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        <journal-title>Arquivos Brasileiros de Cardiologia</journal-title>
        <abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Arq. Bras. Cardiol.</abbrev-journal-title>
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      <issn pub-type="epub">1678-4170</issn>
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        <publisher-name>Sociedade Brasileira de Cardiologia - SBC</publisher-name>
        <publisher-loc>S&#227;o Paulo, SP, Brazil</publisher-loc>
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        <subj-group subj-group-type="heading">
          <subject>Correla&#231;&#227;o Anatomocl&#237;nica</subject>
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        <article-title>Homem de 88 anos de idade com edema agudo dos pulm&#245;es, choque cardiog&#234;ncio e novo sopro holossist&#243;lico de aparecimento recente</article-title>
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          <trans-title>A 88 year-old man with acute pulmonary edema, cardiogenic schock and holosystolic murmur of recent onset</trans-title>
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            <surname>Barreto</surname>
            <given-names>Fernando Eduardo Cordeiro</given-names>
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            <surname>Castelli</surname>
            <given-names>Jussara Bianchi</given-names>
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        <institution content-type="orgname">FMUSP</institution>
        <institution content-type="orgdiv1">Hospital das Cl&#237;nicas </institution>
        <institution content-type="orgdiv2">Instituto do Cora&#231;&#227;o</institution>
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        <month>10</month>
        <year>2005</year>
      </pub-date>
      <volume>85</volume>
      <issue>4</issue>
      <fpage>290</fpage>
      <lpage>294</lpage>
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          <license-p>This work is licensed under a Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International License.</license-p>
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        <day>07</day>
        <month>11</month>
        <year>2005</year>
      </pub-date>
    </article-meta>
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  <body>
    <p>
      <bold> CORRELA&#199;&#195;O ANATOMOCL&#205;NICA</bold>
    </p>
    <p> Homem de 88 anos de idade com edema agudo dos pulm&#245;es, choque cardiog&#234;ncio e novo sopro holossist&#243;lico de aparecimento recente</p>
    <p>
      <bold>Fernando Eduardo Cordeiro Barreto; Jussara Bianchi Castelli</bold>
    </p>
    <p>Instituto do Cora&#231;&#227;o do Hospital das Cl&#237;nicas - FMUSP - S&#227;o Paulo, SP</p>
    <p>
      <xref ref-type="corresp" rid="end"> Correspond&#234;ncia</xref>
    </p>
    <p>Homem de 88 anos procurou atendimento m&#233;dico por dispn&#233;ia intensa.</p>
    <p>Dez anos antes sofrera s&#237;ncope p&#243;s-miccional noturna com traumatismo craniano - ferimento l&#225;cero-contuso frontal esquerdo. Apresentava na ocasi&#227;o dispn&#233;ia sem rela&#231;&#227;o com esfor&#231;os f&#237;sico e de leve intensidade. N&#227;o havia queixa de palpita&#231;&#245;es ou hist&#243;ria de cardiopatia. Procurou atendimento m&#233;dico, foi feito o diagn&#243;stico de sopro card&#237;aco, e foi encaminhado para o Instituto do Cora&#231;&#227;o. </p>
