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        <journal-title>Arquivos Brasileiros de Cardiologia</journal-title>
        <abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">Arq. Bras. Cardiol.</abbrev-journal-title>
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        <publisher-name>Sociedade Brasileira de Cardiologia - SBC</publisher-name>
        <publisher-loc>S&#227;o Paulo, SP, Brazil</publisher-loc>
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      <article-id pub-id-type="publisher-id" specific-use="scielo-v2">S0066-782X2005000400015</article-id>
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      <article-id pub-id-type="doi">10.1590/S0066-782X2005000400015</article-id>
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        <subj-group subj-group-type="heading">
          <subject>Correla&#231;&#227;o Anatomocl&#237;nica</subject>
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        <article-title>Caso 2/2005 - Choque em homem de 103 anos com hist&#243;ria de insufici&#234;ncia card&#237;aca de longa dura&#231;&#227;o ap&#243;s infarto do mioc&#225;rdio h&#225; 10 anos (Instituto do Cora&#231;&#227;o do Hospital das Cl&#237;nicas - FMUSP, S&#227;o Paulo)</article-title>
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          <trans-title>Circulatory shock in a 103 year-old man with a history of long lasting heart failure following acute myocardial infarction ten years before</trans-title>
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            <given-names>Thiago Marchini</given-names>
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            <given-names>Paulo Sampaio</given-names>
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        <month>04</month>
        <year>2005</year>
      </pub-date>
      <volume>84</volume>
      <issue>4</issue>
      <fpage>345</fpage>
      <lpage>349</lpage>
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      <pub-date publication-format="electronic" date-type="pub">
        <day>03</day>
        <month>05</month>
        <year>2005</year>
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  <body>
    <p>
      <bold>CORRELA&#199;&#195;O ANATOMOCL&#205;NICA</bold>
    </p>
    <p>Caso 2/2005 - Choque em homem de 103 anos com hist&#243;ria de insufici&#234;ncia card&#237;aca de longa dura&#231;&#227;o ap&#243;s infarto do mioc&#225;rdio h&#225; 10 anos (Instituto do Cora&#231;&#227;o do Hospital das Cl&#237;nicas - FMUSP, S&#227;o Paulo)</p>
    <p>
      <bold>Circulatory shock in a 103 year-old man with a history of long lasting heart failure following acute myocardial infarction ten years before</bold>
    </p>
    <p>
      <bold>Thiago Marchini Naves; Tarso Augusto D. Accorsi; Paulo Sampaio Gutierrez</bold>
    </p>
    <p> S&#227;o Paulo - SP</p>
    <p>
      <xref ref-type="corresp" rid="end">Endere&#231;o para correspond&#234;ncia</xref>
    </p>
    <p> Homem de 103 anos foi trazido ao hospital em raz&#227;o de dispn&#233;ia e queda do estado geral. O paciente sabia ser portador de hipertens&#227;o desde a idade de 80 anos. </p>
    <p>Havia procurado atendimento no Hospital em 31/7/1991, com 91 anos de idade, em raz&#227;o de dor precordial de dois dias de dura&#231;&#227;o. O eletrocardiograma revelou supradesnivelamento de segmento ST nas deriva&#231;&#245;es DI, aVL, V<sub>5</sub> e V<sub>6</sub> e infradesnivelamento em V<sub>2</sub> e V<sub>3</sub>, com anterioriza&#231;&#227;o do QRS (<xref ref-type="fig" rid="fig01">fig. 1</xref>). A taxa s&#233;rica de CKMB foi 61 U/l e o valor m&#225;ximo 94 UI/l. </p>
