</italic>, but not necessarily bad. Comparisons are made in relation to non-absolute references, not like when one uses a placebo. Thus, evidence should not admit to any appreciation other than as the representation of the probability &#150; and not the veracity &#150; that recommends (class I) or discourages (class III). In other words, the dictionary of biostatistics respects alphabetical order: probability (evidence closest to success) always precedes veracity (proven success).</p>
      <p>British authors Lockey, Crewdson, and Davies of the <underline>London Helicopter Emergency Medical Service</underline><sup>31</sup> analyzed a highly complex biopsychosocial situation &#150; cardiac arrest. They observed that 19% (13 of 68) of the survivors of post-traumatic cardiac arrest &#150; a situation that carries a dismal prognosis in which many consider resuscitation to be futile &#150; contradicted recently published guidelines. The conclusion was: "...<italic>adherence to the guidelines may rule out a number of patients with chances of survival</italic>..."</p>
      <p>And what happens with the "less-than-best evidence"? What do those data represent that, making up the gross domestic product of cardiology and far from being scientific trash, acquired the status of a lower grade of evidence on the scale of scientific value in accordance with the agreed criteria? They make up a sort of vice-evidence of the "best" evidence. This being the case, there is no denying their legitimacy to take first place when the lead-evidence is barred. A strong argument in favor of the view that "less than the best evidence" is not the antithesis of beneficence is that we know how improbable it is that all patients with the same disease will always require the same prescription<sup>32</sup>. One can deduce that recommendations, both classes I and II, can determine similar results at the bedside regardless of the degree of probability we may sense in the scientific source.</p>
      <p>This raises the question: The "best" evidence for whom? If it is for the guideline committee, it is insufficient. If it is for the academic satisfaction of a pathophysiological concept, it is insufficient. If it is for the administrative view of recomposing the cost-benefit ratio, it is insufficient. If it is for the physician who will apply it, it is insufficient. If it is for the beneficence/nonharmfulness following (the patient's informed consent, it is sufficient. One can deduce that the guarantor feedback "<italic>guideline evidence</italic>" &#150; "<italic>bedside result</italic>" depends on the multiplicity of case series because "...<italic>observation data can cooperate with the randomized trials to confirm or not if the same efficiency obtained under controlled conditions occurs in routine practice..."</italic> <sup>33</sup><italic>,</italic> curiously enough, an inferior scientific method in the concept of evidence. "On-call truths" dealing with prevention have notorious differences in relation to the timing for appreciation of the usefulness and efficacy as compared to those dealing with therapeutics. Therapeutics feature the proposition &#150; opening the mitral valve by an intervention in view of due to acute pulmonary edema; the execution &#150; obtaining a mitral valve area of 2.1 cm&#178; by means of balloon valvuloplasty; and the result &#150; functional class I, in the short term. As far as clinical epidemiology and biostatistics and their effects in Evidence-Based Medicine are concerned, the conceptual beneficial effects of a reduction (qualitative and quantitative) in exposure of the hypercholesterolemia are less explicit in the real life history of the "nearly ill". This finding, twenty years after the catch phrase "...<italic>a dimmer reduces the light when we leave the plasma compartment and enter the arterial wall</italic>..."<sup>34</sup>, brings to mind the teachings of epidemiologist Geoffrey Rose, famous for formulating that the concept ill x non-ill (medicate or observe) is a dichotomic clinical logic that does not apply to the populational realm where there is a subclinical continuum: <italic>"...in a mass population policy, a small benefit for each individual can become unexpectedly large</italic>..."<sup>35</sup>, and warns that the nature of beneficence of the change in habits cannot be seen separate from "...<italic>disease is a restraint applied to daily routine... medicine must insert itself in the context and values of the restraints of each life</italic>..."<sup>36</sup>.</p>
      <p>A paradox with ethical implications seems to be taking shape: "...<italic>according to evidence-based medicine there is no acceptable evidence that evidence-based medicine is a way to the truth... that randomization, when there is a discrepancy with some other method, is a belief, not evidence. After all, divergence between studies is the rule, not the exception, if not, if everything were identical, why would there be any need for systematic review?"<sup>5</sup>.</italic> Remember that one of the most common expressions in cardiologic literature is "conflicting results", justification for new research projects. One can deduce that it is valid to examine the context of the guidelines from the point of view of current medical culture, resorting to a metonym linked to Gaius Maecenas who was a Roman citizen of the imperial era who helped the autocracy satisfy the interests of the aristocracy: do guidelines, given the determination to gather a valuable collection, correspond to the Maecenas of the state of the art in the ecosystem of cardiology?</p>
      <p>
        <bold>X - "Guideline-Centrism": the current era's cultural phenomenon</bold>
      </p>
      <p>Guidelines immigrated to the Brazilian ecosystem of cardiology about 15 years ago, and upon their arrival demonstrated international competence for a <italic>vini, vidi, vince</italic> attitude in regard to selecting &amp; interpreting &amp; organizing.</p>