    <p>O exame f&#237;sico (dez/89) revelou paciente em bom estado geral, pulso regular, freq&#252;&#234;ncia de 76 batimentos por minuto, press&#227;o arterial em membro superior direito 170/110 mmHg (dec&#250;bito dorsal) e 160/100 mmHg (sentado). O exame dos pulm&#245;es foi normal. O exame do cora&#231;&#227;o revelou hiperfonese de primeira bulha em &#225;rea mitral e sopro mesotelessist&#243;lico em &#225;rea mitral (++/4+). O exame do abdome foi normal e n&#227;o havia edema de membros inferiores. Os pulsos eram sim&#233;tricos nos membros. </p>
    <p>O eletrocardiograma (ECG) (29/11/89] demonstrou ritmo sinusal, freq&#252;&#234;ncia 75 bpm, onda P de 80 ms de dura&#231;&#227;o, intervalo PR 120 ms, dura&#231;&#227;o de complexo QRS de 80 ms, sobrecarga de ventr&#237;culo esquerdo e altera&#231;&#245;es da repolariza&#231;&#227;o ventricular (<xref ref-type="fig" rid="fig01">fig. 1</xref>). </p>
    <fig id="fig01">
      <graphic xlink:href="1678-4170-abc-85-04-0290-00013-gf01.jpg"/></fig>
    <p>A radiografia de t&#243;rax foi normal. </p>
    <p>A avalia&#231;&#227;o laboratorial revelou (nov/89) 13,2g/dL de hemoglobina, 41% de hemat&#243;crito, 5800 leuc&#243;citos/ mm<sup>3</sup>, taxas s&#233;ricas de creatinina de 1,4 mg/dL, 141 mEq/L de s&#243;dio e 4,3 mEq/L de pot&#225;ssio. </p>
    <p>No ecocardiograma (fev/90), a espessura do septo interventricular e da parede posterior de ventr&#237;culo esquerdo foi de 9 mm, di&#226;metro diast&#243;lico do ventr&#237;culo esquerdo 53 mm, fra&#231;&#227;o de eje&#231;&#227;o do ventr&#237;culo esquerdo de 66%, o di&#226;metro da aorta foi 29 mm e do &#225;trio esquerdo foi 29 mm. Havia prolapso de valva mitral com sinais que foram considerados sugestivos de degenera&#231;&#227;o mixomatosa discreta, sem insufici&#234;ncia valvar. </p>
    <p>O comportamento da freq&#252;&#234;ncia card&#237;aca foi normal no teste ergom&#233;trico (fev/90) passando de 94 bpm no repouso para 148 bpm no pico do esfor&#231;o; a press&#227;o arterial foi 142/102 mmHg em repouso e 206/104 mmHg ao final de quatro minutos de esfor&#231;o. N&#227;o houve altera&#231;&#227;o do segmento ST sugestiva de isquemia mioc&#225;rdica. </p>
    <p>O ECG de longa dura&#231;&#227;o pelo sistema Holter (jul 90) revelou 950 extra-s&#237;stoles ventriculares isoladas e 10 em pares. Foram registradas 1.735 extra-s&#237;stoles atriais isoladas, 52 em pares e 29 taquicardias atriais, a mais longa com cinco batimentos e freq&#252;&#234;ncia de 92 bpm e a mais r&#225;pida de tr&#234;s batimentos com 139 bpm de freq&#252;&#234;ncia. O paciente n&#227;o apresentou sintomas durante a grava&#231;&#227;o. </p>
    <p>O ECG de alta resolu&#231;&#227;o (ago/90) revelou: QRS filtrado de 90 ms, dura&#231;&#227;o de potenciais abaixo de 40 mV de 30 ms e voltagem dos 40 ms finais de 36 mV, e foi considerado negativo para a presen&#231;a de potenciais tardios de baixa voltagem (crit&#233;rios de positividade: dura&#231;&#227;o QRS filtrado &gt;114 ms, dura&#231;&#227;o de potenciais abaixo de 40 mV de 38 ms e potenciais dos 40 ms finais abaixo de 20 ms).  </p>
    <p>Foram feitos os diagn&#243;sticos de prolapso de valva mitral e hipertens&#227;o arterial sist&#234;mica. O paciente fez seguimento m&#233;dico irregular at&#233; 1992, sempre com pouca ader&#234;ncia &#224; medica&#231;&#227;o anti-hipertensiva. </p>
    <p>Depois de sete anos da consulta inicial (jun/99) procurou atendimento m&#233;dico em outro servi&#231;o por piora da dispn&#233;ia nos dois dias anteriores e altera&#231;&#227;o da cor da urina. </p>
