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        <journal-title>Arquivos Brasileiros de Cardiologia</journal-title>
        <abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Arq. Bras. Cardiol.</abbrev-journal-title>
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      <issn pub-type="epub">1678-4170</issn>
      <publisher>
        <publisher-name>Sociedade Brasileira de Cardiologia - SBC</publisher-name>
        <publisher-loc>S&#227;o Paulo, SP, Brazil</publisher-loc>
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      <article-id pub-id-type="publisher-id" specific-use="scielo-v3">X7KTFPrvKGfNyXhXXm8RFLd</article-id>
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      <article-id pub-id-type="publisher-id" specific-use="scielo-v2">S0066-782X2007000100018</article-id>
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      <article-id pub-id-type="doi">10.1590/S0066-782X2007000100018</article-id>
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        <subj-group subj-group-type="heading">
          <subject>Correla&#231;&#227;o Anatomocl&#237;nica</subject>
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        <article-title>Caso 1/2007: enterorragia e choque em mulher de 69 anos portadora de estenose mitral reum&#225;tica com fibrila&#231;&#227;o atrial cr&#244;nica</article-title>
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          <trans-title>Case 1/2007: enterorrhagia and shock in a 69 year-old woman with rheumatic mitral stenosis and chronic atrial fibrillation</trans-title>
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            <surname>Nunes</surname>
            <given-names>Rafael Amorim Belo</given-names>
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            <surname>Benvenuti</surname>
            <given-names>Luiz Alberto</given-names>
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          <named-content content-type="city">S&#227;o Paulo</named-content>
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        <institution content-type="orgname">USP</institution>
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        <institution content-type="orgdiv2">Hospital das Cl&#237;nicas</institution>
      </aff>
      <pub-date date-type="collection" publication-format="electronic">
        <month>01</month>
        <year>2007</year>
      </pub-date>
      <volume>88</volume>
      <issue>1</issue>
      <fpage>110</fpage>
      <lpage>114</lpage>
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          <license-p>This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.</license-p>
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        <day>07</day>
        <month>03</month>
        <year>2007</year>
      </pub-date>
    </article-meta>
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  <body>
    <p>
      <bold>CORRELA&#199;&#195;O ANATOMOCL&#205;NICA</bold>
    </p>
    <p>Caso 1/2007 - Enterorragia e choque em mulher de 69 anos portadora de estenose mitral reum&#225;tica com fibrila&#231;&#227;o atrial cr&#244;nica</p>
    <p>
      <bold>Case 1/2007 - Enterorrhagia and shock in a 69 year-old woman with rheumatic mitral stenosis and chronic atrial fibrillation</bold>