      <p>They never failed to recall the difficulties represented by the notion that extracting a finding from the "scientific recipient" was no guarantee of its subsequent smooth insertion &#150; now in the form of evidence &#150; in the "recipient patient" due to: a) a not very realistic &#150; unskillful &#150; bedside vision "...<italic>the proclaimed hemodynamic superiority of a stentless bioprosthesis does not necessarily translate into best clinical evidence</italic>..." (37); b) ambiguity of the recommendation; c) the lack of tips on application; d) the lack of encouragement in regard to educating the patient.</p>
      <p>The guideline's identity was registered in the immigration form: <italic>a specialized committee's recommendation, based on qualified scientific data, for zeal and prudence in the management of specific clinical circumstances</italic>. The admission opinion was: <italic>[guidelines] should contribute toward cultural improvement, divert from medical judgment any ungranted trust, and lend structured and responsible support</italic>.</p>
      <p>Adherence to the guidelines came face-to-face with the "teflon effect", while "...<italic>some practitioners found the guidelines useful, others described them as anti-intelligent</italic>..." (20). An atmosphere of postural ambivalence led to something like a 'good past conduct certificate' issued by experience vs. a 'good past conduct certificate' issued by a committee.</p>
      <p>And why is that? Because clinical habits were always strong, backfed by the fact that practitioners feel confident about what they do and protected by a feeling of veneration toward antiquity, as Professor D&#233;court (38) reminds us; because dealing with change depends on each individual's rhythm; because there is always a climate for a fantasy version; because people always fear impositions &#150; realities worked out with a high degree of freedom could dictate standards and then, in a climate of restriction of the degree of freedom, every standard would dictate reality. Concerns in regard to ethical attitudes are obvious: "...<italic>ethics should value the use of the best available in medical research, but the ethics of an attitude cannot be limited to the best medical evidence</italic>..." (39).</p>
      <p>Fears? That a movement intended to sanitize the impurities of medical literature might serve as a pretext for authoritarian interference of the classes of evidence in the Hippocratic and Oslerian traditions of dealing with conflict, which could thus lead to centralized control in power relations of the ecosystem of cardiology and, because of the deformation of historic roots or distortion of realities, bring about a consequent threat of ostracism of conventional medicine; that freezing knowledge in a guideline could depreciate certain skills classically considered essential to being a physician, such as skepticism with its permanent doubting attitude, or self-criticism and its lessons; that exalting the superiority of guidelines would be to depreciate experience itself, which would depreciate truth, which in turn would depreciate a dream, something like the feeling that physicians would disappear, replaced by professionals who medicate.</p>
      <p>Benefits? Anti-imprudence &amp; anti-malpractice, useful when making a clinical decision; a less abstract connection with secular principles; individual or group teaching; and, a guide for costs. In other words, a favorable cost-risk-benefit equation.</p>
      <p>Harmfulness? Instilling a conformist and complacent attitude; going counter to awareness of inductive/deductive reasoning in the practice of medicine; serving as an instrument of "sub-clinical" intentions to limit professional practice; and representing a sword more than a shield (40) in the case of law suits.</p>
      <p>Prospects? That selection, analysis, construction, and incorporation would increasingly gain receptivity and that guidelines would be appreciated as weavers of clinical strategies; that coexistence might gradually lead to a softening of the "orders to fulfill" image, because this image carries with it the assumption that a state of disease should &#150; or could &#150; only be controlled, partially or completely, according to the reason of its recommendations, and thus, all the rest could be iatrogenic. And we must not assume that guidelines "...<italic>that fail to solve all the uncertainties of habitual medical practice and should be seen merely as strategies aimed to improve the quality of health care</italic>..." (41) are an active immunization against iatrogenesis, since guidelines building up antibodies against malpractice by means of the knowledge they impart is one thing, and another thing is how far undue attitudes toward patients can go to multiply antigens.</p>
      <p>Based as they are on the ideology of Evidence Based Medicine, the guidelines:</p>
      <p>1. Progressively broke through "mental frontiers". Here and there they managed to overcome a climate of indifference and the image of second-hand products &#150; in the form of reviews &#150; and expanded on an ascending course: scientific fact-evidence-clinical result. They won over sympathizers of the concept that guidelines are assets and that approving and applying them is a joyful obligation. Guidelines encrusted themselves like barnacles on the clinical consciousness and came to influence the generation of physicians with higher medical association numbers as of their internships &#150; that generation that never had any tailor-made clothes and, accustomed as they are to "off-the-rack" (<italic>pr&#234;t-&#224;-porter</italic>) clothing, must be warned against "already-thought-out" (<italic>pr&#234;t-&#224;-penser</italic>) guidelines.</p>
      <p>Nevertheless, the guidelines aroused adversaries of this "moral duty" attitude &#150; adversaries who attributed a mystic character to them &#150; more "...<italic>faith in a dogma that confuses evidence with truth...</italic>" (12) than reason by means of proof. Even taking into account those who usually manifest a compulsively independent attitude in regard to prevailing opinion, it seems that rejection stems from a pretentious exaltation of the self-evaluation of superiority of the adjective "Evidence-Based" as compared to conventional &#150; and perhaps "unadjectivable" &#150; medicine, since wisdom is merely wisdom.</p>