    <p>Os exames laboratoriais revelaram n&#237;veis s&#233;ricos de ur&#233;ia de 184 mg/dL e 2,1 mg/dL de creatinina. </p>
    <p>Ao exame ultra-sonogr&#225;fico dos rins e vias urin&#225;rias (28/06/99), o rim direito mediu 10,3 x 4 cm e o rim esquerdo com 8,8 x 4,2 cm. No rim esquerdo foram identificadas imagens atribu&#237;das a cistos de paredes finas e de conte&#250;do homog&#234;neo. Na bexiga foi detectado espessamento da parede vesical com les&#227;o vegetante com aumento dos sinais reflex&#227;o de 4,6 x 2,1 cm e, ainda, imagem hipoecog&#234;nica no assoalho da bexiga sugestiva de co&#225;gulo sang&#252;&#237;neo. </p>
    <p>Houve melhora da dispn&#233;ia e o paciente recebeu alta (jun/06/99) com prescri&#231;&#227;o de 75 mg de captopril, 40 mg de furosemida, 25 mg de clortalidona e 1 g de ciprofloxacina por dia e encaminhamento para tratamento especializado para tumor de bexiga. </p>
    <p>Dez dias depois (8/07/99) procurou atendimento por dispn&#233;ia intensa, mesmo em repouso. O exame f&#237;sico (8/07/99) revelou paciente em regular estado geral, com cianose labial e das extremidades, 50 incurs&#245;es respirat&#243;rias por minuto, pulso regular com freq&#252;&#234;ncia de 84 bpm e press&#227;o arterial inaud&#237;vel, palpada em 50 mmHg. O exame dos pulm&#245;es revelou estertores crepitantes nos 2/3 inferiores de ambos os hemit&#243;rax. O exame do cora&#231;&#227;o revelou batimentos card&#237;acos irregulares e sopro sist&#243;lico mitral +++/4 com irradia&#231;&#227;o para toda a regi&#227;o precordial. O exame do abdome foi prejudicado pela intensa dispn&#233;ia e havia edema +++/4 nos membros inferiores. </p>
    <p>Foi feito o diagn&#243;stico de edema agudo de pulm&#227;o. </p>
    <p>O ECG (jul/99) revelou ritmo sinusal, 100 bpm de freq&#252;&#234;ncia, com raras extra-s&#237;stoles ventriculares isoladas. Havia intervalo PR de 0,16 seg, sobrecarga atrial esquerda, baixa voltagem dos complexos QRS no plano frontal e complexos QS de V<sub>1</sub> a V<sub>5</sub> e QRS de baixa voltagem em V<sub>6</sub> e supradesnivelamento de segmento ST com ondas T positivas de V<sub>1</sub> a V<sub>4</sub> (<xref ref-type="fig" rid="fig02">fig. 2</xref>). </p>
    <fig id="fig02">
      <graphic xlink:href="1678-4170-abc-85-04-0290-00013-gf02.jpg"/></fig>
    <p>Os exames de laborat&#243;rio (jul/99) revelaram n&#237;veis s&#233;ricos de ur&#233;ia de 199 mg/dL, 2,7 mg/dL de creatinina, 132 mEq/L de s&#243;dio, 4,1 mEq/L de pot&#225;ssio e 128 mg/dL de glicose. A amostra de sangue para medida de fra&#231;&#227;o MB da fosfocreatinokinase sofreu hem&#243;lise. </p>
    <p>Apesar do uso de drogas vasoativas, dobutamina e dopamina, o paciente continuou em choque e faleceu na madrugada do dia 10/07/99 com bradicardia seguida de assistolia. </p>
    <p>
      <bold>DISCUSS&#195;O</bold>
    </p>
    <p>
      <bold>Aspectos cl&#237;nicos</bold>
    </p>
    <p>Trata-se de paciente do sexo masculino, de 88 anos, internado com manifesta&#231;&#245;es cl&#237;nicas de edema agudo dos pulm&#245;es (EAP) e choque. O EAP neste paciente poderia ter resultado de infarto agudo do mioc&#225;rdio (IAM), hipervolemia secund&#225;ria &#224; insufici&#234;ncia renal cr&#244;nica agudizada, insufici&#234;ncia valvar mitral aguda, tromboembolismo pulmonar ou s&#237;ndrome restritiva. </p>