    </p>
    <p>
      <bold>Rafael Amorim Belo Nunes; Luiz Alberto Benvenuti</bold>
    </p>
    <p> Instituto do Cora&#231;&#227;o do Hospital das Cl&#237;nicas &#150; FMUSP - S&#227;o Paulo, SP</p>
    <p>
      <xref ref-type="corresp" rid="end">Correspond&#234;ncia</xref>
    </p>
    <p><bold>Palavras-chave:</bold> aterosclerose sist&#234;mica, enterorragia, estenose mitral reum&#225;tica, fibrila&#231;&#227;o atrial cr&#244;nica.</p>
    <p>Mulher de 69 anos de idade, portadora de estenose da valva mitral de etiologia reum&#225;tica, procurou atendimento m&#233;dico por dispepsia e enterorragia.</p>
    <p>Os sintomas se iniciaram aos 37 anos de idade, quando apresentou dispn&#233;ia rapidamente progressiva at&#233; ocorrer em repouso. Nessa ocasi&#227;o foi feito o diagn&#243;stico de estenose da valva mitral, tendo sido medicada com digital e diur&#233;tico, com melhora do quadro. Aos 40 anos de idade, foi submetida a comissurotomia mitral (abril/1972). </p>
    <p>Evoluiu sem sintomas por 14 anos, fazendo seguimento no Hospital das Cl&#237;nicas desde o quinto ano ap&#243;s a cirurgia. O exame f&#237;sico do seu primeiro atendimento revelou freq&#252;&#234;ncia card&#237;aca 56 bpm e press&#227;o arterial 110x70 mmHg e hiperfonese de primeira bulha em &#225;rea mitral. O eletrocardiograma era normal.</p>
    <p>Ap&#243;s 14 anos, voltou a apresentar dispn&#233;ia intensa, que a levou a procurar atendimento m&#233;dico de emerg&#234;ncia (1986). Foi diagnosticada hipertens&#227;o arterial (press&#227;o arterial 180x130 mmHg). O ecocardiograma (24/7/86) demonstrou fus&#227;o comissural sem estenose mitral (<xref ref-type="table" rid="tab01">tab. 1</xref>). No final desse ano (outubro/1986), apresentou hemiparesia direita que durou horas. O eletrocardiograma revelou fibrila&#231;&#227;o atrial. </p>
    <table-wrap id="tab01">
      <graphic xlink:href="1678-4170-abc-88-01-0110-00018-gt01.jpg"/></table-wrap>
    <p>Foi feito o diagn&#243;stico de acidente vascular cerebral e iniciado tratamento cr&#244;nico com varfarina. Ap&#243;s o epis&#243;dio inicial de dispn&#233;ia, fazia uso de hidroclorotiazida e amilorida (50 mg/5 mg), 0,25 mg digoxina e 2,5 mg de varfarina, e apresentava dispn&#233;ia aos esfor&#231;os moderados.</p>
    <p>Em 1993, queixou-se de dores articulares em m&#227;os e p&#233;s, dores no t&#243;rax e dor lombar. A avalia&#231;&#227;o reumatol&#243;gica na ocasi&#227;o incluiu a pesquisa de anticorpos antinucleares e do fator reumat&#243;ide, revelando-se negativa. Foram feitos os diagn&#243;sticos de dor de etiologia miofascial e artrite de etiologia a ser esclarecida. </p>
    <p>Oito anos ap&#243;s o primeiro epis&#243;dio, apresentou novamente hemiparesia direita transit&#243;ria, que regrediu em horas (abril/1994). Foi ajustada a medica&#231;&#227;o.</p>
    <p>Cerca de um ano ap&#243;s, em investiga&#231;&#227;o para perda de peso (1995), foi feito o diagn&#243;stico de diabete melito (1995) e inicialmente tratada com sulfonilur&#233;ia, e depois adicionada insulina NPH. </p>