    <fig id="fig01">
      <graphic xlink:href="1678-4170-abc-84-04-0345-00015-gf01.jpg"/></fig>
    <p>Foi feito o diagn&#243;stico de infarto agudo do mioc&#225;rdio (IAM) de parede &#237;nfero-dorsal. O paciente evoluiu sem complica&#231;&#245;es e recebeu alta no s&#233;timo dia ap&#243;s o infarto com prescri&#231;&#227;o de 30 mg de propranolol, 120 mg de diltiazem, 120 mg de dinitrato de isossorbida e 100 mg de &#225;cido acetilsalic&#237;lico di&#225;rios. </p>
    <p>Um m&#234;s ap&#243;s o infarto (28/08/91) foi reinternado por dispn&#233;ia desencadeada por m&#237;nimos esfor&#231;os, ortopn&#233;ia e intenso edema de membros inferiores. Ap&#243;s tratamento, recebeu alta hospitalar com prescri&#231;&#227;o de furosemida 40 mg, digoxina 0,25 mg e captopril 18,75 mg di&#225;rios. </p>
    <p>As avalia&#231;&#245;es ecocardiogr&#225;ficas demonstraram dilata&#231;&#227;o e disfun&#231;&#227;o acentuadas do ventr&#237;culo esquerdo, que permaneceram inalteradas durante toda a evolu&#231;&#227;o (<xref ref-type="table" rid="tab01">tab. I</xref>). Alguns exames laboratoriais colhidos no seguimento s&#227;o apresentados na <xref ref-type="table" rid="tab02">tabela II</xref>. </p>
    <table-wrap id="tab01">
      <graphic xlink:href="1678-4170-abc-84-04-0345-00015-gt01.jpg"/></table-wrap>
    <table-wrap id="tab02">
      <graphic xlink:href="1678-4170-abc-84-04-0345-00015-gt02.jpg"/></table-wrap>
    <p>O paciente teve boa evolu&#231;&#227;o at&#233; 18 abril 1994, quando apresentou piora da dispn&#233;ia, agora aos m&#237;nimos esfor&#231;os e em dec&#250;bito. Foi feito o diagn&#243;stico de fibrila&#231;&#227;o atrial (<xref ref-type="fig" rid="fig02">fig. 2</xref>) e hospitalizado para tratamento. Exames laboratoriais na <xref ref-type="table" rid="tab02">tabela II</xref>. </p>
    <fig id="fig02">
      <graphic xlink:href="1678-4170-abc-84-04-0345-00015-gf02.jpg"/></fig>
    <p>Cerca de dois anos ap&#243;s apresentou nova descompensa&#231;&#227;o com dispn&#233;ia aos m&#237;nimos esfor&#231;os quando foi constatada anemia atribu&#237;da a hemorragia digestiva por &#250;lcera (<xref ref-type="table" rid="tab02">tab II</xref>). A pesquisa de <italic>Helicobacter pylori</italic> foi positiva e o paciente foi hospitalizado, e recebendo transfus&#227;o de concentrado de hem&#225;cias. </p>
    <p>Nos v&#225;rios controles ambulatoriais durante o seguimento, o estado cl&#237;nico variou de assintom&#225;tico a dispn&#233;ia desencadeada por esfor&#231;os moderados. O ritmo card&#237;aco era fibrila&#231;&#227;o atrial, que tornou-se cr&#244;nica. O eletrocardiograma em 1998 revelou fibrila&#231;&#227;o atrial, dist&#250;rbio de condu&#231;&#227;o intraventricular e &#225;rea inativa &#226;ntero-septal (<xref ref-type="fig" rid="fig03">fig. 3</xref>). </p>
    <fig id="fig03">
      <graphic xlink:href="1678-4170-abc-84-04-0345-00015-gf03.jpg"/></fig>
    <p>Na &#250;ltima interna&#231;&#227;o, o paciente foi trazido ao hospital por familiares que relatavam piora da dispn&#233;ia. O paciente estava em mau estado geral, gemente com freq&#252;&#234;ncia card&#237;aca de 90 bpm, press&#227;o arterial inaud&#237;vel, com murm&#250;rio vesicular diminu&#237;do. O exame do cora&#231;&#227;o revelou bulhas hipofon&#233;ticas, arr&#237;tmicas, sem sopros. O abdome encontrava-se distendido, com ru&#237;dos hidroa&#233;reos presentes, e havia edema discreto de membros inferiores. O paciente apresentou bradicardia e foi realizada intuba&#231;&#227;o orotraqueal; algumas horas ap&#243;s apresentou fibrila&#231;&#227;o ventricular seguida de assistolia, ap&#243;s desfibrila&#231;&#227;o el&#233;trica, vindo a falecer (18/08/2003). </p>