    <p>A favor de IAM temos: 1) a idade do paciente, uma vez que pacientes idosos podem apresentar isquemia silenciosa com manifesta&#231;&#227;o de EAP; 2) o antecedente de hipertens&#227;o arterial sist&#234;mica (HAS); 3) os achados eletrocardiogr&#225;ficos de supradesnivelamento do segmento ST com ondas T positivas de V1 a V4. N&#227;o foram apresentados ECGs evolutivos e curva de enzimas card&#237;acas. </p>
    <p>Os dados que sugerem insufici&#234;ncia renal cr&#244;nica agudizada levando a hipervolemia e a EAP, s&#227;o a hist&#243;ria de altera&#231;&#227;o da cor da urina, o antecedente de HAS, o edema de membros inferiores, os exames laboratoriais &#224; admiss&#227;o (aumento de ur&#233;ia e creatinina), a piora da fun&#231;&#227;o renal com o uso de Captopril e a ultra-sonografia pregressa com diminui&#231;&#227;o do rim esquerdo, o que nos levaria a considerar hip&#243;tese de estenose de art&#233;ria renal esquerda com hipertens&#227;o arterial secund&#225;ria. O edema de membros inferiores poderia ser explicado por s&#237;ndrome nefr&#243;tica, mas n&#227;o temos an&#225;lise da urina que mostrasse protein&#250;ria. </p>
    <p>A favor de insufici&#234;ncia valvar mitral aguda, temos o ecocardiograma pregresso com prolapso de valva mitral e o aumento da intensidade do sopro card&#237;aco em rela&#231;&#227;o &#224; ausculta pr&#233;via, que nos levaria a pensar em rotura de cordoalha da valva mitral. </p>
    <p>Tromboembolismo pulmonar (TEP) tamb&#233;m entra nas possibilidades diagn&#243;sticas, j&#225; que o paciente em quest&#227;o era idoso e apresentava les&#227;o vegetante em bexiga ao ultra-som de abd&#244;men e existe a associa&#231;&#227;o de carcinoma de bexiga e TEP. </p>
    <p>Outra possibilidade diagn&#243;stica &#233; uma s&#237;ndrome restritiva, como sugerem os achados eletrocardiogr&#225;ficos de complexos QRS de baixa voltagem no plano frontal e em V<sub>6</sub> e QS de V<sub>1</sub> a V<sub>5</sub> no ECG de entrada do paciente. </p>
    <p> As s&#237;ndromes restritivas podem ser secund&#225;rias a cardiomiopatia restritiva ou pericardite constritiva. N&#227;o temos a radiografia de t&#243;rax e o ecocardiograma, de grande valia no diagn&#243;stico diferencial. Entretanto, no caso apresentado, os achados eletrocardiogr&#225;ficos que simulam infarto do mioc&#225;rdio sugerem cardiomiopatia restritiva. Entre as cardiomiopatia restritivas, temos as mioc&#225;rdicas e endomioc&#225;rdicas. As mioc&#225;rdicas incluem doen&#231;as n&#227;o infiltrativas (idiop&#225;ticas e esclerodermia), infiltrativas (amiloidose, sarcoidose, entre outras) e de armazenamento (hemocromatose, doen&#231;a de Fabry). As endomioc&#225;rdicas compreendem a fibrose endomioc&#225;rdica, s&#237;ndrome hipereosinof&#237;lica, altera&#231;&#245;es associadas ao carcin&#243;ide, radia&#231;&#227;o, entre outras. </p>
    <p>Neste paciente, os achados de: hipotens&#227;o postural (apesar de sintoma freq&#252;ente em idosos), ultra-sonografia com cistos renais, espessamento de parede vesical com les&#227;o vegetante, presen&#231;a de co&#225;gulo intravesical e diminui&#231;&#227;o do tamanho renal, piora da dispn&#233;ia e choque irrevers&#237;vel secund&#225;rio ao uso de vasodilatador (inibidor da ECA) e os achados eletrocardiogr&#225;ficos, podem corresponder a achados encontrados na amiloidose, que se caracteriza pela deposi&#231;&#227;o de fibrilas formadas por v&#225;rias prote&#237;nas (subst&#226;ncia amil&#243;ide). O amil&#243;ide pode ser encontrado em quase todos os &#243;rg&#227;os. A incid&#234;ncia estimada &#233; de cerca de 5,1 a 12,8 casos por milh&#245;es de pessoas por ano (dados norte-americanos correspondendo a 1.275 a 3.200 casos novos por ano). </p>