    <p>Aos 62 anos de idade, queixou-se de dor precordial e piora da dispn&#233;ia. O exame f&#237;sico n&#227;o mostrou informa&#231;&#245;es adicionais. O eletrocardiograma (5/7/99) revelou fibrila&#231;&#227;o atrial, freq&#252;&#234;ncia card&#237;aca de 130 bpm; baixa voltagem dos complexos QRS no plano frontal, S&#194;QRS 0&#176; para tr&#225;s, sinais indiretos de sobrecarga atrial direita (sinal de Pe&#241;aloza- Tranchesi) e altera&#231;&#245;es difusas de repolariza&#231;&#227;o ventricular (<xref ref-type="fig" rid="fig01">fig. 1</xref>).</p>
    <fig id="fig01">
      <graphic xlink:href="1678-4170-abc-88-01-0110-00018-gf01.jpg"/></fig>
    <p>Os exames laboratoriais (agosto/99) revelaram 13,7 g/dl de hemoglobina, hemat&#243;crito 41%, 0,8 mg/dl de creatinina, glicemia 156 mg/dl, colesterol total de 198 mg/dl, HDL-colesterol de 52 mg/dl, LDL-colesterol de 129 mg/dl e triglic&#233;rides de 85 mg/dl.</p>
    <p>Foi submetida a cateterismo card&#237;aco que n&#227;o demonstrou gradiente entre a press&#227;o de oclus&#227;o pulmonar e a press&#227;o diast&#243;lica final de ventr&#237;culo esquerdo (<xref ref-type="table" rid="tab02">tab. 2</xref>). A cineangiocoronariografia revelou art&#233;rias coron&#225;rias sem les&#245;es obstrutivas, ventr&#237;culo esquerdo com movimenta&#231;&#227;o normal na ventriculografia. </p>
    <table-wrap id="tab02">
      <graphic xlink:href="1678-4170-abc-88-01-0110-00018-gt02.jpg"/></table-wrap>
    <p>A medica&#231;&#227;o foi ajustada para 50 mg de atenolol, 0,25 mg de digoxina, associa&#231;&#227;o hidroclorotiazida/amilorida (50/5 mg), 5,125 mg de varfarina, e insulina NPH 27 unidades pela manh&#227; e 27 unidades &#224; noite. </p>
    <p>Dois anos mais tarde, houve piora da dispn&#233;ia, que passou a ser desencadeada pelos m&#237;nimos esfor&#231;os (abril/2001). O ecocardiograma (abril/2001; <xref ref-type="table" rid="tab01">tab. 1</xref>) revelou estenose mitral moderada e insufici&#234;ncia tric&#250;spide intensa. </p>
    <p>Foi indicado novo estudo cineangiogr&#225;fico, com vistas ao tratamento cir&#250;rgico das les&#245;es valvares. O estudo hemodin&#226;mico e cineangiogr&#225;fico (19/1/01) revelou hipertens&#227;o pulmonar e aus&#234;ncia de les&#245;es obstrutivas em coron&#225;rias (<xref ref-type="table" rid="tab02">tab. 2</xref>). </p>
    <p>Enquanto aguardava interna&#231;&#227;o para cirurgia, houve aparecimento de &#250;lcera infectada em membro inferior direito, o que fez postergar mais ainda a interna&#231;&#227;o para a cirurgia para tratamento das valvopatias. Nesse per&#237;odo (julho/2001), estava no toalete quando sentiu fraqueza nos membros inferiores e sofreu queda e fratura de membro superior direito. </p>
    <p>Aos 65 anos de idade, procurou atendimento m&#233;dico de emerg&#234;ncia por dor epig&#225;strica, inapet&#234;ncia e n&#225;useas (11/2/2002).</p>
    <p>O exame f&#237;sico revelou freq&#252;&#234;ncia card&#237;aca 110 bpm, press&#227;o arterial de 120x80 mmHg. A semiologia pulmonar n&#227;o demonstrou ru&#237;dos advent&#237;cios. A semiologia card&#237;aca revelou bulhas arr&#237;tmicas e sopro sist&#243;lico em &#225;rea tric&#250;spide. O exame do abdome revelou abdome fl&#225;cido, indolor, com ru&#237;dos hidroa&#233;reos presentes. Os membros n&#227;o apresentavam edema.</p>