    <p>A gasimetria nessa &#250;ltima interna&#231;&#227;o, ap&#243;s intuba&#231;&#227;o orotraqueal e em FIO<sub>2</sub> de 100% revelou pH=7,29; pO<sub>2</sub>=165 mm Hg; pCO<sub>2</sub>=38 mm Hg; Sat O<sub>2</sub>=198,6%; HCO<sub>3</sub>=18 mEq/l e excesso de base=-7,5 mEq/l. </p>
    <p>
      <bold>Aspectos cl&#237;nicos </bold>
    </p>
    <p>O caso apresentado trata de um paciente de 103 anos, portador de hipertens&#227;o arterial sist&#234;mica desde 80 anos. Em 1991, ent&#227;o com 91 anos de idade, procurou servi&#231;o m&#233;dico com hist&#243;ria de dor precordial h&#225; 2 dias, sendo diagnosticado IAM com supradesnivelamento do segmento ST da parede &#237;nfero-dorsal. Teve boa evolu&#231;&#227;o, tendo recebido tratamento conservador. Recebeu alta, com prescri&#231;&#227;o de propranolol, diltiazem, nitrato e &#225;cido acetilsalic&#237;lico. </p>
    <p>O infarto agudo do mioc&#225;rdio (IAM), apresenta maior mortalidade em pacientes idosos em compara&#231;&#227;o com pacientes mais jovens. O estudo GUSTO-I demonstrou que a mortalidade hospitalar aumenta de acordo com a idade, sendo de 3% em pacientes com menos de 65 anos; 9,5% entre 65 e 74 anos; 19,6% nos que tinham entre 75 e 84 anos e 30,3% nos maiores de 85 anos <sup>1</sup>. </p>
    <p>Esse aumento de mortalidade decorre da presen&#231;a de comorbidades e ao processo de envelhecimento, levando principalmente a altera&#231;&#245;es no relaxamento card&#237;aco, altera&#231;&#227;o da resposta dos barorreceptores e receptores adren&#233;rgicos, e diminui&#231;&#227;o da fun&#231;&#227;o renal e fun&#231;&#227;o pulmonar. Al&#233;m disso, s&#227;o mais comuns as complica&#231;&#245;es do IAM, como a insufici&#234;ncia card&#237;aca congestiva, o choque cardiog&#234;nico, as arritmias e a ruptura card&#237;aca <sup>2</sup>. </p>
    <p>No caso apresentado, podemos constatar que, de acordo com dados do <italic>Multicenter Chest Pain Study</italic>, indiv&#237;duos idosos levam mais tempo para procurar o hospital. Apenas 18% dos pacientes acima de 75 anos chegam ao servi&#231;o de emerg&#234;ncia com menos de 6 horas do in&#237;cio dos sintomas, em compara&#231;&#227;o com 34% dos pacientes com menos de 65 anos. Esse atraso decorre principalmente da apresenta&#231;&#227;o at&#237;pica do IAM nessa popula&#231;&#227;o. Diferentemente do que ocorre em pacientes mais jovens, em que a dor &#233; a queixa mais proeminente, a dispn&#233;ia &#233; um dos sintomas mais comuns de IAM nos idosos, ocorrendo em 8 a 25% dos casos. Dor anginosa est&#225; presente em 25 a 43%, e dor leve associada &#224; dispn&#233;ia, em 50% dos casos <sup>4</sup>. </p>
    <p>Outro estudo mostrou que o tempo "porta-agulha" tamb&#233;m &#233; maior nesses pacientes, estando apenas 22% dentro dos 30 minutos preconizados pela <italic>American Heart Association</italic> <sup>5</sup>. </p>
    <p>Ainda &#233; discutido na literatura o benef&#237;cio do uso de trombol&#237;ticos. Estudo randomizado publicado em 2002 com 87 pacientes mostrou vantagens da angioplastia prim&#225;ria <sup>6</sup>. </p>