    <p>Uma das mais usadas classsifica&#231;&#245;es &#233; aquela que define quatro tipos de amiloidose: a prim&#225;ria que se caracateriza pela produ&#231;&#227;o de prote&#237;na amil&#243;ide composta de partes de imunoglobulinas de cadeia leve por plasm&#243;citos monoclonais como conseq&#252;&#234;ncia de mieloma m&#250;ltiplo; a secund&#225;ria com produ&#231;&#227;o de prote&#237;na n&#227;o imunoglobul&#237;nica, geralmente, associada a processos inflamat&#243;rios cr&#244;nicos; a amiloidose familial, heredit&#225;ria, autoss&#244;mica dominante, com produ&#231;&#227;o de prote&#237;na pr&#233; - album&#237;nica, denominada transtiretina, que pode se acompanhar de neuropatia progressiva, miocardiopatia ou nefropatia; a amiloidose sist&#234;mica senil com produ&#231;&#227;o de prote&#237;nas semelhante ao fator natriur&#233;tico atrial<sup>1</sup>. Este &#250;ltimo tipo vem se tornando mais comum &#224; medida que aumenta a m&#233;dia de vida da popula&#231;&#227;o. </p>
    <p>A amiloidose card&#237;aca ocorre mais comumente em homens e &#233; rara antes dos trinta anos de idade. </p>
    <p>O envolvimento card&#237;aco &#233; comum e &#233; a causa de mortalidade mais freq&#252;ente nos pacientes com amiloidose prim&#225;ria. A doen&#231;a card&#237;aca cl&#237;nica est&#225; presente em um ter&#231;o dos pacientes, embora o envolvimento card&#237;aco nos estudos anatomopatol&#243;gicos esteja presente na quase totalidade dos casos. </p>
    <p>Na amiloidose secund&#225;ria o envolvimento card&#237;aco &#233; incomum. Na familial, est&#225; presente em 1/4 dos pacientes, na fase tardia da doen&#231;a<sup>1</sup>. </p>
    <p>Na amiloidose senil o acometimento card&#237;aco varia de pequenos dep&#243;sitos atriais ao envolvimento ventricular extenso, com conseq&#252;ente insufici&#234;ncia card&#237;aca. </p>
    <p>As manifesta&#231;&#245;es cl&#237;nicas decorrentes da amiloidose podem ser de quatro tipos<sup>1</sup> : </p>
    <p>Miocardiopatia restritiva onde os achados de insufici&#234;ncia card&#237;aca direita predominam, como estase jugular, baixa press&#227;o de pulso, hepatomegalia e edema perif&#233;rico. </p>
    <p>Disfun&#231;&#227;o sist&#243;lica : em alguns pacientes a deposi&#231;&#227;o amil&#243;ide nos &#225;trios pode ser respons&#225;vel pela perda da fun&#231;&#227;o de transporte atrial, precipitando insufici&#234;ncia card&#237;aca congestiva e edema agudo dos pulm&#245;es. Em alguns casos, pode haver angina com coron&#225;rias normais &#224; cineangiocoronariografia. </p>
    <p>Hipotens&#227;o ortost&#225;tica: pode ocorrer em 10% dos casos, devido a infiltra&#231;&#245;es de subst&#226;ncia amil&#243;ide no sistema nervoso aut&#244;nomo ou vasos sangu&#237;neos. Pode haver hipovolemia secund&#225;ria &#224; s&#237;ndrome nefr&#243;tica devido a amiloidose renal. O uso de vasodilatadores, como os inibidores da ECA, pode ocasionar hipotens&#227;o refrat&#225;ria ao tratamento cl&#237;nico. </p>
    <p>Anormalidade na forma&#231;&#227;o e condu&#231;&#227;o do impulso el&#233;trico do cora&#231;&#227;o levando a arritmias ventriculares complexas e supra ventriculares, como fibrila&#231;&#227;o atrial, taquicardia atrial e anormalidades na condu&#231;&#227;o AV, s&#227;o tamb&#233;m descritas nesta doen&#231;a. </p>