    <p>Os exames laboratoriais (11/2/2002) revelaram ur&#233;ia de 204 mg/dl, creatinina de 2,3 mg/dl, glicemia de 331 mg/dl, s&#243;dio de 127 mEq/l, pot&#225;ssio de 5,7 mEq/l, hemoglobina de 18 g/dl, hemat&#243;crito de 56%, 21.600 leuc&#243;citos por mm<sup>3</sup> e 408.000 plaquetas por mm<sup>3</sup>.</p>
    <p>Foi feito o diagn&#243;stico de descompensa&#231;&#227;o diab&#233;tica de etiologia a ser esclarecida, acompanhada de insufici&#234;ncia renal aguda. Foram iniciadas hidrata&#231;&#227;o e insulina intravenosas com controle da hiperglicemia e da hiperpotassemia.</p>
    <p>No dia seguinte, queixou-se de dor abdominal e fezes sanguinolentas. O abdome tornou-se difusamente doloroso &#224; palpa&#231;&#227;o, mais sens&#237;vel em epig&#225;strio, n&#227;o havendo dor &#224; descompress&#227;o brusca.</p>
    <p>Os exames laboratoriais (12/2/2002) revelaram: hemoglobina de 16,9 g/dl, hemat&#243;crito de 52 %, leuc&#243;citos 28.500/mm<sup>3</sup> (8% bastonetes, 85% segmentados, 3% linf&#243;citos e 4% mon&#243;citos), 356.000/mm<sup>3</sup> plaquetas; glicemia 220 mg/dl, creatinina 1,9 mg/dl, ur&#233;ia 201 mg/dl, s&#243;dio 144 mEq/l e pot&#225;ssio 2,9 mEq/l e tempo de protrombina (INR) de 2,17.</p>
    <p>A endoscopia digestiva alta (12/2/2002) revelou estase g&#225;strica intensa, atrofia moderada de mucosa g&#225;strica, gastrite erosiva leve e &#250;lceras antrais ativas com sinais tardios de sangramento pr&#233;vio.</p>
    <p>A paciente evolui com sinais de desidrata&#231;&#227;o e hipotens&#227;o. A freq&#252;&#234;ncia card&#237;aca era 100 bpm e a press&#227;o arterial, de 80x40 mmHg. Foram administrados ceftriaxona, reposi&#231;&#227;o vol&#234;mica e dopamina intravenosos.</p>
    <p>O coagulograma revelou INR de 9,8, a creatinina se elevou para 3 mg/dl, a ur&#233;ia era de 199 mg/dl, a glicemia, de 124 mg/dl, o leucograma revelou 13.800 leuc&#243;citos/mm&#179; (miel&#243;citos 1%,metamiel&#243;citos 11%, bast&#245;es 42%, segmentados 28%, linf&#243;citos 8% e mon&#243;citos 10%).</p>
    <p>A paciente continuou em choque e faleceu (13/2/2002).</p>
    <p>
      <bold>Aspectos cl&#237;nicos</bold>
    </p>
    <p>Trata-se de mulher de 69 anos de idade, portadora de estenose da valva mitral, que procurou atendimento m&#233;dico de emerg&#234;ncia com dor epig&#225;strica aguda e n&#225;useas, evoluindo nos dias subseq&#252;entes com dor abdominal difusa, sangramento digestivo baixo e instabilidade hemodin&#226;mica. A paciente apresentava as seguintes comorbidades: fibrila&#231;&#227;o atrial, hipertens&#227;o arterial e antecedente de dois acidentes cerebrovasculares.</p>
    <p>Ao dar entrada no pronto-socorro, ela se encontrava desidratada e taquic&#225;rdica. Os exames f&#237;sico abdominal, pulmonar e cardiovascular eram inespec&#237;ficos. No entanto, no dia seguinte a paciente evoluiu com distens&#227;o abdominal e evacua&#231;&#227;o com fezes sanguinolentas. Os exames laboratoriais demonstravam altos n&#237;veis glic&#234;micos, ur&#233;ia e creatinina elevadas com rela&#231;&#227;o creatinina/ur&#233;ia superior a 1/40, sugerindo insufici&#234;ncia renal aguda de origem pr&#233;-renal, hipercalemia e leucocitose acentuada. Com a hip&#243;tese diagn&#243;stica de diabete melito descompensado iniciou-se tratamento espec&#237;fico no servi&#231;o de emerg&#234;ncia.</p>