      <p>In the course of these last 15 years, medical literature has collected countless tales of grief in regard to underutilization of the guidelines "...<italic>they're more preached than practiced</italic>..." (20) By the tone of many articles, suggestions for increasing the degree of compliance (42-44) achieved only modest results. To judge by the results of the many pro-adhesion juggling acts, a safety net under the trapeze is still essential, and a very well anchored net at that.</p>
      <p>A certain "Official Gazette" nature of scientific literature of the ecosystem of cardiology raises controversy. The Norwegian government (32), for example, considered simply mailing the guidelines to physicians insufficient to change prescription habits and reduce costs. A proactive attitude featuring organized visits to physicians was frustrating: despite this personalized promotion, 83% of the patients of the physicians visited failed to receive thiazides for hypertension in accordance with the guidelines. Even so, this result was better than the 89% of the control group that received the guidelines by mail and simply trashed the envelope unopened;</p>
      <p>2. Highlighted by praise to advances in science and technology and by the fear of vulnerabilities stemming from them, the guidelines came to be seen as an avant-garde value &#150; an ever safer future &#150; and safeguard of a present more scientific than the past;</p>
      <p>3. Incorporated in the image of modernity and referenced on progress, the guidelines optimized themselves as tutors, those that know what is best, highlighting from the protocol of intentions: <italic>unquestionable reliability in their elaboration, sagacious interpretation of the content of the references, and objective contribution to people's health;</italic></p>
      <p>4. The guidelines legitimized themselves as partners, advisors, and teachers, with altruism and confidence. Databases facilitated communication: "...<italic><underline>The Guidelines Finder</underline> of <underline>The National Library for Health</underline> provides an index with more than 1500 guidelines, updated weekly and featuring easy download</italic>..." (45).</p>
      <p>5. The intelligentsia adopted them with the spontaneity of critical post-reflection, but also in other forms that, on the contrary, raise critical reflections which, in the name of conflicts of interests, managed to gather sponsors and promoters by recommending the collection of "a practical encyclopedia".;</p>
      <p>6. They assimilated the "good tree-good fruit" concept and articulated themselves with both bedside decisions &#150; tree by tree &#150; and health care manager desk-side decisions &#150; the forest;</p>
      <p>7. They took care to present themselves as clinically friendly &#150; to ease the clinical encounter &#150; and scientifically concise &#150; to provide re-encounters in the midst of the labyrinths of medical literature;</p>
      <p>8. They promoted a curricular remodeling with the highlight on evidence (interpreted data);</p>
      <p>9. They filled gaps in the university training space and in the time for professional updating, encouraged capacities for a next conscious step, and catalyzed interdisciplinarity. As a point of honor, they made an effort to make very clear what is evidence and what is opinion as the basis for giving answers at the bedside;</p>
      <p>10. They were harshly criticized &#150; indirectly &#150; for critical vigilance over bias in the support base, in regard to: changes in research in the course of its execution, arbitrariness of endpoints; discrepancies between statistical and clinical meaning "...<italic>statistical meaning must not be confused with clinical importance... biological pertinence, the test of the power of theoretic consideration and the force of correlated evidence are more important than the value of p... the erroneous idea that one sole number can capture both delayed effects of an experiment and the meaning of one sole result..."</italic><sup>46</sup>; non-publication of unfavorable results; the effects of polypharmacy, and conflicts of interests<sup>47</sup>. They were unable to eliminate the reductionist impression of a certain "magical realism" &#150; class I x class III &#150; of well imposed occultism &#150; class IIa x class IIb &#150; and even of "canned" medical literature.</p>
      <p>
        <bold>Potential Conflict of Interest</bold>
      </p>
      <p>No potential conflict of interest relevant to this article was reported.</p>
      <p>
        <bold>Sources of Funding</bold>
      </p>
      <p>There were no external funding sources for this study.</p>
      <p>
        <bold>Study Association</bold>
      </p>
      <p>This study is not associated with any graduation program.</p>
      <p>
        <bold>References</bold>
      </p>
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      <p>3. Arendt H. Entre o passado e o futuro. S&#227;o Paulo: Editora Perspectiva; 1968.</p>
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      <p>7. ACC/AHA/ESC 2006 guidelines for management of patients with ventricular arrhythmias and the prevention of sudden cardiac death: a report of the American College of Cardiology/American Heart Association Task Force and the European Society of Cardiology Committee for Practice Guidelines (Writing Committee to Develop Guidelines for Management of Patients With Ventricular Arrhythmias and the Prevention of Sudden Cardiac Death). J Am Coll Cardiol. 2006; 48: e247-346.</p>
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          <label>
            <bold>Mailing address:</bold>
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          <p> Max Grinberg</p>
          <p> InCor - Av. Dr. En&#233;as de Carvalho Aguiar, 44</p>
          <p> - 05403-000 - S&#227;o Paulo, SP - Brazil</p>
          <p> E-mail: </p>
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      </p>
      <p> Manuscript received April 25, 2007; Revised manuscript received May 10, 2007; Accepted May 30, 2007.</p>
      <p>
        <bold>VI - Verdade, uma busca sem fim</bold>
      </p>
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