    <p>Algumas das manifesta&#231;&#245;es cl&#237;nicas do paciente podem ser sugestivas do envolvimento cardiovascular: edema de membros inferiores, disfun&#231;&#227;o sist&#243;lica caracterizada pelo EAP, hipotens&#227;o refrat&#225;ria secund&#225;ria ao uso do captopril e arritmias card&#237;acas complexas ao Holter. </p>
    <p>Algumas altera&#231;&#245;es no ECG presentes no caso atual podem ser devidas &#224; amiloidose, pois sabe-se que pode ocorrer simula&#231;&#227;o de infarto do mioc&#225;rdio com ondas R pequenas ou ausentes nas deriva&#231;&#245;es precordiais direitas, complexos QRS de baixa voltagem no plano frontal, evid&#234;ncias de sobrecarga atrial esquerda, aumento do intervalo PR, al&#233;m das arritmias j&#225; citadas. </p>
    <p>O ecocardiograma, que demonstrou espessura da parede dos ventr&#237;culos dentro da normalidade e aus&#234;ncia de dilata&#231;&#227;o atrial, n&#227;o sugere o diagn&#243;sitco de amiloidose. </p>
    <p>A amiloidose renal na fase inicial pode apresentar-se com aumento do tamanho renal ao ultra-som de rins e vias urin&#225;rias e, nos est&#225;gios finais, pode levar &#224; diminui&#231;&#227;o do tamanho renal, com s&#237;ndrome nefr&#243;tica e insufici&#234;ncia renal, com protein&#250;ria e aumento nos n&#237;veis s&#233;ricos de ur&#233;ia e creatinina<sup>1</sup>. </p>
    <p>H&#225; relatos de casos onde a presen&#231;a de hemat&#250;ria e les&#227;o vegetante em bexiga ao ultra-som de rins e vias urin&#225;rias levaram ao diagn&#243;stico err&#244;neo de carcinoma de bexiga. Nestes casos, posterior investiga&#231;&#227;o mostrou tratar-se de dep&#243;sitos de subst&#226;ncia amil&#243;ide na parede vesical, simulando les&#245;es vegetantes. Esta hip&#243;tese deve ser considerada para o paciente em quest&#227;o.</p>
    <p>
      <bold> (Dr. Fernando Eduardo Cordeiro Barreto) </bold>
    </p>
    <p><bold>Hip&#243;teses diagn&#243;sticas: </bold>amiloidose; infarto agudo do mioc&#225;rdio e tromboembolismo pulmonar </p>
    <p>(<bold>Dr. Fernando Eduardo Cordeiro Barreto)</bold> </p>
    <p>
      <bold>Necropsia</bold>
    </p>
    <p>O paciente apresentava aterosclerose generalizada, caracterizada por ateromasia moderada da aorta e seus ramos, complicada por calcifica&#231;&#227;o na cro&#231;a e no setor abdominal, abaixo das art&#233;rias renais. O pol&#237;gono de Willis mostrava ateromasia discreta. Havia atrofia dos giros na convexidade cerebral e redu&#231;&#227;o do peso encef&#225;lico (1.000g). </p>
    <p>O cora&#231;&#227;o mostrava infarto agudo transmural extenso, localizado na parede &#226;ntero-septal do ventr&#237;culo esquerdo (<xref ref-type="fig" rid="fig03">fig. 3</xref>), desde a por&#231;&#227;o m&#233;dio-basal at&#233; o &#225;pice, com afilamento da parede e dilata&#231;&#227;o aneurism&#225;tica discreta no local. Grande trombo recobria a parede anterior infartada, cuja superf&#237;cie j&#225; mostrava endoteliza&#231;&#227;o inicial. A data&#231;&#227;o do infarto correspondeu a cerca de 2 semanas de evolu&#231;&#227;o. N&#227;o foram constatadas les&#245;es isqu&#234;micas antigas. Como complica&#231;&#227;o do infarto evidenciou-se comunica&#231;&#227;o interventricular (CIV), por ruptura da parede septal &#226;ntero-apical, em regi&#227;o lim&#237;trofe entre o mioc&#225;rdio infartado e n&#227;o, com orif&#237;cio medindo cerca de 1,5 cm (<xref ref-type="fig" rid="fig04">fig. 4</xref>). No restante, o mioc&#225;rdio do ventr&#237;culo esquerdo era hipertr&#243;fico. O ventr&#237;culo direito apresentava hipertrofia discreta e dilata&#231;&#227;o moderada, principalmente na via de sa&#237;da. </p>