    <p>O diagn&#243;stico diferencial da dor abdominal aguda associada a repercuss&#245;es sist&#234;micas &#233; amplo e inclui afec&#231;&#245;es prim&#225;rias abdominais, abrangendo processos inflamat&#243;rios, obstru&#231;&#245;es intestinais, perfura&#231;&#245;es de v&#237;sceras ocas e dist&#250;rbios vasculares, assim como afec&#231;&#245;es extra-abdominais que podem cursar com acometimento secund&#225;rio do aparelho digestivo, como altera&#231;&#245;es metab&#243;licas (exemplo: cetoacidose diab&#233;tica) e intoxica&#231;&#245;es ex&#243;genas, entre outros.</p>
    <p>No caso da nossa paciente, inicialmente n&#227;o havia sinais localizat&#243;rios abdominais como peritonismo, defesa abdominal involunt&#225;ria, e os ru&#237;dos hidroa&#233;reos estavam presentes, suscitando uma poss&#237;vel causa metab&#243;lica como raz&#227;o da sintomatologia abdominal. No entanto, apesar da realiza&#231;&#227;o de reposi&#231;&#227;o vol&#234;mica e controle dos n&#237;veis glic&#234;micos com insulinoterapia, a paciente evolui rapidamente com choque, necessitando de agente vasoativo e intuba&#231;&#227;o orotraqueal. Na hip&#243;tese de choque s&#233;ptico associado &#224; descompensa&#231;&#227;o diab&#233;tica, introduziu-se ao esquema terap&#234;utico antibi&#243;tico de amplo espectro. Entretanto, um poss&#237;vel foco n&#227;o foi determinado, impossibilitando a exclus&#227;o de doen&#231;as que necessitassem de interven&#231;&#227;o cir&#250;rgica.</p>
    <p>Na vig&#234;ncia da tr&#237;ade cl&#225;ssica: dor abdominal desproporcional aos achados cl&#237;nicos abdominais, fezes sanguinolentas e fonte emb&#243;lica &#243;bvia, como fibrila&#231;&#227;o atrial ou infarto do mioc&#225;rdio recente, o diagn&#243;stico de isquemia mesent&#233;rica aguda deve ser considerado<sup>1</sup>.</p>
    <p>A isquemia mesent&#233;rica aguda resulta da oclus&#227;o da art&#233;ria mesent&#233;rica superior e, menos freq&#252;entemente, da art&#233;ria mesent&#233;rica inferior, habitualmente como complica&#231;&#227;o de um evento emb&#243;lico ou doen&#231;a ateroscler&#243;tica mesent&#233;rica. Na embolia mesent&#233;rica, o &#234;mbolo origina-se geralmente no &#225;trio esquerdo ou ventr&#237;culo esquerdo, e ocasionalmente na aorta tor&#225;cica ou abdominal. Os sintomas mais comuns, segundo estudo de Park e cols.<sup>2</sup>, s&#227;o dor abdominal (95% dos pacientes), seguida de n&#225;useas em 44% dos pacientes. Diarr&#233;ia com sangue ou hematoquezia est&#227;o presentes em 16% dos pacientes, mas enterorragia maci&#231;a &#233; incomum. A leucocitose &#233; achado laboratorial freq&#252;ente, estando presente em mais de 90% dos pacientes. A isquemia mesent&#233;rica est&#225; associada a altos &#237;ndices de mortalidade (70% a 90%), principalmente quando associada ao diagn&#243;stico tardio, com a ocorr&#234;ncia de necrose intestinal e complica&#231;&#245;es sist&#234;micas como septicemia e s&#237;ndrome inflamat&#243;ria sist&#234;mica<sup>3</sup>. Como os sintomas s&#227;o inespec&#237;ficos, geralmente o diagn&#243;stico depende de alta suspei&#231;&#227;o cl&#237;nica e muitas vezes n&#227;o &#233; realizado antes do &#243;bito.</p>