    <p> Nos pacientes com mais de 65 anos, 20 a 50% apresentam isquemia silenciosa no eletrocardiograma de esfor&#231;o, sendo esta um marcador de eventos coronarianos (IAM n&#227;o fatal e &#243;bito). A mortalidade dos indiv&#237;duos com isquemia silenciosa est&#225; ligada principalmente &#224; fun&#231;&#227;o do ventr&#237;culo esquerdo, extens&#227;o da doen&#231;a coronariana e presen&#231;a de comorbidades <sup>7.</sup></p>
    <p>A doen&#231;a arterial coronariana em idosos pode ter como primeira manifesta&#231;&#227;o a fal&#234;ncia aguda do ventr&#237;culo esquerdo, edema agudo de pulm&#227;o, arritmias (batimentos prematuros ventriculares, taquicardia ventricular, fibrila&#231;&#227;o ventricular), s&#237;ncope, acidente vascular cerebral e confus&#227;o mental. </p>
    <p>O paciente em quest&#227;o foi tratado de forma conservadora, sem a realiza&#231;&#227;o de teste provocativo de isquemia ou estratifica&#231;&#227;o invasiva com cineangiocoronariografia. De acordo com as recomenda&#231;&#245;es da ACC/AHA, a realiza&#231;&#227;o desse exame no paciente teria aplica&#231;&#227;o na classe IIa (sobreviventes de IAM com fra&#231;&#227;o de eje&#231;&#227;o do ventr&#237;culo esquerdo menor que 40% ou insufici&#234;ncia card&#237;aca) <sup>8</sup>. </p>
    <p>O cateterismo card&#237;aco &#233; um procedimento relativamente seguro. A mortalidade varia de 0,14 a 0,75% dos indiv&#237;duos. Estudos mostram que a mortalidade aumenta em alguns grupos de pacientes, como os portadores de estenoses superiores a 50% do tronco de coron&#225;ria esquerda (0,94%), FEVE inferior a 30% (0,54%), insufici&#234;ncia card&#237;aca classe funcional III ou IV (0,24%), valvopatia a&#243;rtica (0,23%), doen&#231;a coron&#225;ria triarterial (0,13%) e idade superior a 60 anos (0,23%). Outros fatores s&#227;o hipertens&#227;o arterial sist&#234;mica, choque e insufici&#234;ncia renal. Em octagen&#225;rios, a mortalidade chega a 0,8%, e as complica&#231;&#245;es n&#227;o fatais chegam a 5% <sup>9</sup>. </p>
    <p>Na prescri&#231;&#227;o de alta do paciente foram receitados propranolol, diltiazem, nitrato e &#225;cido acetilsalic&#237;lico. H&#225; estudos mostrando seguran&#231;a, tolerabilidade e os mesmos benef&#237;cios do carvedilol (redu&#231;&#227;o da mortalidade, melhora da qualidade de vida, aumento da FEVE e da toler&#226;ncia ao exerc&#237;cio), tanto para pacientes jovens quanto para maiores de 65 anos com insufici&#234;ncia card&#237;aca e disfun&#231;&#227;o sist&#243;lica <sup>10,11</sup>. &#201; recomendada a prescri&#231;&#227;o de inibidores da enzima conversora de angiotensina nos casos de IAM com disfun&#231;&#227;o do VE (cl&#237;nica ou FEVE &lt;0,40), diab&#233;ticos, acometimento da parede anterior, se n&#227;o houver contra-indica&#231;&#245;es. Estudos mostram que apenas 68% pacientes com insufici&#234;ncia card&#237;aca e mais de 70 anos recebem inibidores da ECA, e apenas 40% recebem a dose preconizada pelos estudos <sup>12</sup>. N&#227;o dispomos da avalia&#231;&#227;o do perfil lip&#237;dico basal do paciente, mas &#233; importante salientar o uso de hipolipemiantes (particularmente as estatinas), em pacientes com LDL-C acima de 130mg/dL e em casos selecionados com LDL-C entre 100 e 130mg/dL <sup>13</sup>. O uso de nitratos deve ser restrito aos pacientes com angina, isquemia mioc&#225;rdica ou insufici&#234;ncia card&#237;aca. Os antagonistas dos canais de c&#225;lcio n&#227;o demostraram benef&#237;cio evidente ap&#243;s IAM, sendo em geral considerados quando contra-indicados os betabloqueadores, ou em presen&#231;a de HAS ou angina refrat&#225;ria <sup>14</sup>. </p>