    <fig id="fig03">
      <graphic xlink:href="1678-4170-abc-85-04-0290-00013-gf03.jpg"/></fig>
    <fig id="fig04">
      <graphic xlink:href="1678-4170-abc-85-04-0290-00013-gf04.jpg"/></fig>
    <p>As coron&#225;rias foram mapeadas e evidenciaram-se as seguintes les&#245;es na coron&#225;ria esquerda: ramo interventricular anterior (RIA) com 90% de obstru&#231;&#227;o e trombose recente oclusiva (TRO) em recanaliza&#231;&#227;o no 3&#186; e 5&#186; cm, propagando-se pela segunda diagonal; nos demais ramos, havia les&#245;es de 70% no 2&#186; cm do ramo circunflexo, 1&#186; cm do ramo ventricular anterior esquerdo e 1&#186; cm do ramo marginal esquerdo, neste &#250;ltimo associada &#224; TRO em recanaliza&#231;&#227;o. A coron&#225;ria direita apresentava apenas 50% de obstru&#231;&#227;o no 3&#186; cm e dava origem ao ramo interventricular posterior, este &#250;ltimo art&#233;ria de pequeno porte. Nos demais ramos as les&#245;es distrutivas eram menores que 30%. </p>
    <p>A valva mitral apresentava prolapso, com c&#250;spides espessas e redundantes, de aspecto mixomatoso, salientando-se ligeiramente para o &#225;trio. Havia coapta&#231;&#227;o adequada das c&#250;spides o que sugeriu n&#227;o haver incompet&#234;ncia valvar. </p>
    <p>Os rins tinham aspecto de atrofia isqu&#234;mica e arteriolosclerose, apresentando cistos de reten&#231;&#227;o, o maior deles medindo 5 cm. O aspecto de arteriolosclerose renal associado a hipertrofia ventricular esquerda representaram-nos substrato morfol&#243;gico de hipertens&#227;o arterial sist&#234;mica. </p>
    <p>Na pr&#243;stata havia hiperplasia nodular, fazendo estenose uretral, associada a adenocarcinoma multifocal (Gleason 3+3). A bexiga urin&#225;ria mostrava hipertrofia da parede e trabeculado grosseiro na mucosa, compat&#237;vel com "bexiga de esfor&#231;o". Na parede lateral direita vesical constatou-se pequena tumora&#231;&#227;o com cerca de 2 cm cuja histologia revelou tratar-se de carcinoma de c&#233;lulas transicionais, grau I (ASH). Ambas as neoplasias estavam limitadas ao seu s&#237;tio prim&#225;rio. </p>
    <p>A causa do &#243;bito foi choque cardiog&#234;nico, caracterizado por pulm&#245;es de choque em fase exsudativa e necrose centro-lobular hep&#225;tica, associada ainda a broncopneumonia multifocal terminal.</p>
    <p>
      <bold>(Dra Jussara Bianchi Castelli) </bold>
    </p>
    <p><bold>Diagn&#243;sticos anatomopatol&#243;gicos: </bold>Aterosclerose coronariana; infarto agudo do mioc&#225;rdio; CIV p&#243;s-infarto; choque cardiog&#234;nico com repercuss&#227;o pulmonar (dano alveolar difuso) e hep&#225;tica (necrose centro-lobular); prolapso mitral sem repercuss&#245;es hemodin&#226;micas; cardiopatia hipertensiva; carcinoma de c&#233;lulas transicionais da bexiga; adenocarcinoma da pr&#243;stata; broncopneumonia bilateral terminal.</p>
    <p>
      <bold>(Dra Jussara Bianchi Castelli)</bold>
    </p>
    <p>
      <bold>COMENT&#193;RIOS</bold>
    </p>