    <p>A paciente em quest&#227;o apresentava v&#225;rios fatores de risco para emboliza&#231;&#227;o sist&#234;mica, o que contribui para hip&#243;tese diagn&#243;stica de isquemia mesent&#233;rica aguda. </p>
    <p>Antes do advento da terapia com anticoagulantes, 25% dos &#243;bitos em pacientes com estenose mitral estavam relacionados a emboliza&#231;&#245;es sist&#234;micas<sup>4,5</sup>. Ainda mais, a associa&#231;&#227;o entre estenose mitral e fibrila&#231;&#227;o atrial confere um risco de emboliza&#231;&#227;o sist&#234;mica entre 4% e 6% ao ano. O uso de anticoagulantes reduz, mas n&#227;o exclui, o risco de complica&#231;&#245;es cardioemb&#243;licas. Segundo trabalho de Chiang e cols.<sup>6</sup>, os preditores mais importantes de emboliza&#231;&#227;o sist&#234;mica s&#227;o idade, tamanho do &#225;trio esquerdo e presen&#231;a de fibrila&#231;&#227;o atrial. A paciente era idosa, portadora de fibrila&#231;&#227;o atrial permanente e vinha evoluindo com aumento do &#225;trio esquerdo (5,8 cm).</p>
    <p>Apesar de menos de 10% das hemorragias baixas resultarem de sangramento originado acima do &#226;ngulo de Treitz, a endoscopia digestiva alta na paciente em quest&#227;o demonstrou a presen&#231;a de sangramento difuso da mucosa g&#225;strica<sup>7</sup>. Sangramentos g&#225;stricos podem ser causa de instabilidade hemodin&#226;mica e choque, especialmente quando de origem arterial (exemplo: les&#227;o arterial associada a &#250;lcera p&#233;ptica). Eros&#245;es da mucosa g&#225;strica e hemorragia subepitelial (gastrite de estresse) normalmente s&#227;o encontradas em pacientes cr&#237;ticos, e menos de 2% desses sangramentos apresentam repercuss&#227;o cl&#237;nica relevante. As altas taxas de mortalidade nesse grupo est&#227;o mais relacionadas &#224; doen&#231;a de base do que ao sangramento digestivo. Hemorragias digestivas em pacientes cr&#237;ticos tamb&#233;m podem ocorrer na vig&#234;ncia de altera&#231;&#245;es da coagula&#231;&#227;o (exemplo: coagulopatia da septicemia, coagula&#231;&#227;o intravascular disseminada, uso de f&#225;rmacos anticoagulantes). Portanto, consideramos que o sangramento digestivo seja possivelmente uma complica&#231;&#227;o secund&#225;ria &#224; doen&#231;a aguda e ao estado cr&#237;tico vigente. </p>
    <p>
      <bold>(Dr. Rafael Amorim Belo Nunes)</bold>
    </p>
    <p>
      <bold>Hip&#243;tese diagn&#243;stica</bold>
    </p>
    <p>Isquemia mesent&#233;rica aguda de origem cardioemb&#243;lica, em paciente portadora de estenose valva mitral de etiologia reum&#225;tica e fibrila&#231;&#227;o atrial cr&#244;nica. </p>
    <p>
      <bold>(Dr. Rafael Amorim Belo Nunes)</bold>
    </p>
    <p>
      <bold>Necropsia</bold>
    </p>
    <p>Na abertura do abdome, notou-se discreta ascite sero-hemorr&#225;gica. Havia infarto hemorr&#225;gico recente acometendo extensas &#225;reas do tubo digestivo, especialmente o est&#244;mago e o intestino delgado, com contamina&#231;&#227;o bacteriana secund&#225;ria (<xref ref-type="fig" rid="fig02">fig. 2</xref>). A aorta exibia aterosclerose moderada, com calcifica&#231;&#227;o de placas, especialmente no segmento abdominal. Os rins apresentavam les&#245;es isqu&#234;micas cr&#244;nicas, com infartos cicatrizados e em cicatriza&#231;&#227;o, com atrofia parenquimatosa principalmente &#224; direita. Havia &#225;reas de infarto antigo, cicatrizado, em c&#243;rtex cerebelar e nos lobos temporal e occiptal direito do c&#233;rebro.</p>