    <p>Nessa faixa et&#225;ria, muitos m&#233;dicos evitam o uso de medicamentos que podem causar sangramentos. Dados obtidos de pacientes com mais de 65 anos, mostram que a combina&#231;&#227;o do &#225;cido acetilsalic&#237;lico e clopidogrel ou warfarin leva a um aumento de 2 a 3 vezes no risco de sangramento requerendo interna&#231;&#227;o. &#201; importante salientar ser esse um risco relativamente baixo (5,7 e 6,9 por 1000 pacientes por m&#234;s) <sup>15</sup>. </p>
    <p>Ap&#243;s um m&#234;s do IAM, o paciente reinternou por quadro de insufici&#234;ncia card&#237;aca provavelmente por miocardiopatia isqu&#234;mica. Pacientes com esse tipo de miocardiopatia podem se beneficiar de revasculariza&#231;&#227;o do mioc&#225;rdio, por angioplastia ou cirurgia, desde que pesados riscos e benef&#237;cios, detec&#231;&#227;o de mioc&#225;rdio vi&#225;vel e anatomia coron&#225;ria adequada. Com rela&#231;&#227;o &#224; cirurgia, h&#225; maior risco em idosos e maiores &#237;ndices de morbidade: baixo d&#233;bito card&#237;aco, AVC, infec&#231;&#245;es e maior tempo de hospitaliza&#231;&#227;o. Pacientes octagen&#225;rios se beneficiam da cirurgia, pois ap&#243;s sobreviverem ao perioperat&#243;rio, apresentaram sobrevida igual aos indiv&#237;duos da popula&#231;&#227;o geral. Estudo realizado no Instituto do Cora&#231;&#227;o (InCor) com 100 pacientes em 2.000, comparou revasculariza&#231;&#227;o mioc&#225;rdica com e sem CEC em pacientes com mais de 70 anos, mostrando mortalidade semelhante entre os dois grupos (92% x 96% de sobrevida em 30 dias) e maior n&#250;mero de coron&#225;rias revascularizadas no primeiro grupo <sup>16</sup>. Em outro estudo com 361 pacientes com mais de 70 anos submetidos a cirurgia de revasculariza&#231;&#227;o, 49,3% apresentaram alguma complica&#231;&#227;o no per&#237;odo p&#243;s-operat&#243;rio, sendo as mais freq&#252;entes: baixo d&#233;bito card&#237;aco (31,7%), infec&#231;&#227;o (28,1%), suporte ventilat&#243;rio prolongado (22,4%), insufici&#234;ncia renal (14,7%) e AVC (9,1%), sendo a mortalidade de 9,1% <sup>17</sup>. Foi tamb&#233;m demostrada nesse trabalho, melhora da classe funcional da insufici&#234;ncia card&#237;aca em 90% e redu&#231;&#227;o da angina em 95% dos indiv&#237;duos. Estudo n&#227;o randomizado publicado em 2004 mostrou que pacientes octagen&#225;rios com doen&#231;a arterial coronariana aguda submetidos a coronariografia e teste provocativo de isquemia apresentaram menor mortalidade que os que receberam tratamento medicamentoso <sup>18</sup>. </p>
    <p>Na evolu&#231;&#227;o do paciente, em 1994, apresentou fibrila&#231;&#227;o atrial (FA) e descompensa&#231;&#227;o da insufici&#234;ncia card&#237;aca. O IAM &#233; um fator de risco independente em homens para FA. De acordo com recomenda&#231;&#245;es atuais, poder-se-ia ter optado por tentativa de revers&#227;o a ritmo sinusal ou controle da resposta ventricular, associados a anticoagula&#231;&#227;o oral com warfarin (paciente de alto risco para AVC), se n&#227;o houvesse contra-indica&#231;&#245;es <sup>19</sup>. H&#225; estudos promissores a respeito de abla&#231;&#227;o por cateter em pacientes com insufici&#234;ncia card&#237;aca e FA <sup>20</sup>. </p>
    <p>Em outra interna&#231;&#227;o, apresentou anemia decorrente de hemorragia digestiva alta. Neste momento, ap&#243;s o tratamento da &#250;lcera, haveria a possibilidade de se trocar o &#225;cido acetilsalic&#237;lico por derivados da tienopiridina. </p>