    <p>A CIV &#233; uma complica&#231;&#227;o mec&#226;nica infreq&#252;ente do infarto do mioc&#225;rdio (IAM). Em estudo recente, 0,2% (84/41.021) de pacientes p&#243;s-IAM desenvolveram CIV<sup>2</sup>, incid&#234;ncia menor do que a anteriormente registrada na era pr&#233;-trombol&#237;tica (1 a 2% dos casos<sup>2,3</sup>). Esta complica&#231;&#227;o geralmente &#233; precoce, podendo ocorrer at&#233; 14 dias no p&#243;s-IAM <sup>2-8</sup>. Apresenta alta taxa de mortalidade<sup>4,5</sup>, por&#233;m menor em pacientes tratados cirurgicamente at&#233; 30 dias quando comparados com aqueles submetidos a tratamento cl&#237;nico<sup>7</sup>. S&#227;o indicadas algumas condi&#231;&#245;es que tornam o paciente propenso a esta complica&#231;&#227;o, a saber: idade avan&#231;ada<sup>3,6-9</sup>; sexo feminino<sup>6</sup>; tend&#234;ncia a seguir o primeiro infarto transmural<sup>4,6,9 </sup>e doen&#231;a coronariana limitada, representada por les&#245;es n&#227;o extensas levando a circula&#231;&#227;o colateral pouco desenvolvida<sup>2,5,9</sup>. Al&#233;m disso, afilamento acentuado (mais de 50% em rela&#231;&#227;o &#224; parede n&#227;o infartada), com acometimento extenso da parede septal<sup>2</sup> e a demora na admiss&#227;o hospitalar para tratamento do IAM, com a manuten&#231;&#227;o da atividade f&#237;sica<sup>7</sup>, parecem estar associados com maior risco de ruptura card&#237;aca. A localiza&#231;&#227;o do infarto na parede anterior tamb&#233;m &#233; indicada como um fator associado<sup>2,8</sup>, entretanto outros autores em sua casu&#237;stica mostram a parede posterior como a mais freq&#252;entemente envolvida pelo IAM que complicou com ruptura septal<sup>8</sup>. </p>
    <p> Este caso ilustra aspectos da CIV p&#243;s-infarto, pela idade avan&#231;ada, aus&#234;ncia de les&#245;es mioc&#225;rdicas isqu&#234;micas antigas, aterosclerose coronariana grave limitada ao RIA sugerindo uma circula&#231;&#227;o colateral possivelmente pouco desenvolvida ou incipiente, e, al&#233;m disso, um consider&#225;vel afilamento e extenso acometimento do septo pelo infarto. A hipertrofia do mioc&#225;rdio e a localiza&#231;&#227;o da ruptura entre o mioc&#225;rdio sadio e infartado sugerem que a hipertens&#227;o arterial sist&#234;mica possa ter um papel patogen&#233;tico na sua ocorr&#234;ncia. A hip&#243;tese cl&#237;nica de amiloidose card&#237;aca foi afastada pelo exame anatomopatol&#243;gico. </p>
    <p>
      <bold>(Dra Jussara Bianchi Castelli)</bold>
    </p>
    <p>
      <bold>REFER&#202;NCIAS</bold>
    </p>
    <p>1. Falk RH, Comenzo RL, Skinner M. The Systemic Amyloidosis. N Engl J Med 1997; 337: 898-907. </p>
    <p>2. Crenshaw BS, Granger CB, Birnbaum Y, et al. Risk factors, angiographic patterns, and outcomes in patients with ventricular septal defect complicating acute myocardial infarction. Circulation 2000; 101: 27-32. </p>
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    <p>
      <fn id="end" fn-type="corresp">
        <label>
          <bold>Correspond&#234;ncia</bold>
        </label>
        <p> Fernando Eduardo Cordeiro Barreto </p>
        <p> Rua Capote Valente, 467 - ap. 84 </p>
        <p> 05409-001 - S&#227;o Paulo, SP </p>
        <p> E-mail: </p>
        <p><email xlink:href="barreto@frontier.com.br">barreto@frontier.com.br</email>, </p>
        <p>
          <email xlink:href="feduardo@cardiol.br">feduardo@cardiol.br</email>
        </p>
      </fn>
    </p>
    <p>Recebido em 14/06/05 </p>
    <p> Aceito em 15/07/05</p>
    <p><bold>Editor da Se&#231;&#227;o: </bold>Alfredo Jos&#233; Mansur </p>
    <p> Editores Associados: Desid&#233;rio Favarato e Vera Demarchi Aiello </p>
  </body>
</article>