    <fig id="fig02">
      <graphic xlink:href="1678-4170-abc-88-01-0110-00018-gf02.jpg"/></fig>
    <p>O cora&#231;&#227;o pesou 340 g, havendo discreta hipertrofia de ambos os ventr&#237;culos. O &#225;trio esquerdo apresentava pequeno aumento de volume, com espessamento endoc&#225;rdico, notando-se pontos cir&#250;rgicos antigos em seu teto. N&#227;o havia trombos cavit&#225;rios. A valva mitral mostrava c&#250;spides com acentuado espessamento fibroso e &#225;reas focais de calcifica&#231;&#227;o. Mostrava ainda evid&#234;ncias de procedimento cir&#250;rgico pr&#233;vio (comissurotomia). As cordas tend&#237;neas estavam encurtadas e apresentavam &#225;reas de fus&#227;o (<xref ref-type="fig" rid="fig03">fig. 3</xref>). As demais valvas card&#237;acas n&#227;o apresentavam anormalidades e as art&#233;rias coron&#225;rias epic&#225;rdicas n&#227;o exibiam les&#245;es ateroscler&#243;ticas significativas. Os pulm&#245;es apresentavam evid&#234;ncias de congest&#227;o passiva cr&#244;nica, com espessamento da parede das veias parenquimatosas.</p>
    <fig id="fig03">
      <graphic xlink:href="1678-4170-abc-88-01-0110-00018-gf03.jpg"/></fig>
    <p>
      <bold>(Dr. Luiz Alberto Benvenuti)</bold>
    </p>
    <p>
      <bold>Diagn&#243;sticos anatomopatol&#243;gicos</bold>
    </p>
    <p>Aterosclerose sist&#234;mica; infartos antigos, cicatrizados, dos rins e enc&#233;falo; infarto hemorr&#225;gico recente do est&#244;mago e intestinos &#150; necrose mesent&#233;rica (causa do &#243;bito); estenose mitral reum&#225;tica cr&#244;nica (operada). </p>
    <p>
      <bold>(Dr. Luiz Alberto Benvenuti)</bold>
    </p>
    <p>
      <bold>Coment&#225;rios</bold>
    </p>
    <p>Caso de paciente do sexo feminino, com 69 anos de idade, portadora de estenose da valva mitral de etiologia reum&#225;tica associada a fibrila&#231;&#227;o atrial cr&#244;nica. Foi submetida previamente a cirurgia de comissurotomia da valva mitral, com sucesso. </p>
    <p>Tamb&#233;m era portadora de aterosclerose sist&#234;mica, com infartos antigos dos rins e enc&#233;falo, tendo apresentado necrose mesent&#233;rica com evolu&#231;&#227;o fatal, caracterizada por extenso infarto hemorr&#225;gico do est&#244;mago e intestinos.</p>
    <p>A les&#227;o isqu&#234;mica do trato gastrointestinal pode ter conseq&#252;&#234;ncias catastr&#243;ficas, como no presente caso, sendo usualmente secund&#225;ria a oclus&#227;o tromb&#243;tica ou emb&#243;lica arterial ou a baixo fluxo sang&#252;&#237;neo de leito arterial severamente acometido por aterosclerose<sup>8</sup>. No caso apresentado, apesar da exist&#234;ncia de fibrila&#231;&#227;o atrial cr&#244;nica associada &#224; estenose mitral reum&#225;tica, n&#227;o encontramos trombos no interior do &#225;trio esquerdo que justificassem eventual embolia de ramos arteriais mesent&#233;ricos. Portanto, apesar de n&#227;o podermos afastar totalmente a possibilidade de embolia, cremos que o infarto intestinal seja conseq&#252;ente &#224; doen&#231;a ateroscler&#243;tica da aorta, da qual a paciente tamb&#233;m era portadora.</p>