    <p>Na &#250;ltima interna&#231;&#227;o o paciente apresentou piora da dispn&#233;ia, PA inaud&#237;vel, murm&#250;rio vesicular diminu&#237;do, bulhas hipofon&#233;ticas arr&#237;tmicas, abdome distendido e edema de membros inferiores. Apresentou tamb&#233;m bradicardia, evoluindo a PCR por FV seguida de assistolia e &#243;bito ap&#243;s a desfibrila&#231;&#227;o. </p>
    <p>Resumindo o quadro, trata-se de um paciente idoso, portador de miocardiopatia isqu&#234;mica com insufici&#234;ncia card&#237;aca progressiva, submetido a tratamento conservador, complicada por fibrila&#231;&#227;o atrial, disfun&#231;&#227;o renal e hemorragia digestiva. </p>
    <p>(Dr. Thiago Marchini Naves e </p>
    <p> Dr. Tarso Augusto D. Accorsi)</p>
    <p><bold>Hip&#243;teses diagn&#243;sticas: </bold>1) Novo quadro de isquemia mioc&#225;rdica; 2) tromboembolismo pulmonar, devido aos fatores de risco para TVP (idade, imobiliza&#231;&#227;o, ICC, IAM pr&#233;vio); 3) novo sangramento intestinal: presen&#231;a de distens&#227;o abdominal, colapso hemodin&#226;mico; 4) derrame pleural, secund&#225;rio a insufici&#234;ncia card&#237;aca, levando a hipoxemia; 5) patologia inflamat&#243;ria abdominal, levando a descompensa&#231;&#227;o da insufici&#234;ncia card&#237;aca; 6) acidente vascular cerebral, levando a altera&#231;&#227;o do n&#237;vel de consci&#234;ncia, poss&#237;vel broncoaspira&#231;&#227;o e hipoxemia. </p>
    <p>(Dr. Thiago Marchini Naves e </p>
    <p> Dr. Tarso Augusto D. Accorsi)</p>
    <p>
      <bold>Necropsia</bold>
    </p>
    <p>A principal doen&#231;a do paciente era aterosclerose, que atingiu principalmente a aorta e as art&#233;rias coron&#225;rias. Na primeira, teve como conseq&#252;&#234;ncia aneurisma de aorta abdominal. Nas coron&#225;rias, foi vista trombose antiga recanalizada no quinto cent&#237;metro do ramo <italic>diagonalis</italic> da art&#233;ria coron&#225;ria esquerda (<xref ref-type="fig" rid="fig04">fig. 4</xref>). Em correspond&#234;ncia, havia extenso infarto do mioc&#225;rdio cicatrizado na parede lateral do ventr&#237;culo esquerdo (<xref ref-type="fig" rid="fig05">fig. 5</xref>). </p>
    <fig id="fig04">
      <graphic xlink:href="1678-4170-abc-84-04-0345-00015-gf04.jpg"/></fig>
    <fig id="fig05">
      <graphic xlink:href="1678-4170-abc-84-04-0345-00015-gf05.jpg"/></fig>
    <p>A despeito do paciente ser hipertenso, inclusive com arteriolosclerose renal, a hipertrofia do ventr&#237;culo esquerdo era discreta. </p>
    <p>O exame microsc&#243;pico do mioc&#225;rdio est&#225; representado na <xref ref-type="fig" rid="fig06">figura 6</xref>. Al&#233;m da fibrose decorrente da cicatriza&#231;&#227;o do infarto, havia m&#250;ltiplas &#225;reas de dep&#243;sito extracelular amorfo, que se marcaram positivamente &#224; colora&#231;&#227;o pelo vermelho-Congo, caracterizando-se portanto como amil&#243;ide. O mesmo dep&#243;sito foi tamb&#233;m encontrado em vasos da microcircula&#231;&#227;o pulmonar, espl&#234;nica e renal, mas n&#227;o na &#225;rvore coron&#225;ria. </p>
    <fig id="fig06">
      <graphic xlink:href="1678-4170-abc-84-04-0345-00015-gf06.jpg"/></fig>
    <p>A associa&#231;&#227;o de infarto com amiloidose causou insufici&#234;ncia card&#237;aca congestiva. A morte foi decorrente de tromboembolismo pulmonar &#224; direita. </p>
    <p>Chama a aten&#231;&#227;o que o paciente tenha tido um grande infarto do mioc&#225;rdio &#226;ntero-lateral com mais de 90 anos de idade, e ainda sobrevivido dez anos. Mais ainda, a fun&#231;&#227;o mioc&#225;rdica era adicionalmente prejudicada por acentuado dep&#243;sito amil&#243;ide, presente tamb&#233;m na microcircula&#231;&#227;o de alguns outros &#243;rg&#227;os. </p>
    <p>A despeito do avan&#231;o dos m&#233;todos diagn&#243;sticos das &#250;ltimas d&#233;cadas, o diagn&#243;stico de amiloidose continua na maior parte das vezes sendo feito s&#243; &#224; necropsia. Em levantamento dos casos de nosso hospital, verificamos que em geral s&#243; &#233; feito em vida nos casos bem t&#237;picos, em pessoas sem outras doen&#231;as cardiovasculares. Entretanto, principalmente em idosos, em boa parte dos casos a amiloidose &#233; acompanhante de outra doen&#231;a card&#237;aca. </p>
    <p>Com rela&#231;&#227;o &#224; classifica&#231;&#227;o dessa doen&#231;a de dep&#243;sito, h&#225; uma tend&#234;ncia que aponta a que venha a se basear n&#227;o no quadro cl&#237;nico-patol&#243;gico, mas na mol&#233;cula defeituosa. Como n&#227;o dispomos dessa possibilidade, o presente quadro pode ser considerado de <italic>amiloidose sist&#234;mica senil</italic>. Devido ao envolvimento dominante do cora&#231;&#227;o, e &#224; disfun&#231;&#227;o relacionada, esta forma foi anteriormente chamada de <italic>amiloidose card&#237;aca senil</italic>. O amil&#243;ide nesses casos &#233; composto pela mol&#233;cula normal da transtirretina, que &#233; uma prote&#237;na s&#233;rica que transporta tiroxina e retinol. Em adi&#231;&#227;o &#224; amiloidose sist&#234;mica senil espor&#225;dica, em que a transtirretina acumulada &#233; normal, foi tamb&#233;m reconhecida outra forma, que afeta predominantemente o cora&#231;&#227;o e resulta de deposi&#231;&#227;o de forma mutante dessa prote&#237;na <sup>21</sup>.</p>
    <p>
      <bold>(Dr. Paulo Sampaio Gutierrez)</bold>
    </p>
    <p><bold>Diagn&#243;stico anatomopatol&#243;gico: </bold>Infarto do mioc&#225;rdio cicatrizado, decorrente de aterosclerose coron&#225;ria, amiloidose sist&#234;mica senil, com envolvimento predominante do cora&#231;&#227;o. Insufici&#234;ncia card&#237;aca congestiva decorrente das duas condi&#231;&#245;es acima.</p>
    <p>
      <bold>(Dr. Paulo Sampaio Gutierrez) </bold>
    </p>
    <p><bold>Causa mortis: </bold>Tromboembolismo pulmonar &#224; direita. </p>
    <p>
      <bold>(Dr. Paulo Sampaio Gutierrez)</bold>
    </p>
    <p>
      <bold>Refer&#234;ncias</bold>
    </p>
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    <p>
      <fn id="end" fn-type="corresp">
        <label>
          <bold>Endere&#231;o para correspond&#234;ncia</bold>
        </label>
        <p> Paulo Sampaio Gutierrez </p>
        <p> InCor </p>
        <p> Av. Dr Eneas de Carvalho Aguiar, 44 </p>
        <p> Cep 05403-000 - S&#227;o Paulo, SP </p>
        <p> E-mail: </p>
        <p>
          <email xlink:href="anppaulo@incor.usp.br">anppaulo@incor.usp.br</email>
        </p>
      </fn>
    </p>
    <p><bold>Editor da Se&#231;&#227;o:</bold> Alfredo Jos&#233; Mansur (<email xlink:href="ajmansur@incor.usp.br">ajmansur@incor.usp.br</email>) </p>
    <p><bold>Editores Associados:</bold> Desid&#233;rio Favarato (<email xlink:href="dclfavarato@incor.usp.br">dclfavarato@incor.usp.br</email>) </p>
    <p> Vera DemarchiAiello (<email xlink:href="anpvera@incor.usp.br">anpvera@incor.usp.br</email>) </p>
  </body>
</article>