    <p>A valvopatia reum&#225;tica cr&#244;nica pode estar associada &#224; doen&#231;a ateroscler&#243;tica, como ocorreu no presente caso. Apesar de n&#227;o termos encontrado relatos de associa&#231;&#227;o entre doen&#231;a reum&#225;tica e complica&#231;&#245;es da doen&#231;a ateroscler&#243;tica da aorta e ramos mesent&#233;ricos, h&#225; descri&#231;&#245;es e estudos da concomit&#226;ncia entre valvopatia reum&#225;tica cr&#244;nica e doen&#231;a ateroscler&#243;tica das art&#233;rias coron&#225;rias<sup>9,10</sup>.</p>
    <p>
      <bold>(Dr. Luiz Alberto Benvenuti)</bold>
    </p>
    <p>
      <bold>Refer&#234;ncias</bold>
    </p>
    <p>1. Oldenburg WA, Lau LL, Rodenberg, TJ, Edmonds HJ, Burger CD. Acute Mesenteric Ischemia: A clinical review. Arch Intern Med 2003; 164: 1054-62.</p>
    <p>2. Park WM, Gloviczki P, Kenneth CJ, Hallet JW, Bower TC, Panneton JM, et al. Contemporary management of acute mesenteric ischemia: Factors asociated with survival. J Vasc Surg 2002; 35: 445-52.</p>
    <p>3. Char DJ, Cuadra AS, Hines GL, Purtill W. Surgical Intervention for Acute Intestinal Ischemia: Experience in a Community Teaching Hospital. Vasc Endovasc Surg 2003; 37: 245-52.</p>
    <p>4. Braunwald E, Zipes DP, Libby P. Heart Disease: A Textbook of Cardiovascular Medicine. 6.ed. Phyladelphia: W. B. Saunders; 2001: 1646.</p>
    <p>5. Nielso GH, Galea EG, Houssack KF. Thromboembolic complications of mitral valve disease. Aust NZ J Med 1978; 8: 372.</p>
    <p>6. Chiang CW, Lo SK, Ko YS, Cheng NJ, Lin PJ, Chang CH. Predictors of systemic embolism in patients with mitral stenosis. Ann Intern Med 1998; 128: 885-9.</p>
    <p>7. Wolfe MM, Sachs G. Acid suppression: optimizing therapy for gastroduodenal ulcer healing, gastroesofhageal reflux disease, and stress-related erosive syndrome. Gastroenterology 2000; 118(2 Suppl 1): S9-31.</p>
    <p>8. Burns BJ, Brandt LJ. Intestinal ischemia. Gastroenterol Clin North Am 2003; 32: 1127-43.</p>
    <p>9. Splugas E, Amer R, Barthe JE, Jara F. Distribution of significant coronary lesions in patients with rheumatic valvular heart disease. Study of 300 consecutive cases. Med Clin (Barc) 1980; 75: 112-4.</p>
    <p>10. Salas-Lara VM, Rangel-Abundis A, Solorio-Meza S, Albarran-Lopez H. Assessment of a predictive index for coronary artery disease in patients with rheumatic valvular disease. Cir Cir 2005; 73: 85-9.</p>
    <p>
      <fn id="end" fn-type="corresp">
        <label>
          <bold>Correspond&#234;ncia:</bold>
        </label>
        <p> Vera Demarchi Aiello </p>
        <p> InCor </p>
        <p> Av. Dr. En&#233;as de Carvalho Aguiar, 44 </p>
        <p> 05403-000 &#150; S&#227;o Paulo, SP </p>
        <p> E-mail: </p>
        <p>
          <email xlink:href="anpvera@incor.usp.br">anpvera@incor.usp.br</email>
        </p>
      </fn>
    </p>
    <p><bold>Editor da Se&#231;&#227;o:</bold> Alfredo Jos&#233; Mansur (<email xlink:href="ajmansur@incor.usp.br">ajmansur@incor.usp.br</email>) </p>
    <p><bold>Editores Associados:</bold> Desid&#233;rio Favarato (<email xlink:href="dclfavarato@incor.usp.br">dclfavarato@incor.usp.br</email>) </p>
    <p> Vera Demarchi Aiello (<email xlink:href="anpvera@incor.usp.br">anpvera@incor.usp.br</email>)</p>
  </body>
</article>
